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Herdeiros podem perder parte dos bens deixados em testamento por causa da regra que garante metade da herança aos herdeiros necessários

Testamento pode deixar bens para quem o falecido quiser, mas uma regra dos 50% pode reduzir o que cada beneficiário recebe

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Herdeiros podem perder parte dos bens deixados em testamento por causa da regra que garante metade da herança aos herdeiros necessários
Herdeiros podem receber menos do que está escrito no testamento quando metade da herança precisa ser preservada por lei

Fazer um testamento permite organizar a sucessão e indicar quem receberá determinados bens depois da morte, mas essa liberdade possui limites importantes no Brasil. Quando existem herdeiros necessários, metade do patrimônio deve ser reservada a eles. Se o testamento ultrapassar essa parcela disponível, beneficiários escolhidos pelo falecido podem receber menos do que estava escrito originalmente.

Quem são os herdeiros necessários protegidos pela lei?

O Código Civil considera herdeiros necessários os descendentes, os ascendentes e o cônjuge. Dependendo da composição da família e do regime sucessório aplicável, filhos, pais ou o cônjuge sobrevivente podem ter direito à parte protegida da herança.

Essa proteção recebe o nome de legítima. Na prática, significa que uma parcela do patrimônio não pode ser livremente retirada desses sucessores apenas por vontade expressa em testamento.

Por que apenas metade da herança pode ser distribuída livremente?

Quando há herdeiros necessários, a legislação reserva 50% da herança para eles. A outra metade recebe o nome de parte disponível e pode ser destinada pelo testador a quem desejar, inclusive amigos, parentes mais distantes, instituições ou até aos próprios herdeiros necessários.

A divisão básica funciona da seguinte forma:

  • 50% do patrimônio corresponde à legítima dos herdeiros necessários;
  • 50% corresponde à parcela disponível para disposição livre;
  • O testador pode indicar beneficiários diferentes dentro da parte disponível;
  • A legítima precisa continuar preservada mesmo quando o testamento organiza todo o patrimônio;
  • Disposições que excedam o limite podem ser reduzidas posteriormente.

O que acontece se o testamento deixar mais da metade para outra pessoa?

Imagine um patrimônio líquido de R$ 1 milhão e a existência de filhos que sejam herdeiros necessários. Em princípio, R$ 500 mil correspondem à legítima e precisam permanecer protegidos. Os outros R$ 500 mil formam a parcela sobre a qual existe maior liberdade testamentária.

Se o documento determinar, por exemplo, que um amigo receba R$ 700 mil e essa disposição acabar invadindo a legítima, isso não significa necessariamente que todo o testamento será descartado. O excesso pode ser reduzido até que a parcela dos herdeiros necessários seja recomposta.

Herdeiros podem perder parte dos bens deixados em testamento por causa da regra que garante metade da herança aos herdeiros necessários
Herdeiros podem receber menos do que está escrito no testamento quando metade da herança precisa ser preservada por lei

Como funciona a redução das disposições testamentárias?

O Código Civil prevê que aquilo que ultrapassar a parte disponível deve ser reduzido aos limites permitidos. Dessa maneira, a vontade do testador é preservada tanto quanto possível, mas sem retirar dos herdeiros necessários a proteção mínima estabelecida pela legislação.

Na prática, essa correção pode atingir:

  • Percentuais destinados a herdeiros escolhidos no testamento;
  • Legados de determinados bens;
  • Valores deixados a parentes que não sejam herdeiros necessários;
  • Benefícios destinados a terceiros;
  • Disposições que, somadas, ultrapassem a metade disponível.

Isso significa que um herdeiro citado no testamento pode receber menos?

Sim. A pessoa pode estar expressamente indicada para receber determinado percentual ou bem e, ainda assim, ter sua participação reduzida durante o inventário se for constatado que aquela disposição comprometeu a legítima.

Por isso, o conteúdo escrito no testamento precisa ser confrontado com o patrimônio existente no momento da abertura da sucessão, as dívidas, os herdeiros presentes e as regras aplicáveis. O cálculo efetivo pode ser diferente daquele imaginado anos antes, quando o documento foi elaborado.

O testador pode falar sobre 100% dos bens no documento?

Pode. O Superior Tribunal de Justiça já reconheceu que o testamento pode organizar a totalidade do patrimônio, inclusive indicando como serão distribuídos bens pertencentes à parte reservada aos herdeiros necessários.

O limite está no resultado dessa organização. O documento não pode reduzir a parcela mínima assegurada por lei. Assim, mencionar 100% dos bens é diferente de ter liberdade para entregar 100% deles a qualquer pessoa, ignorando a legítima.

É possível deixar toda a herança para apenas um filho?

A resposta depende da existência de outros herdeiros necessários e da forma como o patrimônio é dividido. Um filho pode receber, além da parcela que já lhe cabe na legítima, toda ou parte da metade disponível, o que pode fazer com que termine com uma participação maior que a dos irmãos.

Algumas situações precisam ser analisadas separadamente:

Fatores que influenciam a herança

O que pode mudar a divisão

  • 1Número de descendentes existentes.
  • 2Existência de cônjuge sobrevivente.
  • 3Regime de bens do casamento.
  • 4Composição e valor do patrimônio.
  • 5Doações realizadas anteriormente.
  • 6Percentual efetivamente destinado pela parte disponível.

Um testamento pode excluir completamente um filho da herança?

Não pela simples vontade de favorecer outra pessoa. Sendo herdeiro necessário, o filho possui proteção sobre a legítima. A exclusão por indignidade ou deserdação depende de situações específicas previstas na legislação e não pode ser criada livremente pelo testador apenas porque existe conflito familiar.

Da mesma maneira, escrever no documento que determinado descendente “não receberá nada” não basta para eliminar automaticamente seus direitos. Se a exclusão não tiver fundamento jurídico válido, a legítima poderá ser reclamada no processo sucessório.

Por que um testamento bem planejado evita disputas depois da morte?

O testamento continua sendo uma ferramenta importante para organizar bens, favorecer determinadas pessoas dentro dos limites legais e deixar instruções mais claras sobre a sucessão. O problema aparece quando a distribuição é feita sem considerar previamente a legítima, as doações anteriores e a composição familiar.

Quando metade da herança está protegida por lei, a vontade escrita precisa conviver com esse limite. Beneficiários podem descobrir durante o inventário que receberão menos do que o documento inicialmente indicava, não porque o testamento tenha perdido todo o valor, mas porque nenhuma disposição pode retirar dos herdeiros necessários a parcela que a legislação já lhes garante.