Niquim: veneno de peixe peçonhento que vive no litoral brasileiro tem proteínas raras e pode contribuir para avanços na medicina

Nas regiões costeiras dos estados do Norte e do Nordeste do Brasil, a vida marinha esconde criaturas de hábitos discretos, mas de grande interesse científico. Uma delas é o peixe-peçonhento conhecido popularmente como niquim, pertencente à espécie Thalassophryne nattereri.

Crédito: Reprodução/YouTube

Embora tenha poucos centímetros de comprimento e permaneça quase invisível debaixo da areia, o niquim está entre os peixes peçonhentos que mais causam acidentes no litoral brasileiro. A espécie costuma se esconder em águas rasas de praias, manguezais e estuários.

Crédito: sascha_burgos/iNaturalist

Como permanece parcialmente enterrado no fundo, pescadores e banhistas muitas vezes pisam no animal sem perceber sua presença. O contato com seus espinhos venenosos provoca dor intensa, inchaço, necrose e feridas que podem levar semanas ou até meses para cicatrizar.

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Foi justamente esse comportamento incomum do veneno que despertou o interesse de pesquisadores do Instituto Butantan, que passaram a estudá-lo a partir de 1996. As pesquisas revelaram que as toxinas do niquim atuam de forma diferente das encontradas em serpentes e aranhas, pois dificultam a chegada das células de defesa ao local da lesão.

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"Ele provoca uma isquemia severa e desorganiza a matriz extracelular do tecido afetado, impedindo que as células de defesa cheguem à ferida. É exatamente esse mecanismo peculiar que explica a necrose intensa e a dificuldade extrema de cicatrização observadas nos pescadores acidentados", explicou ao g1 o biólogo Airton Cesar Silva.

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Durante as pesquisas, os cientistas identificaram proteínas inéditas, entre elas as Natterins e a Nattectin, que abriram novas possibilidades para compreender o funcionamento do sistema imunológico e os mecanismos da inflamação. Com o avanço dos estudos, essas moléculas deixaram de ser vistas apenas como componentes tóxicos e passaram a servir como ferramentas para pesquisas biomédicas.

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Outra descoberta importante mostrou que proteínas semelhantes às Natterins existem em centenas de espécies, incluindo corais, fungos, insetos e esponjas. "Isso mostra que essa família de proteínas é conservada há milhões de anos", explicou o biólogo.

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Apesar da fama, o niquim não costuma atacar pessoas de forma espontânea. Os acidentes acontecem quase sempre por contato acidental, quando alguém pisa ou manipula o peixe sem notar que ele está camuflado no sedimento.

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Além de desempenhar um papel importante no equilíbrio dos ecossistemas costeiros, o niquim se alimenta de pequenos peixes, crustáceos e outros organismos marinhos, contribuindo para a dinâmica da cadeia alimentar. Hoje, a espécie se tornou uma aliada valiosa da medicina moderna ao abrir novas portas para o desenvolvimento de terapias inovadoras e de remédios voltados ao tratamento de doenças inflamatórias crônicas.

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