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Alô, o refrigerador tá funcionando? ENTÃO SEGURA QUE ELE TÁ FUGINDO!’, se você nunca soltou essa num orelhão nos anos 90, você não viveu

De 1,3 milhão a 38 mil: o orelhão desaparece das ruas e leva a memória afetiva do Brasil com ele

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Alô, o refrigerador tá funcionando? ENTÃO SEGURA QUE ELE TÁ FUGINDO!', se você nunca soltou essa num orelhão nos anos 90, você não viveu
De 1,3 milhão para 38 mil. O orelhão desaparece das ruas e deixa saudade em gerações
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Ele já foi ponto de encontro, cabine de fofoca e até abrigo de chuva

O Brasil chegou a ter 1,3 milhão de orelhões espalhados pelas ruas. Hoje, restam menos de 38 mil, e a Anatel já começou a retirá-los de vez. O que esse sumiço diz sobre a nossa memória coletiva? ⬇️

Quem cresceu nos anos 90 sabe o ritual: procurar uma ficha no bolso, enfrentar a fila na calçada e torcer para que o aparelho estivesse funcionando. O orelhão era muito mais do que um telefone público. Era o lugar onde se combinava encontro, se pedia emprego, se dava a notícia boa e a ruim. Agora, a Anatel deu início à retirada definitiva desses aparelhos, e o Brasil assiste ao fim silencioso de um objeto que moldou a rotina de gerações inteiras.

Como uma arquiteta sino-brasileira inventou um ícone nacional?

A resposta começa em 1971, na rua Sete de Abril, em São Paulo. Chu Ming Silveira, arquiteta nascida em Xangai e radicada no Brasil desde criança, chefiava a seção de projetos da Companhia Telefônica Brasileira (CTB). Ela recebeu a missão de criar uma proteção acústica para os telefones de rua, e descartou as cabines fechadas europeias por serem inadequadas ao clima tropical.

A solução veio da natureza. Chu Ming se inspirou no formato do ovo de galinha, que considerava a melhor forma acústica existente. O resultado, batizado oficialmente de Chu II, era leve, resistente ao sol e à chuva, feito de fibra de vidro. Em poucos meses, a população já chamava a peça de “orelhão” pelo formato que lembrava uma grande orelha. O apelido grudou, e o design virou referência internacional, exportado para países da América Latina, da África e até da Ásia.

O orelhão está desaparecendo das ruas e muita gente nem percebeu

Por que o telefone público marcou tanto a geração dos anos 90?

Nos anos 90, ter um telefone fixo em casa ainda era privilégio. A linha residencial custava caro, e a espera por instalação podia levar meses. O orelhão funcionava como a internet daquela época: conectava pessoas separadas pela distância, pelo preço de uma ficha ou de um cartão telefônico.

Quem viveu aquele período carrega lembranças muito específicas. O ritual de uso do aparelho envolvia gestos que hoje parecem de outro século, mas que definiram o cotidiano de milhões de brasileiros.

  • Comprar fichas metálicas na banca de jornal e, a partir de 1992, trocar pelos primeiros cartões telefônicos
  • Esperar na fila do telefone público ouvindo (sem querer) a conversa alheia
  • Ligar a cobrar com aquela gravação mecânica que virou bordão: “Você recebeu uma ligação a cobrar de…”
  • Anotar números em agendas de papel e decorar os mais importantes
  • Usar a cúpula de fibra de vidro como abrigo improvisado durante tempestades

Cada um desses gestos fazia parte de uma cultura de comunicação analógica. A chegada dos celulares pré-pagos, no final da década, começou a esvaziar as filas nas calçadas, mas o aparelho de rua resistiu por mais de duas décadas.

Quais números mostram o desaparecimento dos aparelhos de rua?

A queda é vertiginosa. De símbolo nacional presente em mais de 5,5 mil municípios, o telefone público caminhou para a irrelevância em poucos anos. Os dados da CNN Brasil com base em dados da Anatel revelam a velocidade do declínio.

📊 A linha do tempo do sumiço
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Auge (anos 2000)

O Brasil alcançou 1,3 milhão de aparelhos instalados em todo o território nacional.

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Pré-pandemia (2020)

Restavam cerca de 200 mil unidades, já em ritmo acelerado de desativação.

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Fim de 2025

O país registrou apenas 38.454 orelhões, com 11,9% em manutenção.

Fonte: CNN Brasil / Anatel, janeiro de 2026

São Paulo concentra a maior parte dos aparelhos remanescentes, com quase 29 mil unidades. Na outra ponta, o Espírito Santo tem apenas 15. O Rio de Janeiro, que já foi vitrine do design de Chu Ming Silveira, conta com meros 55 telefones públicos.

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Alô, o refrigerador tá funcionando? ENTÃO SEGURA QUE ELE TÁ FUGINDO!’, se você nunca soltou essa num orelhão nos anos 90, você não viveu

O que muda com o fim das concessões de telefonia fixa?

A retirada ganhou ritmo em janeiro de 2026, quando os contratos de concessão do Serviço Telefônico Fixo Comutado chegaram ao fim. Com a migração para o regime de autorização, operadoras como Oi, Claro, Algar e Telefônica deixaram de ter obrigação legal de manter os aparelhos nas calçadas.

A agência reguladora definiu regras claras para essa transição. Elas determinam o destino dos equipamentos e os compromissos das empresas de telecomunicações.

  • Cerca de 30 mil carcaças de orelhões serão removidas das ruas em todo o país
  • Aparelhos só permanecem obrigatórios, até 2028, em localidades sem cobertura de celular
  • As operadoras devem redirecionar os recursos para expandir redes de banda larga, 4G e 5G
  • Ligações feitas dos aparelhos ainda ativos para telefones fixos passaram a ser gratuitas

Ainda dá tempo de sentir saudade antes do último tom de discar?

O fim do orelhão não é apenas uma questão de tecnologia. É o encerramento de um capítulo da vida urbana brasileira, um pedaço de história que carrega a assinatura genial de Chu Ming Silveira e a memória de milhões de conversas feitas na calçada. A boa notícia é que o design criado por ela já garantiu seu lugar como patrimônio cultural do país.

Se você ainda encontrar um desses aparelhos de fibra de vidro na sua rua, pare um segundo. Olhe para a curva que imita o ovo, lembre da ficha caindo no mecanismo, do barulho da rua competindo com a voz do outro lado. Esse é um ritual que o smartphone nunca vai reproduzir.