Saúde
Idoso começa a tocar piano na maturidade e nota melhora na memória: o desafio que ajuda a manter a mente desperta conforme o tempo passa
comemoração de cinco décadas de álbum icônico do rock traz à tona o poder da música; saiba por que o instrumento é um escudo para o cérebro
Você pode achar estranho sentar diante de um teclado pela primeira vez aos 60 ou 70 anos. Aprender as primeiras notas na maturidade virou uma das estratégias mais eficientes para blindar a memória e afastar o declínio cognitivo. A divulgação da versão inédita de piano e voz da faixa “Street Kids”, lançada por Elton John para celebrar cinco décadas do álbum “Rock of the Westies”, reacendeu a curiosidade pública sobre a capacidade que o instrumento tem de manter a mente desperta ao longo dos anos.
Como o instrumento consegue transformar o cérebro maduro?
Tocar piano exige um esforço neurológico sem comparação. As duas mãos realizam comandos motores distintos de forma síncrona, enquanto os olhos decodificam símbolos e os ouvidos avaliam a afinação em frações de segundo.
Esse processo ativa redes neurais espalhadas pelos dois hemisférios cerebrais. A neurocientista Clara E. James, professora da Universidade de Genebra, na Suíça, liderou uma pesquisa clínica que avaliou idosos submetidos a aulas regulares de teclado durante seis meses.
O estudo revelou aumento expressivo da substância cinzenta no córtex auditivo primário e no cerebelo. Essa mudança estrutural preserva a memória operacional e eleva a velocidade do processamento mental nas tarefas do cotidiano.
É tarde demais para criar novas conexões neurais na velhice?
Muitos ainda acreditam no mito de que o cérebro maduro perde a capacidade de aprender tarefas inéditas. Essa ideia não tem respaldo científico: a neuroplasticidade permanece ativa ao longo de toda a trajetória adulta.
A psicóloga e pesquisadora Jennifer Bugos, professora associada da Universidade do Sul da Flórida, investigou os efeitos do treinamento musical em voluntários entre 60 e 85 anos. Os resultados apontaram ganhos notáveis na fluência verbal e nas funções executivas.
O cérebro responde ao estímulo sonoro construindo rotas neurais alternativas para contornar o desgaste do tempo. Por esse motivo, a ausência de treino musical na infância ou na juventude nunca representa uma barreira biológica.
Quais reflexos práticos aparecem no cotidiano?
O treino no teclado desenvolve diretamente a coordenação motora fina. As mãos ganham precisão e estabilidade, facilitando atividades manuais corriqueiras como abotoar camisas, assinar documentos e manusear talheres ou ferramentas com total firmeza.
O exercício também estimula a dopamina e modula as taxas de cortisol no organismo. Esse reequilíbrio químico diminui episódios de ansiedade, melhora a qualidade do sono e afasta o risco de isolamento social.
A proteção mental não requer o virtuosismo técnico de Elton John: apenas vinte minutos de dedicação diária fornecem o estímulo necessário para preservar a autonomia e a clareza de pensamento.