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Saúde

Eflúvio telógeno: veja a causa da queda de cabelo após infecções e o que fazer

O estresse provocado pela infecção pode alterar temporariamente o ciclo natural de crescimento dos fios, levando a um aumento da queda

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É comum ocorrer uma queda acentuada de cabelo após infecções (Imagem: New Africa | Shutterstock)

Durante o inverno, é comum haver um aumento nos casos de gripe, covid-19 e outras infecções respiratórias, devido às características da estação e à permanência em ambientes fechados, bem como à maior circulação de vírus. Embora muitas pessoas se recuperem dessas doenças em poucas semanas, algumas podem perceber, cerca de dois a três meses depois, uma queda intensa dos cabelos, o chamado eflúvio telógeno.

“Infecções são causas bem estabelecidas do eflúvio telógeno. O que acontece durante e após infecções é que existe um estado intensamente inflamatório capaz de ‘desprogramar’ o ciclo normal dos folículos e interromper a fase de crescimento de muitos fios, levando-os para a fase de queda (telógena). É como se o organismo sinalizasse aos fios que seu crescimento não é a prioridade naquele momento de muito estresse metabólico. Esse processo é geralmente difuso, autolimitado e reversível”, explica a Dra. Natalia Cymrot, dermatologista membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional São Paulo (SBD-RESP).

Quando o organismo enfrenta uma infecção, ele intensifica a atuação do sistema imunológico, com liberação de citocinas e outros mediadores inflamatórios que ajudam a eliminar vírus ou outros agentes causadores da doença. “Esse processo, associado ao aumento de hormônios relacionados ao estresse fisiológico, como o cortisol, e à redução temporária do aporte de oxigênio e nutrientes aos folículos pilosos, pode interromper precocemente a fase de crescimento dos fios”, diz o Dr. Daniel Cassiano, dermatologista e diretor da SBD-RESP.

Conforme o médico, esse processo faz com que uma quantidade maior de fios entre antes do tempo na fase de queda, dando origem ao eflúvio telógeno. “Em geral, quanto mais intensa ou prolongada for a infecção, maior tende a ser o impacto sobre o ciclo capilar”, ressalta.

Infecções que podem desencadear eflúvio telógeno

Segundo a Dra. Natalia Cymrot, uma simples gripe pode causar o eflúvio telógeno, mas infecções mais severas e prolongadas têm maior chance de desencadeá-lo, especialmente se houver febre alta. “No caso da covid-19, a doença provoca intensa inflamação, que se prolonga por meses após o período de positividade dos exames. Além disso, ainda pode haver alterações de coagulação com formação de microtrombos e possível efeito direto do vírus no folículo piloso, o que aumenta muito a chance de eflúvio telógeno. Na prática, é extremamente comum observar o eflúvio nos pacientes pós-covid-19”, diz.

Além da covid-19, outras infecções que provocam uma resposta inflamatória intensa no organismo também podem afetar o ciclo de crescimento dos fios. “Mas muitas outras infecções, especialmente as mais graves, prolongadas e que cursam com febre alta e internação hospitalar, também estão associadas com o surgimento do eflúvio telógeno, como pneumonias, escarlatina, coqueluche, tuberculose, malária, dengue, HIV, Influenza”, completa a médica.

A gravidade da infecção tem relação com o aumento de chance de ter o quadro. “Quadros moderados/graves, com necessidade de internação, que cursam com anemia, disfunções hormonais, diabetes, deficiências nutricionais, são mais propensos a desencadear o eflúvio”, comenta a Dra. Natalia Cymrot.

Quanto tempo dura a queda de cabelo?

Geralmente, o eflúvio telógeno surge entre 1 e 3 meses após a infecção, embora possa haver casos mais precoces, que se iniciem em 2 a 3 semanas após a infecção, o que é mais raro. “A duração também varia de 1 a 3 meses e os fios se recuperam entre 6 a 12 meses depois. É um processo que geralmente é autorresolutivo”, diz o Dr. Daniel Cassiano.

No geral, para evitar o quadro, o controle adequado da infecção e da inflamação pode evitar complicações graves e reduzir o risco de dano aos folículos pilosos. “O período pós-covid, por exemplo, associa-se a deficiências de ferro, vitamina D, B12 e ferritina (mesmo com ferro normal) em muitos pacientes, o que deve ser corrigido, pois favorece o aparecimento do eflúvio. Na medida do possível, a redução de estresse, a adequação do sono e o suporte psicológico são parte central do manejo da prevenção”, comenta a Dra. Natalia Cymrot.

Homem, com expressão séria no rosto, olhando o couro cabeludo em um espelho
O eflúvio telógeno na maioria das vezes se resolve sozinho, mas é importante investigar quando a queda tem um padrão diferente (Imagem: New Africa | Shutterstock)

Como diferenciar o eflúvio telógeno de outros tipos de queda

Conforme a Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional São Paulo, o eflúvio telógeno apresenta queda difusa de cabelos, sem falhas bem delimitadas, e o teste de tração mostra muitos fios saindo. “Os fios caem em grande quantidade no banho, travesseiro, escova; mas no exame é possível ver muitos fios curtos em crescimento ao longo dos meses”, explica a Dra. Natalia Cymrot.

No entanto, a evolução da queda ao longo do tempo deve ser observada. “Embora o eflúvio telógeno na grande maioria dos casos seja benigno e autolimitado, é importante investigar quando a queda tem um padrão diferente ou persiste além de 6 meses, o que pode sugerir eflúvio telógeno crônico ou outro tipo de alopecia”, ressalta a dermatologista.

A entidade médica informa que alopecias como androgenética ou areata têm padrões de distribuição, evolução e achados tricoscópicos diferentes, e costumam justificar avaliação precoce por dermatologista. “Devemos levantar suspeita de outras alopecias quando há áreas bem delimitadas de rarefação (entradas/frontal típicos de alopecia androgenética) ou placas (sugere alopecia areata, cicatricial etc.), em vez de queda difusa”, diz o Dr. Daniel Cassiano.

Conforme a Dra. Natalia Cymrot, o alerta também se estende quando há sinais inflamatórios no couro cabeludo, como dor importante, vermelhidão e descamação intensa. “Se houver história de outras doenças autoimunes, endócrinas, perda de peso acentuada, sangramentos, uso de certas medicações, ou qualquer sinal sistêmico preocupante, é mandatória a investigação adicional com tricoscopia, biópsia e exames laboratoriais”, afirma.

Acompanhamento é essencial durante a recuperação capilar

A Dra. Natalia Cymrot ressalta que essa forma de queda capilar costuma ser temporária e, na maioria dos casos, há recuperação espontânea dos fios. “A suplementação das possíveis deficiências nutricionais é importante, se houver alguma. Alguns artigos citam o uso de minoxidil tópico ou oral, embora haja ainda poucas evidências específicas para o eflúvio telógeno pós-infecção. Estímulos do couro cabeludo com alguns tipos de lasers e microagulhamento podem ajudar a recuperar o crescimento dos fios”, finaliza a médica.

Por Maria Claudia Amoroso