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Em 1911, soltaram apenas 10 renas em uma ilha remota e, quase um século depois, cerca de 7 mil animais precisaram ser retirados após a população sair do controle
Uma tentativa de levar carne fresca a trabalhadores começa com 10 renas e termina décadas depois com milhares sendo retiradas
Uma tentativa de levar alimento e uma lembrança de casa para trabalhadores noruegueses acabou provocando uma transformação ecológica inesperada na ilha Geórgia do Sul. Em 1911, um dos primeiros grupos levados ao território tinha apenas 10 renas. Décadas depois, os animais haviam se multiplicado e ocupado extensas áreas livres de gelo, pressionando a vegetação nativa e levando as autoridades a organizar uma grande operação de erradicação.
Por que apenas 10 renas foram levadas para a Geórgia do Sul?
No início do século XX, baleeiros noruegueses trabalhavam em estações instaladas nessa ilha subantártica extremamente remota. As renas foram introduzidas principalmente para fornecer carne fresca, diversificar a alimentação e permitir atividades de caça semelhantes às praticadas na Noruega.
Em 1911, um grupo formado por sete fêmeas e três machos chegou à região da península de Barff. Outras introduções ocorreram posteriormente em diferentes pontos da ilha, contribuindo para o estabelecimento de novas populações. Alguns fatores favoreceram sua permanência:
- Ausência de grandes predadores terrestres naturais;
- Disponibilidade de áreas costeiras com vegetação;
- Capacidade das renas de suportar ambientes frios;
- Reprodução dos animais que conseguiram se estabelecer;
- Isolamento geográfico característico da ilha.

Como uma população tão pequena conseguiu crescer tanto?
Durante parte do período de exploração baleeira, a quantidade de animais era limitada por caçadas regulares. Esse controle diminuiu ao longo das décadas e praticamente deixou de existir a partir dos anos 1980. Sem manejo contínuo e sem predadores capazes de conter naturalmente os rebanhos, as renas continuaram ocupando novas áreas.
Elas avançaram principalmente pelas regiões costeiras livres de gelo, justamente onde se concentra boa parte da produtividade vegetal da Geórgia do Sul. O que inicialmente era uma fonte adicional de alimento passou a ser tratado como uma população invasora com capacidade de alterar o ambiente.
Que problemas as renas começaram a provocar na ilha?
O impacto mais evidente ocorreu sobre a vegetação subantártica. Os animais consumiam intensamente gramíneas e outras plantas nativas, além de pisotear áreas sensíveis. Em determinados pontos, a pressão de pastagem deixou porções do terreno praticamente sem cobertura vegetal.
O problema não ficou restrito às plantas. A mudança na cobertura do solo produziu consequências para diferentes componentes do ecossistema:
Danos à vegetação e fauna
- 1Redução de comunidades vegetais nativas.
- 2Exposição do solo e aumento da vulnerabilidade à erosão.
- 3Pisoteio de áreas utilizadas por aves marinhas.
- 4Colapso de algumas tocas escavadas no terreno.
- 5Dispersão de sementes de plantas não nativas pela ilha.
Como quase 7 mil renas foram retiradas de um território tão remoto?
Diante do avanço dos impactos ambientais, o governo da Geórgia do Sul e das Ilhas Sandwich do Sul decidiu eliminar a população introduzida. A grande operação começou em 2013 e reuniu especialistas noruegueses, pastores sami, veterinários, cientistas, atiradores e equipes de apoio.
Nas áreas mais acessíveis, grupos de renas foram conduzidos para cercados temporários. Em terrenos montanhosos e de difícil acesso, equipes especializadas utilizaram outros métodos de remoção. Somente em uma etapa realizada na península de Barff, seis atiradores noruegueses eliminaram 3.140 animais em aproximadamente seis semanas.
Quantas renas existiam quando a operação chegou ao fim?
O programa realizado durante os verões austrais de 2013 e 2014 removeu mais de 6.600 animais, número frequentemente arredondado para cerca de 7 mil renas, considerando o conjunto das ações de erradicação. Parte da carne obtida durante a primeira etapa foi aproveitada comercialmente, inclusive no abastecimento das Ilhas Falkland e de embarcações que circulavam pela região.
Após a retirada, áreas submetidas durante décadas a pastoreio intenso começaram a apresentar sinais de recuperação. A volta da vegetação ajuda novamente a estabilizar o solo e favorece ambientes utilizados por invertebrados e aves que fazem ninhos no chão ou em tocas.
O que aconteceu depois que as renas desapareceram da Geórgia do Sul?
A história mostra como uma introdução aparentemente pequena pode produzir consequências completamente diferentes décadas depois. As 10 renas levadas à península de Barff em 1911 não foram os únicos animais introduzidos posteriormente, mas representam o início de um processo que ajudou a estabelecer rebanhos capazes de ocupar algumas das áreas biologicamente mais importantes da ilha.
Mais de um século depois daquela primeira experiência, a prioridade passou a ser restaurar o ambiente existente antes da chegada dos animais. A recuperação observada após a erradicação transformou a Geórgia do Sul em um exemplo marcante dos efeitos de espécies introduzidas em ilhas isoladas: aquilo que começou como uma solução prática para poucos trabalhadores acabou exigindo uma operação internacional para retirar milhares de animais e permitir que o ecossistema começasse a se recompor.