Brasil
Daniel Vorcaro afirma ter pago ‘todos os voos’ de Nikolas Ferreira e ameaça expor parlamentar
Conversas divulgadas mostram cobranças e ameaças; parlamentar pediu desculpas por críticas
Daniel Vorcaro assumiu ter pago os voos do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), segundo mensagens trocadas com o empresário Flávio Carneiro em abril de 2024 e divulgadas nesta quinta-feira (3/9) pelo portal ICL Notícias. “Esse Nikolas eu banquei todos os voos dele”, escreveu o dono do Banco Master. Na sequência, o banqueiro ameaçou tornar o assunto público: “Vouch (sic) mandar soltar isso”.
As mensagens não especificam quantos voos foram custeados nem a qual período exato a afirmação se refere. O material veio à tona durante apurações da Polícia Federal sobre a relação entre Vorcaro e Carneiro, investigado sob suspeita de ser sócio oculto do banqueiro.
Cobranças e mediação do pastor André Valadão
O episódio que mais movimentou as trocas de mensagens foi o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres em abril de 2024. Quando Nikolas passou a questionar nas redes sociais quem havia financiado a viagem de ministros do STF, STJ e TSE ao evento, Vorcaro reagiu rapidamente. O banqueiro tratou do assunto ao mesmo tempo com o pastor André Valadão, líder da Igreja Batista da Lagoinha, da qual Nikolas é membro, com uma funcionária responsável pelo monitoramento de redes sociais do Master e com o próprio Carneiro.
Carneiro alertou Vorcaro sobre os riscos das publicações do deputado. “Babaquice isso. Se não parar vai virar pauta de discussão no Congresso mesmo. Estão usando isso para atacar os caras sem medir as consequências”, escreveu. Os dois também discutiram uma nota da CEO do Grupo Voto que destacaria o caráter privado do fórum sem mencionar o patrocínio do Master. “Acho que isso mata o tema do ponto de vista de transparência”, avaliou Carneiro, acrescentando que o evento era uma espécie de confraria e que isso “existe em todo lugar”.
Paralelamente, Vorcaro pediu a Valadão que interviesse junto ao deputado. “De novo pedir sua ajuda com Nikolas. Estão usando a fala dele pra me atacar, por conta de patrocínio num evento em Londres”, escreveu o banqueiro, que também mencionou o senador Ciro Nogueira (PP-PI) como participante do encontro e “um grande amigo”. O pastor respondeu: “Oi Dani. Claro amanhã falo com ele.”
Linha do tempo da relação entre banqueiro e deputado
Entenda os principais momentos da ligação entre Daniel Vorcaro e Nikolas Ferreira.
Nikolas utilizou aeronave de Vorcaro por dez dias para apoiar a campanha de Jair Bolsonaro em nove estados.
O deputado criticou evento financiado pelo Banco Master, gerando cobranças e descontentamento do banqueiro.
O líder religioso atuou como ponte entre os dois, levando pedidos de desculpas de Nikolas a Vorcaro.
Em 2025, o parlamentar recorreu ao banqueiro para liberar um ativo de mineração em favor de seu advogado.
Dois dias depois, em 29 de abril, Nikolas compartilhou no X uma reportagem sobre o patrocínio do Master ao fórum londrino, comentando apenas: “interessante”. Vorcaro voltou a reclamar com Valadão. “Loucura isso”, escreveu, afirmando que apoiava “diversos eventos e debates” e que, naquele caso, o patrocínio tinha relação com a palestra do ex-premier britânico Tony Blair. O banqueiro deixou claro que se sentia prejudicado: “Discurso acaba ficando ruim, ele incentivou e propagar um ataque a mim, como fez agora”. Em seguida, enviou ao pastor uma mensagem direta sobre o deputado: “Só preciso saber se estamos do mesmo lado ou agora estamos um contra o outro.”
Valadão relatou ao banqueiro a conversa que teve com Nikolas. “Resumindo. Ele nem sabia sobre o banco e vc — palavras dele né — e daí pediu perdão demais e vai contornar tudo”, escreveu o pastor, acrescentando que o deputado havia demonstrado “gratidão” a Vorcaro. Em 4 de maio, Carneiro confirmou que Nikolas havia removido a publicação. “Tirou aquele post. Ele realmente não se conectou no tema”, escreveu. E acrescentou: “Falei, tirou e ficou na categoria amigo.”
Jato no segundo turno de 2022
O uso de aeronave de Vorcaro por Nikolas havia sido revelado em março de 2025 pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo. Durante cerca de dez dias no segundo turno das eleições de 2022, o deputado usou um jato do banqueiro para percorrer nove estados e o Distrito Federal em ações de campanha em apoio ao então presidente Jair Bolsonaro (PL). Nikolas viajou acompanhado do pastor Guilherme Batista, da Igreja Lagoinha. À época, o parlamentar afirmou que não sabia quem era o dono do avião ao aceitar o convite.
O advogado Thiago Faria, que representa Nikolas, classificou os questionamentos sobre o caso como “nada a ver” e disse que “estão tentando ressuscitar esse assunto de Nikolas com jatinho e isso tá ridículo”. Faria também negou que o deputado tenha apagado publicações relacionadas ao episódio, mas uma postagem de Nikolas com discurso proferido na Câmara em 27 de abril de 2024 não está mais disponível em seu perfil.

Em março de 2025, Nikolas voltou a contatar Vorcaro. Em áudio enviado ao banqueiro, pediu ajuda para Thiago Rodrigues de Faria, seu ex-assessor e advogado, em uma negociação envolvendo “um ativo de minério”. No mesmo áudio, o deputado retomou o episódio de Londres e se desculpou novamente. “Eu não fazia ideia que era este o banco do Dani, senão, obviamente, eu não teria postado, já teria conversado anteriormente”, disse, concluindo: “A palavra dita não tem como voltar.”
Advogado de Nikolas e a Operação Rejeito
Thiago Rodrigues de Faria, ex-assessor jurídico do deputado e advogado que o representa, é alvo de reportagem do Estado de Minas publicada em setembro de 2025. Segundo o texto, ele foi intermediário, por meio de um contrato de confiabilidade, em uma negociação envolvendo uma lavra de minério e a Gmais Ambiental, empresa investigada na Operação Rejeito e apontada pela PF como sendo de fachada.
A PF sustenta que os verdadeiros donos da Gmais seriam o delegado federal Rodrigo Teixeira e o lobista Gilberto Carvalho, ligado ao PL mineiro, ambos presos na operação. Faria, lotado no gabinete de Nikolas em Brasília, teria assinado em janeiro de 2024, por meio de sua empresa de advocacia, um contrato de intermediação de compra e venda de uma lavra minerária em conjunto com a Gmais.
O negócio também envolveu a mineração Topázio Imperial, que detém os direitos sobre uma lavra em Ouro Preto, no distrito de Rodrigo Silva, cuja exploração está suspensa por ação do Ministério Público Federal. O grupo buscava vender essa lavra, mas precisava antes regularizar a situação jurídica da empresa detentora dos direitos minerários.