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Patrícia Abravanel já merece um programa para chamar de seu?

Após 15 anos de carreira e consolidada nos domingos do SBT, apresentadora prova que consegue preservar o legado de Silvio Santos. Mas talvez tenha chegado a hora de dar o próximo passo e construir uma atração com sua própria identidade

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Patricia Abravanel merece um programa próprio?

Quando Patrícia Abravanel apareceu diante das câmeras do SBT em 2011, seria difícil imaginar o tamanho da responsabilidade que assumiria pouco mais de uma década depois.

Sua estreia como apresentadora aconteceu justamente no Festival SBT 30 Anos, especial criado para revisitar a trajetória da emissora. Quinze anos depois, neste 19 de agosto de 2026, quando o SBT completa 45 anos, Patrícia ocupa uma posição completamente diferente dentro da televisão brasileira.

Ela não é mais simplesmente “a filha de Silvio Santos que virou apresentadora”.

Patrícia Abravanel tornou-se uma das principais apresentadoras de auditório da televisão aberta brasileira e, principalmente, conseguiu enfrentar uma missão que parecia praticamente impossível: comandar o programa eternamente associado ao maior comunicador da história do SBT.

A pergunta agora precisa mudar. Em vez de discutir se Patrícia consegue ocupar o lugar de Silvio Santos, está na hora de perguntar se ela já merece um programa para chamar de seu.

Quinze anos sendo testada pelo SBT

A trajetória de Patrícia diante das câmeras foi construída gradativamente.

Depois do Festival SBT 30 Anos, vieram experiências bastante diferentes entre si. Ela passou por atrações como Cante se Puder, Roda a Roda, Máquina da Fama, Topa ou Não Topa e Vem Pra Cá, além das participações no próprio Programa Silvio Santos.

O percurso teve erros, acertos e críticas. E isso foi fundamental.

Patrícia teve tempo para aprender diante do público. Foi desenvolvendo improvisação, domínio de palco, capacidade de conversar com convidados e, principalmente, experiência com auditório.

Em entrevista ao próprio SBT em 2021, quando completava dez anos de televisão, ela reconheceu esse processo de aprendizado. Ao falar sobre os conselhos recebidos do pai, contou que Silvio recomendava que não se deixasse dominar nem pelas críticas nem pelos elogios e que preservasse sua autenticidade.

“Segue o teu caminho”, foi uma das orientações que Patrícia recordou. Cinco anos depois daquela entrevista, é possível dizer que ela seguiu.

O desafio que parecia impossível

O verdadeiro teste, entretanto, aconteceu quando Silvio Santos começou a se afastar das gravações. Patrícia passou a assumir cada vez mais o dominical e, posteriormente, tornou-se definitivamente responsável pela atração. Ela própria admitiu que a situação foi difícil.

Em entrevista ao NaTelinha em 2022, Patrícia contou que inicialmente não sentia alegria ao apresentar o programa porque gostaria de ver o próprio pai naquele palco. Com o tempo, passou a interpretar a missão como uma maneira de homenageá-lo.

Na mesma conversa, fez uma afirmação importante: não se considerava substituta de Silvio Santos porque Silvio era insubstituível.

Quando perguntada sobre onde pretendia chegar profissionalmente, porém, deixou claro qual era seu caminho: queria continuar apresentando programas de auditório. Era praticamente uma declaração sobre sua vocação televisiva.

Patrícia conseguiu conquistar o público

O maior mérito de Patrícia foi sobreviver à comparação permanente com o pai. No início, houve resistência. Era inevitável. Silvio Santos não era apenas o apresentador do programa. Sua personalidade praticamente era o formato.

Patrícia precisava comandar brincadeiras criadas para o estilo de outra pessoa, repetir rituais conhecidos havia décadas e ocupar fisicamente o mesmo palco sem tentar transformar-se numa imitação do pai. Aos poucos, conseguiu encontrar seu próprio caminho.

