Brasil
Cobradora de ônibus estuda leis pelo celular na catraca por 5 anos e conquista vaga em tribunal que multiplica por 4 a renda da família
Mudança de vida veio após a homologação de um concurso com 1.323 vagas; conheça a trajetória da servidora que trocou o ônibus pelo fórum
Aos 27 anos, Luana Farias Rocha cobrava passagens em linhas de ônibus da zona sul de São Paulo enquanto preparava, nos momentos de menor movimento, uma mudança que levaria anos para acontecer. No começo de 2023, ela tomou posse como escrevente técnico judiciário no Tribunal de Justiça de São Paulo, encerrando cinco anos atrás da catraca.
A entrada no TJSP foi possível pelo concurso cujo edital saiu em 2021 e o resultado foi homologado em 2022. Ao final daquele ano, o tribunal registrava 1.323 novos servidores efetivos pelo certame, entre a capital e o interior. Luana foi nomeada em novembro de 2022 e empossada dois meses depois, passando a atuar no 6º Ofício da Família e Sucessões do Foro Regional de Santo Amaro.
Rotina de estudo dentro do ônibus
O método de preparação foi moldado pela própria jornada de trabalho. Durante os turnos de oito horas nos dias úteis, ou de até 13 horas nos fins de semana, ela lia legislação pelo celular na catraca, grifava trechos e resolvia questões por aplicativos, mesmo com o barulho e as interrupções constantes do ambiente. À noite, em casa, assistia a videoaulas de raciocínio lógico e matemática, as disciplinas que considerava mais difíceis. A preparação mais intensa começou cerca de oito meses antes da prova e chegou a superar seis horas diárias de estudo.
Não era a primeira tentativa. Em 2017, Luana havia disputado uma seleção de outro tribunal do interior paulista e não passou. O resultado não a fez abandonar o plano, e ela aguardou a abertura do concurso do TJSP para tentar novamente, desta vez com uma preparação mais estruturada.
Acabei de ser nomeada Escrevente do TJSP. Essa nomeação vai mudar TUDO na minha vida, hoje sou cobradora de ônibus, estudei na catraca e nem consigo assimilar que meu sonho vai se realizar, que minha realidade vai ser outra 🥹
— Luana. (@lucarstairs) November 22, 2022
O percurso até a nomeação incluiu etapas além da prova objetiva: avaliação prática de digitação e exames médicos vinculados à inscrição como candidata com deficiência, no caso por visão monocular. Só depois dessas fases veio a aprovação final.
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Anos de leitura ajudaram nas questões de português
O pai de Luana, motorista de ônibus, foi quem a levou para o setor quando a família passou por dificuldades financeiras. Ela começou na linha Terminal Grajaú-Metrô Brás e depois migrou para o trajeto Grajaú-Jabaquara. Antes disso, já havia trabalhado em lanchonete e como recepcionista.

Antes de assumir o cargo no tribunal, Luana estimou que o salário da nova função seria cerca de quatro vezes maior do que recebia como cobradora. Nos planos estavam retomar a graduação em Direito, interrompida após cinco semestres, e proporcionar experiências aos pais com a nova renda. “Quero pagar um cruzeiro para a minha mãe”, ela disse, mencionando também o desejo de viajar com o pai.
O desempenho nas questões de português, segundo ela própria, foi beneficiado por anos de leitura intensa. Formada em escola pública, Luana chegou a escrever um romance entre 2015 e 2016, chamado O colar de Lis, antes mesmo de o concurso do TJSP se tornar um objetivo concreto. O TJSP registrou que a chegada ao novo posto foi acolhedora, mas também desafiadora. A catraca, onde ela tentava encaixar o estudo nos brechos da jornada, ficou para trás.