‘Unicórnio do mar’: cientistas encontram explicação para uma das estruturas mais curiosas do mundo animal, o ‘chifre’ dos narvais

Conhecido por sua aparência incomum, o narval é uma espécie de baleia com uma das estruturas mais curiosas do reino animal: uma longa presa helicoidal que pode alcançar três metros de comprimento e se projeta a partir da sua cabeça.

Crédito: Nomad Sabor/Unsplash

Trata-se, na verdade, de um dente, quase sempre o canino esquerdo dos machos, que atravessa a mandíbula e o lábio superior antes de crescer para fora. Durante a Idade Média, essa característica alimentou histórias sobre criaturas fantásticas, e presas de narval chegaram a ser comercializadas como supostos chifres de unicórnio.

Crédito: Domínio Público

Séculos depois, a estrutura continua despertando o interesse da ciência. Agora, uma pesquisa internacional publicada na revista Nature Communications trouxe novas respostas sobre a forma peculiar dessa presa, que combina uma espiral externa com um crescimento surpreendentemente reto.

Crédito: Carsten Egevang/Greenland Institute of Natural Resources

Para investigar o fenômeno, conhecido como "o enigma da presa do narval", os pesquisadores recorreram a técnicas de imagem tridimensional por raios X e utilizaram até mesmo aceleradores de partículas chamados de síncrotrons. Os exames mostraram que a explicação está na organização dos tecidos que formam o dente.

Crédito: Divulgação/Netflix

A dentina, localizada na parte interna, apresenta uma espiral voltada para a direita, enquanto o cemento da camada externa segue a direção contrária. A oposição entre essas duas estruturas equilibra as forças durante o crescimento e impede que a presa se curve.

Crédito: Reprodução/YouTube Jinzo X

O resultado é uma longa formação em espiral que mantém uma trajetória quase reta, algo incomum entre os animais que possuem presas. As análises também revelaram marcas internas semelhantes aos anéis encontrados nos troncos das árvores.

Crédito: Carsten Egevang/Greenland Institute of Natural Resources

O estudo examinou exemplares preservados em coleções de museus e presas obtidas por inuítes da Groenlândia, que tradicionalmente caçam os cetáceos como fonte de alimento. Essas camadas podem ajudar os pesquisadores a reconstruir aspectos da trajetória de vida dos narvais, animais que podem viver cerca de 80 anos.

Crédito: Wikimedia Commons/Pcornill

Apesar dos avanços sobre a formação da presa, sua função ainda provoca debates. Existem hipóteses que associam a estrutura à caça ou à percepção de alterações na temperatura e na salinidade da água. Os autores da nova pesquisa, porém, consideram mais provável que ela tenha relação com a reprodução e a disputa entre machos, já que o crescimento desse dente ocorre quase exclusivamente nos indivíduos do sexo masculino.

Crédito: Wikimedia Commons

Observações anteriores registraram machos exibindo as próprias presas diante de fêmeas, comportamento que pode indicar uma demonstração de força ou dominância. Já Martin Nweeia, especialista em presas de narval da Universidade Harvard, defende uma interpretação diferente e aponta que a presa pode funcionar como um complexo órgão sensorial.

Crédito: Reprodução