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A psicologia afirma: crianças nascidas entre 1951 e 1991 não se tornaram fortes por terem recebido uma criação melhor, mas porque precisaram aprender a gerir as próprias emoções

Quem nasceu entre 1951 e 1991 cresceu em um contexto diferente.

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Quem viveu essa criação carrega marcas boas e difíceis, misturadas no mesmo caráter.

Você provavelmente conhece alguém assim. A mãe que perdeu a filha e no dia seguinte estava no trabalho. O pai que teve infarto e voltou ao serviço em duas semanas. As crianças nascidas entre 1951 e 1991 carregam uma firmeza que impressiona, e a psicologia contemporânea tem uma explicação franca para isso: não foi uma criação melhor, foi a ausência dela em certos aspectos.

Você já parou para pensar na naturalidade com que essa geração aguenta o tranco?

Basta observar uma reunião de família de fim de ano. Alguém da geração mais velha conta, quase sem drama, que passou seis meses cuidando do pai doente enquanto trabalhava e criava três filhos sozinha. Ninguém da mesa comenta como isso foi impressionante. Para eles, era o que tinha que ser feito. E é justamente essa naturalidade que hoje chama atenção de quem não cresceu naquele contexto.

Do outro lado da mesa, os mais jovens sentem estranhamento. Nem sempre por acharem menos, mas por perceberem que aquela dureza tem um preço que ninguém falava. Entre a admiração e o desconforto, sobra uma pergunta: como aquelas pessoas viraram assim?

Esse período reúne quem hoje é chamado de baby boomer e da geração X.

O que a psicologia realmente diz sobre essa geração?

A psicologia moderna estudou o assunto com seriedade. A pesquisadora Emmy Werner, professora emérita da Universidade da Califórnia em Davis, liderou um dos estudos mais importantes já feitos sobre resiliência humana. Ela acompanhou 698 crianças nascidas em 1955 na ilha havaiana de Kauai, durante quatro décadas, e chegou a uma conclusão que mudou o campo.

O trabalho, publicado na revista Development and Psychopathology, pela Cambridge University Press, mostrou que cerca de um terço das crianças criadas em contextos difíceis (pobreza, brigas em casa, pais com problemas psíquicos) chegou à vida adulta como pessoas competentes e afetuosas. Não porque tiveram mais, mas porque o ambiente as obrigou a desenvolver habilidades emocionais cedo, quase por sobrevivência.

Por que o recorte entre 1951 e 1991 faz sentido?

Esse período reúne quem hoje é chamado de baby boomer e da geração X. Foram quatro décadas em que o mundo mudou de forma acelerada, mas a maneira de criar filhos ainda seguia o modelo antigo: pouca conversa sobre sentimento, choro visto como fraqueza, autonomia exigida cedo, tempo sozinho considerado normal, e a expectativa de que a criança se virasse com o que tinha.

Não é que os pais fossem cruéis. Muitos amavam profundamente. O que mudou depois foi o entendimento sobre acolhimento emocional. Ali, a regra era diferente. E quem cresceu ali aprendeu, por necessidade, a fazer sozinho um trabalho que hoje muitos aprendem em terapia: nomear o que sente, digerir a frustração, seguir mesmo quando dói.

Que habilidades essa geração desenvolveu de forma quase invisível?

Quem viveu essa criação carrega marcas boas e difíceis, misturadas no mesmo caráter. Os principais traços costumam ser estes:

1
Tolerância à frustração Aprender que nem tudo se resolve na hora que a gente quer virou parte do dia comum, sem drama.
2
Autonomia precoce Ir à padaria sozinho aos oito anos, ficar em casa cuidando dos irmãos, resolver problema sem consultar adulto.
3
Controle da expressão emocional Não era permitido gritar, chorar em público ou responder mal. Isso virou hábito automático de contenção.
4
Capacidade de esperar Sem tela para distrair, tédio virou terreno fértil. Esperar duas horas por algo era rotina, não punição.
5
Foco em resolver, não em processar A energia ia para a solução do problema, não para entender o que a pessoa sentia sobre ele.

Existe algum custo escondido nessa dureza toda?

Existe, e é aqui que a psicologia mais recente amplia o retrato. Uma revisão publicada na base Estudos de Psicologia, da SciELO, mostra que a autorregulação emocional se desenvolve melhor quando há suporte afetivo do cuidador, e não apenas quando a criança é deixada a resolver sozinha. Ou seja, aguentar sozinho forma um tipo de força, mas costuma cobrar um preço em outra parte da vida.

Muita gente dessa geração relata dificuldade em pedir ajuda, tendência a somatizar (o corpo adoece quando a emoção não sai), uso do trabalho como refúgio e resistência para ir ao psicólogo. A firmeza que impressiona por fora esconde, em muitos casos, uma solidão emocional que nunca teve espaço para aparecer.

O que essa geração pode ensinar sem virar exemplo cruel?

A parte útil da história é reconhecer o que essas pessoas desenvolveram de verdadeiro sem transformar aquilo em cobrança para os mais novos. Alguns aprendizados que resistem ao tempo:

  • Nem toda emoção precisa ser resolvida na hora, algumas passam sozinhas se você segue vivendo
  • Tédio, silêncio e espera são espaços onde a mente se organiza, não vilões a serem eliminados
  • Fazer o que precisa ser feito, mesmo sem vontade, é um músculo que se treina no dia a dia
  • Reclamação constante não muda o cenário, ação pequena e contínua muda
  • A vida cobra respostas mesmo quando você não está pronto, e responder já é meio caminho

São ensinamentos concretos, aplicáveis, que valem em qualquer época. Só precisam vir sem o peso de anular o direito da geração seguinte de sentir, chorar e pedir socorro quando é preciso.

Como comparar essa criação com a criação de hoje sem cair em nostalgia?

A tabela abaixo mostra o contraste entre as duas abordagens, com os ganhos e as perdas de cada uma:

Aspecto Criação de 1951 a 1991 Criação mais recente
Tolerância a frustração Adiar desejos, esperar Aprendida cedo por falta de opção Precisa ser estimulada
Expressão de emoções Poder dizer o que sente Contida, muitas vezes reprimida Encorajada em casa e na escola
Autonomia infantil Fazer coisas sozinho Alta desde a infância pequena Menor, com mais mediação
Acesso a ajuda emocional Terapia, escuta ativa Praticamente ausente ou estigmatizado Amplamente disponível
Custo de longo prazo Saúde mental adulta Somatização e solidão emocional Ansiedade ampliada, mas mais nomeada

Leia também: A psicologia afirma que as crianças nascidas entre 1955 e 1978…

Vale mesmo dizer que essa geração foi “mais forte”?

Depende do que se entende por força. Se for aguentar sem reclamar, sim, essa geração foi treinada para isso desde criança. Se for saber pedir ajuda, cuidar da própria saúde mental, ter vocabulário para nomear angústia e depressão, não. Nesse quesito, veio muito atrás das gerações seguintes, pelo simples motivo de que ninguém ensinou porque ninguém sabia.

Voltando à cena da reunião de família: aquela mãe que voltou ao trabalho no dia seguinte à morte da filha talvez não tenha sido mais forte, ela apenas fez o único movimento que sabia fazer. O elogio verdadeiro à firmeza dessas pessoas passa por reconhecer o que elas conquistaram sem manual, e ao mesmo tempo torcer para que os filhos e netos delas consigam desenvolver a mesma resistência com o que os mais velhos não tiveram: alguém por perto disposto a ouvir sem receita e sem pressa.