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Especialistas em psicologia explicam: “Pessoas que sempre desejam o mal aos outros não são pessoas más, mas fazem isso como um mecanismo de defesa”

Nem sempre é apenas maldade.

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Especialistas em psicologia afirmam: pessoas que sempre desejam o mal aos outros não são pessoas más, mas fazem isso como um mecanismo de defesa
. É um dos mecanismos de defesa mais estudados desde os primeiros textos de Freud sobre paranoia.

Todo mundo já sentiu aquele lampejo desconfortável quando a colega ganha uma promoção, ou aquele alívio meio esquisito ao ouvir que a vizinha popular passou por um perrengue. E também conhece gente que parece viver assim, torcendo contra os outros o tempo todo. A psicologia tem uma leitura sobre esse comportamento que muda tudo: desejar o mal aos outros quase nunca é maldade pura, é uma cortina que a mente coloca para não olhar de frente para algo que dói.

Por que a mente reage assim quando alguém vai bem?

É estranho perceber esse sentimento em si mesmo. A gente admira a pessoa, gosta dela, mas por dentro aparece uma pontada que não bate com a admiração. Depois vem a culpa, e a gente tenta empurrar aquilo para debaixo do tapete. Só que se esse tapete é levantado várias vezes ao dia, o incômodo deixa de ser passageiro e vira padrão.

O ponto que a psicanálise levanta é que esse comportamento raramente nasce da crueldade. Costuma nascer de uma dor mais antiga: baixa autoestima, comparação constante, medo de não ser suficiente. A hostilidade dirigida ao outro funciona como um jeito de aliviar essa dor sem precisar encará-la, um curto-circuito da mente para escapar de um sentimento pior.

Especialistas em psicologia afirmam: pessoas que sempre desejam o mal aos outros não são pessoas más, mas fazem isso como um mecanismo de defesa
Foi descrito por Sigmund Freud e detalhado por sua filha, Anna Freud.

O que a psicologia chama de mecanismo de defesa?

É um conceito clássico, com quase um século de estrada. Foi descrito por Sigmund Freud e detalhado por sua filha, Anna Freud, no livro “O Ego e os Mecanismos de Defesa”, de 1936. Os mecanismos de defesa são estratégias inconscientes que a mente usa para diminuir angústia, culpa, vergonha ou medo diante de sentimentos que a pessoa não consegue reconhecer como seus.

A grande sacada é que esses mecanismos não são escolha consciente. Ninguém acorda e decide colocar uma cortina emocional entre si e o desconforto, isso acontece automaticamente. É por isso que a pessoa que vive desejando o mal aos outros costuma se surpreender quando alguém aponta o padrão para ela.

Que sentimentos costumam estar por trás desse padrão?

Alguns aparecem com mais frequência do que outros, e reconhecê-los ajuda a entender o que está em jogo. Os mais comuns são estes:

1
Inveja não elaborada A conquista do outro vira lembrete daquilo que a pessoa gostaria de ter e ainda não conseguiu, e transformar essa dor em torcida contrária alivia por um instante.
2
Autoestima frágil Se a autoimagem está em pedaços, o sucesso do outro parece agressão pessoal, mesmo que ninguém tenha feito nada.
3
Comparação como régua Quando toda decisão de vida passa por comparar com quem está ao redor, cada vitória alheia se sente como uma derrota própria.
4
Feridas antigas ainda abertas Rejeições passadas, humilhações mal digeridas ou ambientes onde só um podia brilhar deixam marca que reaparece nesse formato.

Existe um mecanismo específico para esse comportamento?

Existe, e o nome dele é projeção. É um dos mecanismos de defesa mais estudados desde os primeiros textos de Freud sobre paranoia. A projeção acontece quando a pessoa atribui a outra alguém sentimentos que não consegue reconhecer em si mesma. Alguns sinais que costumam aparecer:

  • Críticas frequentes ao outro em relação a coisas que a própria pessoa faz
  • Certeza absoluta de que os outros estão “cheios de más intenções”
  • Sensação de estar sempre sendo prejudicado por alguém
  • Alívio interno quando alguém admirado passa por dificuldade

Há também um termo emprestado do alemão que aparece na literatura psicológica para esse último ponto: schadenfreude, que descreve o prazer diante do infortúnio alheio. Não é um traço de vilão de novela, é um sentimento humano bem mais comum do que se admite, especialmente em pessoas com histórico de comparação social intensa.

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Quando esse padrão vira problema de verdade?

Uma coisa é sentir um lampejo passageiro diante da conquista alheia, algo que praticamente todo mundo experimenta. Outra bem diferente é organizar a vida em torno da torcida contra os outros. A tabela abaixo mostra a diferença entre um e outro:

Aspecto Sentimento pontual Padrão problemático
Frequência Quantas vezes acontece Aparece de vez em quando, some rápido. Presente em quase toda relação
Ação concreta O que a pessoa faz Sente e segue a vida sem prejudicar ninguém. Sabota, fofoca, cria intrigas
Reação à conquista alheia Alguém próximo vai bem Consegue vibrar depois do primeiro susto. Sente alívio quando o outro fracassa
Impacto nos relacionamentos Efeito na vida social Não atrapalha as amizades e vínculos. Isolamento e conflitos frequentes

O que fazer quando a gente percebe isso em si mesmo?

O primeiro passo, e talvez o mais difícil, é reconhecer sem se punir. A defesa só existe porque a mente ainda não achou um jeito melhor de lidar com aquele desconforto. Se transformar em bronca contra si mesmo, o mecanismo se aprofunda em vez de afrouxar. A pergunta útil, sugerida por psicanalistas, é outra: o que exatamente naquele outro me incomoda tanto?

Aquele desconforto do começo, quando o sucesso do outro parece agressão pessoal, quase nunca é sobre a pessoa que conquistou algo. É sobre o que a nossa própria vida está pedindo e ainda não teve espaço. Reconhecer isso não conserta tudo, mas abre uma porta. Quando o padrão pesa, um acompanhamento com psicólogo ajuda a olhar de frente para o que estava escondido. Este texto é informativo e não substitui avaliação com profissional de saúde mental.

💡 Curiosidade Anna Freud, que sistematizou a lista dos mecanismos de defesa em 1936, era a filha caçula de Sigmund Freud e fundou o ramo da psicanálise voltado especificamente para crianças.