Pobres vivem em “favelas” na Suíça, mas a realidade é bem diferente da imagem comum e inclui organização, segurança e uma qualidade de vida que impressiona - Super Rádio Tupi
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Pobres vivem em “favelas” na Suíça, mas a realidade é bem diferente da imagem comum e inclui organização, segurança e uma qualidade de vida que impressiona

Pobreza com qualidade de vida.

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O terreno virou um dos maiores projetos urbanos da Europa. / IMAGEM ILUSTRATIVA

Todo bairro operário guarda o desenho das fábricas que o criaram, mesmo quando elas somem. É o caso de Klybeck, na margem norte do Reno, em Basileia, no noroeste da Suíça. Por mais de 150 anos essa faixa da cidade abrigou tinturarias, laboratórios e chaminés químicas, e é nesse mesmo território que hoje vídeos brasileiros nas redes apontam a câmera dizendo que “existe favela até na Suíça, mas com uma qualidade de vida diferente”.

Que fábricas construíram o bairro chamado de “favela suíça”?

Klybeck começou a virar chão industrial nos anos 1870, quando fabricantes de corantes montaram plantas na área. Segundo o Campus Klybeck, empreendimento que hoje gere parte do terreno, o polígono virou o coração da indústria química de Basileia e chegou a empregar mais de 7 mil trabalhadores em pesquisa, produção e embalagem de químicos e farmacêuticos.

Os nomes que passaram por ali são pesados: Ciba, Geigy, mais tarde Novartis e BASF. Essa base virou um dos clusters de ciências da vida mais importantes do mundo. Foram os operários dessas fábricas que fixaram Kleinbasel como bairro popular, o oposto do centro medieval do outro lado do rio.

Pobres vivem em “favelas” na Suíça, mas a realidade é bem diferente da imagem comum e inclui organização, segurança e uma qualidade de vida que impressiona
Basileia encanta com museus icônicos e Reno vibrante, inspire sua alma cultural na capital artística da Suíça. Créditos: depositphotos.com / Xantana

Por que os vídeos apontam a câmera justamente para essa parte da cidade?

A margem norte do Reno concentra prédios funcionais, ruas com comércio étnico, portos antigos e um perfil social diferente do postal turístico. Segundo o portal oficial Basel.com, mantido por Basel Tourismus, Kleinbasel já foi chamado em tom pejorativo de “das mindere Basel”, algo como “Basileia menor”. Hoje é um dos distritos mais procurados da cidade.

Para quem chega do Brasil, o choque é estético: densidade alta, prédios simples, mistura de imigrantes na rua. Nada disso coincide com o imaginário de chalé com telhado de neve. É aí que a palavra “favela” aparece nas legendas. O que a câmera não capta é o piso de serviços por baixo dessa fachada popular.

O que Basileia entrega em qualidade de vida, na prática?

De acordo com o Cantão de Basel-Stadt, órgão oficial do governo local, a cidade está entre as dez com melhor qualidade de vida do mundo. A base é o levantamento anual da consultoria Mercer, que colocou Basileia em 10º lugar global em 2024, num ranking com 241 cidades avaliadas.

O critério mistura segurança, saúde, transporte público, escolas, ambiente sociocultural e infraestrutura. Isso significa que o padrão não muda de acordo com o CEP: um edifício popular em Klybeck tem a mesma água tratada, o mesmo bonde na esquina e o mesmo tempo de resposta de emergência que um endereço caro do centro histórico.

O que sobrou das fábricas químicas dentro do bairro popular?

A produção química no polígono de Klybeck foi desligada aos poucos. Segundo a Novartis, o icônico Building 640 do antigo terreno Ciba-Geigy encerrou operações em maio de 2017, depois de 30 anos ininterruptos de produção. Muitos operários trabalharam ali por mais de duas décadas.

O que sobrou é uma paisagem estranha: galpões de tijolo vermelho, silos, guindastes antigos convivendo com moradias populares. Essa fricção entre o industrial e o residencial é parte do que confunde quem grava um vídeo passando por Klybeck. Não é sujeira, é cicatriz de uma economia que rodou ali por gerações.

O que está sendo construído no lugar das antigas fábricas?

O terreno virou um dos maiores projetos urbanos da Europa. De acordo com o site oficial Neues Klybeck, tocado pela Swiss Life em parceria com o cantão e a Rhystadt, o antigo polo industrial está sendo transformado em bairro misto até 2040, com moradia, pesquisa, escolas, restaurantes e áreas verdes entre os rios Reno e Wiese.

Segundo a incorporadora Rhystadt, um dos donos do terreno, só a antiga área da Novartis soma cerca de 160 mil m² e mais de 40 edifícios que serão reintegrados à malha urbana. O bairro que hoje aparece nos vídeos como “favela” está sendo reescrito enquanto os moradores ainda circulam pelas mesmas ruas.

Basileia encanta com museus icônicos e Reno vibrante, inspire sua alma cultural na capital artística da Suíça! / Créditos: depositphotos.com / matteocozzi

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Como a fronteira dupla afeta o custo de vida dos moradores?

Klybeck fica a poucos minutos de bonde do posto de fronteira com a Alemanha, e a França está logo ali. Essa é uma das poucas cidades do mundo em que três países se tocam dentro do tecido urbano. Muitos moradores de bairros populares atravessam a fronteira semanalmente para fazer compras em euros, num mercado alemão bem mais barato que o suíço.

O nome dessa prática antiga é Einkaufstourismus, o turismo de compras transfronteiriço. Na Basileia real, ganhar em francos e gastar parte do orçamento em euros é a estratégia comum de quem mora nas zonas mais simples e continua vivendo com um padrão que, em termos absolutos, ainda é altíssimo pelo referencial global.

A palavra favela não descreve o que a câmera está mostrando

O que os vídeos chamam de favela suíça é uma zona operária que vestiu 150 anos de indústria química e agora está sendo remodelada para as próximas décadas. Prédios funcionais, imigrantes, comércio popular e história industrial pesada convivem com um piso de serviços que outros países só conseguem oferecer nos bairros mais caros.

Klybeck não é o retrato da pobreza suíça, é o retrato do que uma cidade rica faz com o seu próprio passado operário quando a fábrica fecha e as pessoas continuam ali.