Saúde
Microbiota humana: entenda como os microrganismos do corpo influenciam a saúde
Confira as diferenças entre microbiota e microbioma e veja como esses seres participam de processos essenciais do organismo
Formada por trilhões de microrganismos que vivem no corpo humano, a microbiota tem despertado cada vez mais interesse da ciência por seu papel na manutenção da saúde e por sua associação com o desenvolvimento de diversas doenças. Além de estar relacionada à digestão, ela também pode influenciar a imunidade, o metabolismo, a saúde ginecológica e a fertilidade.
Esses microrganismos estão distribuídos por diferentes regiões do organismo, como pele, boca, intestino e trato reprodutivo, nos quais desempenham funções específicas relacionadas ao equilíbrio do corpo. Estudos do Human Microbiome Project (HMP), iniciativa coordenada pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH), identificaram mais de 10 mil espécies microbianas no organismo humano e estimaram que o microbioma reúne cerca de 8 milhões de genes, um número muito superior aos aproximadamente 20 mil genes presentes no genoma humano.
Diferenças entre microbiota e microbioma
Apesar da crescente popularidade do tema, ainda existe confusão entre os conceitos de microbiota e microbioma. “Quando falamos em microbiota, estamos nos referindo ao conjunto de microrganismos que vivem naturalmente em determinada região do corpo, como bactérias, fungos e vírus. Já o microbioma corresponde ao patrimônio genético desses microrganismos, ou seja, ao conjunto de genes que eles carregam e às funções que desempenham no organismo”, explica o Dr. Cristovam Scapulatempo Neto, patologista da Dasa Genômica.
Importância dos microrganismos que vivem no corpo humano
Durante décadas, bactérias, fungos e outros microrganismos foram associados quase exclusivamente ao surgimento de doenças. Nos últimos anos, porém, os avanços da ciência revelaram uma realidade muito mais complexa: grande parte desses organismos exerce funções fundamentais para a manutenção da saúde. Eles participam de processos ligados à digestão, ao metabolismo, à regulação do sistema imunológico e até à comunicação entre diferentes órgãos e sistemas do corpo.
“Hoje sabemos que a saúde humana não depende apenas dos nossos próprios genes. Existe uma interação dinâmica e contínua entre o organismo e os trilhões de microrganismos que vivem nele. Quando esse equilíbrio é alterado, diferentes funções biológicas podem ser afetadas. Essa mudança de entendimento só foi possível graças ao avanço de tecnologias capazes de analisar o material genético desses microrganismos em larga escala”, explica Angela Cristina Gouveia Carvalho, patologista do laboratório Sérgio Franco.
Com base nessas descobertas, pesquisadores começaram a identificar possíveis relações entre a composição da microbiota e diversos aspectos da saúde, incluindo fertilidade, resposta imunológica, metabolismo e predisposição a algumas doenças.

O papel da microbiota na saúde feminina
Entre as descobertas mais recentes sobre o microbioma, uma das que mais têm chamado a atenção da comunidade científica está relacionada à saúde da mulher. Microrganismos presentes no trato reprodutivo feminino podem influenciar muito mais do que a proteção contra infecções, desempenhando um papel relevante na fertilidade, na gestação e na saúde ginecológica como um todo.
A microbiota vaginal saudável é caracterizada pela predominância de bactérias do gênero Lactobacillus, responsáveis por manter o ambiente vaginal equilibrado e protegido. Quando esse ecossistema sofre alterações, aumentam os riscos de infecções ginecológicas, processos inflamatórios e possíveis impactos na saúde reprodutiva.
Outro campo que vem despertando interesse crescente é o estudo da microbiota endometrial, conjunto de microrganismos presente no revestimento interno do útero. Pesquisas recentes investigam como essa comunidade microbiana pode influenciar a implantação embrionária e os desfechos gestacionais, ampliando a compreensão sobre fatores envolvidos na fertilidade feminina.
“Estamos ampliando a forma de compreender a saúde reprodutiva da mulher. Hoje sabemos que fertilidade e gestação não dependem apenas de hormônios, idade ou fatores genéticos. Existe também um ecossistema de microrganismos que interage constantemente com o organismo e pode influenciar diferentes etapas da reprodução, além de contribuir para a manutenção da saúde ginecológica ao longo da vida”, explica a Dra. Adriana Bittencourt Campaner, ginecologista e médica colposcopista da Dasa e do Alta Diagnósticos.
Avanços genéticos ampliam a análise do microbioma
Os avanços no Sequenciamento de Nova Geração (NGS) tornaram a análise do microbioma uma ferramenta cada vez mais relevante na prática clínica, permitindo avaliar com maior precisão diferentes ecossistemas presentes no organismo.
“O microbioma intestinal auxilia na compreensão de alterações relacionadas à saúde digestiva, ao metabolismo e à resposta imunológica; o microbioma vaginal permite identificar desequilíbrios associados à saúde íntima feminina; e o microbioma endometrial oferece informações complementares na investigação de infertilidade, falhas de implantação embrionária e perdas gestacionais recorrentes. Esses exames ampliam as possibilidades de uma investigação clínica mais personalizada e apoiam o médico na tomada de decisão”, finaliza o Dr. Cristovam Scapulatempo Neto.
Por Mariana Durante