Em análise publicada pelo UOL em 2025, o jornalista Ricky Hiraoka avaliou que Patrícia conseguiu imprimir personalidade própria ao Programa Silvio Santos mantendo a essência da atração. Segundo a análise, sua espontaneidade e seu carisma ajudaram inclusive a modernizar o formato sem transformá-lo em simples exercício de nostalgia.

A Veja chegou a conclusão semelhante, embora com ressalvas. Uma análise da revista destacou que Patrícia encontrou uma maneira própria de conduzir o programa. Seu estilo é diferente: enquanto Silvio podia ser ácido, provocador e sarcástico, Patrícia tende a ser mais sorridente, afetiva e comportada. Para a publicação, isso às vezes diminui a irreverência do programa, mas o saldo de sua condução tem mais acertos do que erros.

Ou seja: Patrícia deixou de ser apenas uma substituta. Ela desenvolveu uma personalidade televisiva. E a audiência mostrou que o programa consegue sobreviver. O Programa Silvio Santos continuou sendo uma das principais forças do SBT depois da morte de seu criador.

Em março de 2026, por exemplo, a atração alcançou 7 pontos na Grande São Paulo e conquistou a vice-liderança, superando a Record. Em 2025, uma edição com a volta do Show do Milhão chegou a superar a Globo durante 22 minutos.

Naturalmente existem oscilações. Em abril de 2026, o programa chegou ao pior desempenho nacional em mais de dois anos, mostrando que nem mesmo a principal atração do SBT está imune às dificuldades atuais da emissora e da própria televisão aberta.

Ainda assim, o programa permanece competitivo. Isso significa que Patrícia já passou pelo teste mais importante de todos: o público continuou assistindo mesmo sem Silvio Santos.

Então por que continuar carregando o nome do pai? Aqui começa uma discussão mais delicada.

Preservar o Programa Silvio Santos depois da morte de seu criador fez sentido. Era necessário estabelecer uma transição.

Silvio Santos morreu em 2024. Simplesmente retirar seu nome da programação imediatamente poderia parecer uma ruptura brusca justamente quando público, funcionários e família ainda assimilavam sua ausência.

Patrícia também assumiu publicamente o compromisso de preservar esse legado. Antes mesmo da morte do pai, chegou a pedir que ela e as irmãs tivessem capacidade de fortalecer o SBT e fazê-lo continuar crescendo.

Mas preservar um legado não significa necessariamente congelá-lo. Dois anos depois da morte de Silvio e aproximadamente cinco anos depois de Patrícia começar a assumir regularmente seu espaço, talvez exista uma oportunidade para uma segunda transição.

A primeira foi: Silvio Santos → Patrícia Abravanel no Programa Silvio Santos.

A segunda poderia ser: Programa Silvio Santos → Programa Patrícia Abravanel.

Ou qualquer outro nome capaz de construir uma marca independente.

Não seria necessário abandonar Silvio Santos

Dar identidade própria à atração não significaria apagar sua história. Muito pelo contrário. Quadros como Show do Milhão, Qual É a Música?, Jogo das 3 Pistas, Show de Calouros e Câmeras Escondidas poderiam continuar existindo. A própria página oficial do programa em 2026 mostra como vários desses formatos históricos permanecem estruturando o dominical.

A diferença estaria no conceito. Em vez de Patrícia comandar permanentemente o programa de Silvio Santos, ela passaria a comandar seu programa, dentro do qual também viveriam algumas das criações e marcas consagradas pelo pai.

É uma diferença aparentemente pequena, mas simbolicamente enorme. Permitiria inclusive mudanças maiores de cenário, linguagem, duração e novos quadros sem a obrigação permanente de perguntar:

“Silvio faria isso?”

A pergunta passaria a ser:

“Isso combina com Patrícia?”

O maior risco é Patrícia ficar eternamente presa ao legado

Existe uma ironia nessa história. Patrícia já provou que consegue preservar o legado de Silvio Santos. Agora precisa tomar cuidado para que esse mesmo legado não limite sua própria trajetória.

