Após décadas de debate, Brasil passa a ter montanhas de forma oficial; veja critérios

Durante décadas, a ideia de que o Brasil não tinha montanhas esteve presente não só no senso comum, como também em livros didáticos e aulas de Geografia. A explicação vinha da classificação tradicional do relevo brasileiro, baseada principalmente em três grandes categorias: planaltos, planícies e depressões. No entanto, a discussão sempre despertou questionamentos, especialmente em regiões serranas, onde picos elevados e paisagens montanhosas fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas.

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A controvérsia existe porque não há uma definição única de montanha aceita em todo o mundo. Diferentes países utilizam critérios próprios, que podem considerar altitude, inclinação das encostas, formato do topo, volume do relevo e até a diferença de altura entre um ponto elevado e as áreas ao redor. Em algumas nações, uma elevação precisa atingir uma altitude mínima específica para ser considerada montanha; em outras, o aspecto visual e a configuração da paisagem têm maior importância.

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Nos Estados Unidos, por exemplo, é considerada montanha uma elevação com 1.000 pés (304,8 metros) de altura ou mais. No Reino Unido, a formação precisa ter pelo menos 2.000 pés (609,6 metros) de altura para ser classificada como montanha — esse mesmo padrão é adotado pela União Internacional das Associações de Alpinismo (UIAA). Outro país com muitas elevações geológicas, a Noruega não tem um critério específico.

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No caso brasileiro, a questão sempre foi influenciada pela própria história geológica do território. Localizado no interior da Placa Sul-Americana, longe das zonas onde ocorrem grandes colisões tectônicas, o país não desenvolveu cadeias montanhosas consideradas jovens como os Andes ou o Himalaia.

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As elevações existentes no Brasil são muito mais antigas e sofreram milhões de anos de erosão, o que resultou em formas mais arredondadas e menos abruptas. Com o objetivo de padronizar a classificação do relevo nacional, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) iniciou, em 2019, um amplo trabalho técnico que deu origem ao Sistema Brasileiro de Classificação do Relevo (SBCR).

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Após anos de estudos e debates entre especialistas, o grupo responsável chegou a um consenso sobre as principais características geomorfológicas presentes no território brasileiro. A grande novidade foi o reconhecimento oficial das montanhas como uma categoria própria do relevo nacional.

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Segundo os critérios estabelecidos, uma montanha deve apresentar pelo menos 300 metros de diferença de altura em relação ao terreno vizinho, encostas íngremes e topo pontiagudo, além de integrar um conjunto montanhoso ou uma serra. Com essa definição, formações como o Dedo de Deus, localizado entre Guapimirim e Teresópolis, no Rio de Janeiro, passaram a se enquadrar formalmente nessa classificação.

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O sistema também definiu outras categorias fundamentais. Os planaltos agora correspondem a áreas elevadas moldadas principalmente pela erosão sobre diferentes tipos de rochas. As planícies, por sua vez, são regiões relativamente planas, formadas pelo acúmulo de sedimentos e pela ação de rios, mares, lagos, lagoas e ventos.

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Outra classificação diz respeito às chamadas "superfícies rebaixadas", que representam terrenos mais baixos em relação às áreas vizinhas, enquanto os tabuleiros consistem em relevos planos ou suavemente ondulados, geralmente formados por sedimentos mais recentes.

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De acordo com os levantamentos do IBGE, as montanhas estão presentes em 14 estados brasileiros. O Rio de Janeiro concentra a maior proporção desse tipo de relevo, enquanto Minas Gerais, Bahia e Ceará possuem as áreas montanhosas mais extensas.

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Até mesmo alguns picos localizados na Amazônia passaram a integrar oficialmente essa categoria. Por outro lado, formações bastante conhecidas, como o Monte Roraima, o Pão de Açúcar e o Pico do Cabugi, no Rio Grande do Norte, ficaram de fora da classificação por não atenderem a todos os requisitos técnicos estabelecidos.

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O mapeamento completo dessas estruturas deve ser concluído pelo IBGE ainda em 2026. A nova metodologia representa um marco para a Geografia brasileira e redefine a forma como o relevo do país será estudado e compreendido nos próximos anos.

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