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Em 1970, um engenheiro comprou um terreno remoto nos Montes Ozark e, aos poucos, construiu uma casa de concreto armado na encosta; mais de 50 anos depois, seu filho está restaurando-a cômodo por cômodo
Pai constrói casa na encosta e o filho escolhe preservar cada detalhe da obra
Em 1970, um engenheiro chamado Conway comprou um terreno remoto nas Montanhas St. Francois, no sudeste do Missouri, e começou a fazer algo que nenhum manual de construção convencional descreveria como residência: escavar diretamente a encosta e selar o espaço aberto com paredes de concreto armado de 30 centímetros de espessura. Sem arquiteto, sem construtora, com pouca ajuda externa e com o próprio filho crescendo ao lado enquanto as paredes iam subindo. Cinquenta anos depois da primeira pazada de terra, a casa ainda não apresentou uma única infiltração. O filho, Zane Conway, está restaurando o que o pai deixou, um cômodo de cada vez.
Quem foi Conway e o que o levou a construir uma casa dentro de uma montanha?
Conway foi um engenheiro que passou a carreira nas minas de chumbo da região dos Ozarks, um trabalho que exige convivência diária com estruturas subterrâneas, com o comportamento da rocha, com ventilação em espaços fechados e com a lógica de fazer durar o que é construído para durar. Antes das minas, ele havia servido na Força Aérea americana como um dos quatro homens que operavam um dos silos de mísseis nucleares Titan II durante a Guerra Fria, outra forma de existência underground que moldou sua relação com o espaço fechado e com a engenharia de sobrevivência.
Quando comprou o terreno em 1970, Conway queria viver a pelo menos uma milha de distância de qualquer outro ser humano. O terreno remoto nos Ozarks atendia a esse critério. A encosta era o material de construção que ele tinha disponível, e ele decidiu usá-la como tal. A ideia central era fazer a casa desaparecer na paisagem, não se impor a ela. “Tudo se encaixando na natureza, não dominando a natureza, mas vivendo em relação simbiótica com ela”, disse o filho Zane ao descrever a visão do pai.
Como foi construída a casa subterrânea sem arquiteto e sem construtora?
O processo de construção da casa subterrânea seguiu a lógica de quem projeta e executa ao mesmo tempo. Conway escavou a encosta manualmente, abriu o espaço que queria ocupar e então selou as paredes, o teto e o piso com concreto armado de 30 centímetros de espessura, estrutura com aço interno que distribui as tensões e impede rachaduras sob o peso da terra ao redor. A entrada da casa foi marcada por uma única parede de esquadrias de vidro soldadas à mão, que capturam a luz como a boca de uma caverna e oferecem vista para o vale abaixo.
O sistema de ventilação foi uma das contribuições de engenharia mais sofisticadas do projeto. Em vez de usar ar condicionado ou aquecimento convencional, Conway projetou um sistema que puxa o ar do exterior e o faz passar pelo solo ao redor antes de distribuí-lo pelos cômodos. O solo funciona como regulador térmico natural: no verão, resfria o ar que entra; no inverno, aquece. O resultado é uma temperatura interna estável durante todo o ano sem sistema elétrico de climatização, o que no clima extremo do Missouri, com verões que passam dos 35°C e invernos com geadas severas, representa uma vantagem estrutural considerável.

O que faz essa casa resistir ao tempo de forma que construções convencionais não conseguem?
A resposta está em três escolhas que Conway fez por razões de engenharia, não de economia. A primeira foi o concreto armado de espessura superior à do padrão convencional, que distribui as cargas da terra ao redor sem ceder ao longo das décadas. A segunda foi a integração à encosta, que elimina a exposição às intempéries que deteriora fachadas, telhados e estruturas externas de casas convencionais. A terceira foi a ventilação passiva, que mantém a umidade interna controlada sem criar os ciclos de expansão e contração que racham paredes e danificam acabamentos ao longo do tempo.
O resultado mais citado por quem visitou a propriedade é que em mais de cinquenta anos de existência, a casa subterrânea de Conway nunca teve uma infiltração. Em uma região com chuvas abundantes e solo rochoso que canaliza água de forma imprevisível, esse desempenho é a prova mais concreta de que os cálculos estavam certos desde o início.
Como Zane Conway está restaurando o que o pai construiu?
Desde que Conway morreu em 2018, o filho Zane ficou responsável tanto pela casa quanto pelos 91 hectares de propriedade ao redor. A restauração que ele conduz não é uma reforma no sentido convencional. É um processo de devolver a cada cômodo o estado em que estava quando o pai o havia finalizado, respeitando os materiais e as escolhas originais sem substituí-los por equivalentes mais modernos ou mais fáceis de obter.
A abordagem cômodo por cômodo tem uma lógica prática: permite que partes da casa sejam habitadas ou usadas enquanto outras estão sendo trabalhadas. Mas tem também uma dimensão que os comentários deixados por quem acompanhou o trabalho de Zane em vídeo documentaram com clareza. Um espectador escreveu: “A principal coisa que aprendi com esse documentário é que esse homem realmente amava seus pais. Para mim, não é sobre a construção, é sobre o amor que foi transmitido.”
O que a história de Conway diz sobre construir para durar e não para vender?
A casa subterrânea de Conway não tem valor de mercado convencional. Ela não atende a nenhum critério de avaliação imobiliária padrão: está em terreno remoto, foi construída sem alvará, sem arquiteto registrado e com materiais aplicados de forma que nenhuma construtora reproduziria dentro de um custo viável. Ela existe porque um homem decidiu construir para si mesmo, para sua família e para o tempo, sem nenhuma consideração sobre o que um comprador futuro pagaria por ela.
Essa ausência de cálculo comercial é exatamente o que a torna singular. Cada escolha estrutural foi feita para maximizar a durabilidade e o conforto de quem ia viver ali, não para reduzir o custo de construção nem para facilitar a revenda. O concreto armado de 30 centímetros existe porque Conway sabia que era necessário, não porque era o mais barato. O sistema de ventilação passiva existe porque ele entendia o clima dos Ozarks e queria independência energética, não porque era tendência de mercado.

Uma casa que um pai construiu e um filho escolheu preservar
O que Zane Conway está fazendo ao restaurar a casa subterrânea cômodo por cômodo é também uma forma de documentar o que o pai sabia e como esse conhecimento foi aplicado em cada detalhe construtivo. As esquadrias de vidro soldadas à mão na entrada, o corredor projetado para ser largo o suficiente para conduzir luz natural até os quartos internos, as colunas de concreto estrutural disfarçadas de rocha, cada escolha conta algo sobre o engenheiro que as fez.
Conway passou décadas construindo uma casa que deveria parecer que sempre esteve ali. Cinquenta anos depois, ela ainda não vazou, ainda regula sua própria temperatura e ainda está de pé exatamente onde foi construída, embutida na encosta dos Montes Ozark como se a montanha a tivesse gerado. O filho que a restaura entendeu que preservar isso é mais importante do que qualquer modernização que pudesse oferecer.