Ela tem 15 anos de televisão. Passou por diferentes formatos. Aprendeu a trabalhar com auditório. Conquistou maior naturalidade diante das câmeras. Segurou o principal programa da emissora durante a ausência do pai. Enfrentou sua morte. Manteve o dominical competitivo. E desenvolveu características próprias como comunicadora.

Até o conselho de Silvio Santos apontava nessa direção. Em entrevista de 2025, Patrícia recordou que o pai dizia para que fosse ela mesma e não tentasse imitá-lo. Ela afirmou que procura manter a alegria, a liberdade e a interação com o auditório herdadas do programa, mas acrescentando seu próprio jeito.

Talvez levar esse conselho às últimas consequências signifique justamente deixar de apresentar permanentemente um programa chamado Silvio Santos.

Patrícia já falou sobre ter seu próprio programa?

Não, ela nunca declarou publicamente o desejo de retirar o nome do pai do dominical ou criar imediatamente uma atração chamada “Programa da Patrícia”, por exemplo. O que existe são sinais sobre a carreira que pretende construir. Em 2022, ela disse explicitamente que queria continuar como apresentadora de programa de auditório.

Mais recentemente, suas declarações se concentram muito mais em construir uma identidade própria dentro do programa herdado. Em entrevista publicada em 2025, disse que não pretende ser como o pai e que procura ser sua própria versão diante das câmeras.

Portanto, transformar o dominical definitivamente em uma atração de Patrícia seria, neste momento, muito mais uma possibilidade editorial e estratégica do que um projeto anunciado publicamente pela apresentadora ou pelo SBT.

Herdeira, empresária e apresentadora

Existe ainda outra característica importante. Patrícia não ocupa apenas uma posição artística dentro do SBT. Como uma das filhas e herdeiras de Silvio Santos, pertence à família controladora do grupo. Isso significa que sua relação com a emissora ultrapassa a de uma apresentadora contratada.

Mas justamente por isso sua consolidação profissional talvez seja ainda mais importante. Ser filha de Silvio abriu portas — algo que a própria Patrícia nunca negou. Em 2022, ela classificou essas oportunidades como um privilégio, mas observou que junto delas vieram cobrança e pouco espaço para errar.

Quinze anos depois da estreia, entretanto, atribuir sua permanência na televisão exclusivamente ao sobrenome Abravanel seria ignorar sua trajetória. O sobrenome abriu a porta. Mas permanecer 15 anos diante das câmeras, assumir um dos programas mais importantes da televisão brasileira e manter público suficiente para sustentá-lo exige mais do que herança.

Patrícia Abravanel já merece um programa para chamar de seu?

Sim.

E talvez esse seja justamente o próximo passo natural de sua carreira. Isso não significa necessariamente deixar os domingos. Nem abandonar o horário histórico de Silvio Santos. Tampouco jogar fora quadros que fazem parte da memória afetiva do público.

Uma solução interessante poderia ser transformar gradativamente o atual dominical em um programa cada vez mais associado à personalidade de Patrícia. Os clássicos permaneceriam, mas dividiriam espaço com formatos concebidos especialmente para ela.

Silvio Santos continuaria presente como referência histórica — não como uma sombra permanente sobre quem estiver no palco. Porque existe uma diferença fundamental entre continuar o programa de alguém e construir o próprio programa inspirado por alguém.

Patrícia passou os últimos anos provando que consegue cuidar do primeiro. Aos 48 anos, completando 15 anos de carreira justamente quando o SBT chega aos 45, talvez esteja chegando a hora de descobrir o que ela poderia fazer com o segundo.

Silvio Santos construiu uma televisão à sua imagem. Talvez o maior sinal de que seu legado realmente sobreviveu seja permitir que sua filha faça exatamente aquilo que ele lhe aconselhou anos atrás: ser ela mesma.

O texto Patrícia Abravanel já merece um programa para chamar de seu? foi publicado primeiro no Observatório da TV.