Chefes de cozinha afirmam: “Para o bolinho de chuva doce não encharcar de óleo por dentro, não faça uma massa muito rala e mole, mas adicione farinha de trigo aos poucos até atingir a textura de um mingau grosso, que não cai fácil da colher.” - Super Rádio Tupi
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Chefes de cozinha afirmam: “Para o bolinho de chuva doce não encharcar de óleo por dentro, não faça uma massa muito rala e mole, mas adicione farinha de trigo aos poucos até atingir a textura de um mingau grosso, que não cai fácil da colher.”

Antes de fritar, ajuste a farinha aos poucos até a massa ficar espessa.

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A consistência resolve boa parte do problema, mas outros dois fatores precisam de atenção para o bolinho sair como o de padaria.

A cena da tarde de inverno é sempre a mesma. O cheiro toma a cozinha, todo mundo vai chegando devagar para pegar um recém-saído da panela, quentinho. Só que na hora da mordida vem a decepção: aquele óleo escorrendo por dentro, a massa pesada, a sensação de guloseima virar culpa depois. O bolinho de chuva encharcado quase nunca é problema da receita, é problema de um detalhe que muita gente pula na hora de misturar a massa.

Por que dois cozinheiros usam a mesma receita e o resultado sai tão diferente?

A frustração é comum. Você segue a receita à risca, respeita o tempo, aquece o óleo, faz tudo como a tia ou a vó ensinou, e mesmo assim o bolinho sai gorduroso. Ao lado, outra pessoa faz a mesma coisa aparentemente igual, e o resultado é uma bolinha dourada, leve, sequinha por dentro. A diferença raramente está nos ingredientes.

Está na consistência da massa antes de ir para a panela. E consistência não se mede em xícara, em colher nem em copo, se mede em textura. É por isso que a mesma receita, escrita do mesmo jeito, entrega resultados tão diferentes na cozinha de cada um. O problema é que ninguém para pra explicar direito qual é o ponto exato, e daí a bagunça na hora de fritar.

Quando a massa é muito líquida, ela demora mais para firmar por fora ao entrar no óleo quente.

O que muda quando a massa fica muito rala?

Aqui a física da fritura entra em cena. Quando a massa é muito líquida, ela demora mais para firmar por fora ao entrar no óleo quente. Nesse intervalo entre a entrada e a formação da crosta dourada, todo o excesso de óleo tem tempo de infiltrar e se acomodar nos vazios da massa. O resultado é um bolinho pesado, gorduroso e denso. Os efeitos negativos que aparecem numa massa rala demais:

1
Bolinho fica achatado Sem estrutura para segurar o formato, a massa se espalha no óleo em vez de crescer, e o resultado é uma peça amassada, sem aquele volume redondinho típico da receita.
2
Absorção maior de óleo Quanto mais líquida a massa, mais tempo o óleo tem para penetrar antes de a crosta se formar, e o bolinho vira quase uma esponja saturada de gordura.
3
Miolo pesado e cru O centro da massa não consegue cozinhar direito antes da superfície começar a dourar, e o bolinho fica com aquele meio empelotado que ninguém gosta.
4
Impossível modelar com colher A massa mole não sustenta a forma quando cai no óleo, o que impede o controle do tamanho e faz cada bolinho sair diferente do outro.

Qual é a textura certa que os confeiteiros procuram?

A referência que aparece em quase todas as receitas testadas por profissionais é essa: mingau grosso. A massa precisa cair da colher em blocos, com certa resistência, formando uma gota espessa que se desprende sozinha depois de um instante. Não é uma massa lisa como a de bolo, nem uma massa dura como a de pão. É algo no meio, cremoso mas com corpo. Os sinais de que a massa chegou ao ponto certo são:

  • Ao levantar a colher, a massa cai devagar, formando um bloco visível
  • Não escorre em fio contínuo como creme
  • Segura um leve pico quando você mexe e para de mexer
  • Tem a consistência de um mingau engrossado, com resistência ao rodar a colher

Segundo a Wikipédia, o bolinho de chuva ganhou o nome exatamente por causa do formato de gota que a massa faz ao cair no óleo. Se a massa é mole demais, o formato de gota some. Se está no ponto, cai como uma gota grossa que se molda sozinha ao contato com a fritura.

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Como acertar essa textura sem receita rígida?

A técnica que resolve o problema é simples: adicionar a farinha aos poucos, em vez de despejar de uma vez. Assim dá para ir sentindo a massa mudando de consistência e parar exatamente no ponto certo. A tabela abaixo compara as três consistências e o resultado esperado:

Consistência Como se comporta Resultado na fritura
Massa rala Muito líquida Escorre em fio, como massa de crepe. Encharcado de óleo
Massa no ponto Mingau grosso Cai da colher em blocos, com resistência. Fofinho e sequinho
Massa dura Farinha em excesso Fica compacta, quase modelável com a mão. Pesado e denso
Correção rápida Se errar o ponto Um fio de leite para amolecer, farinha para engrossar. Salvável em segundos

Além do ponto da massa, o que mais interfere no resultado?

A consistência resolve boa parte do problema, mas outros dois fatores precisam de atenção para o bolinho sair como o de padaria. O primeiro é a temperatura do óleo, que fica no ponto certo entre 160 e 180 graus. Óleo frio significa massa que absorve gordura antes de firmar, óleo muito quente doura por fora e deixa cru por dentro. O segundo é o cuidado com a mistura, que precisa ser feita apenas até incorporar os ingredientes, sem bater demais. Bater demais desenvolve glúten na farinha, e o bolinho fica borrachudo em vez de macio.

Também vale fritar poucos bolinhos por vez. Panela cheia derruba a temperatura do óleo, e derrubada a temperatura, volta o problema do encharcamento. Depois de escorrer no papel-toalha e passar no açúcar com canela, o resultado é aquela combinação que virou memória afetiva no país inteiro.

Vale mesmo pesar tanta atenção num doce simples?

Vale, porque a diferença aparece na primeira mordida. Aquele bolinho pesado e gorduroso do começo do texto, com óleo escorrendo por dentro, quase sempre veio de uma massa que estava mole demais na hora de ir para a panela. Da próxima vez que a receita pedir a quantidade de farinha, adicione aos poucos e vá testando com a colher até chegar naquela textura de mingau grosso que cai em bloco. O bolinho sai do óleo dourado, redondinho, com o miolo úmido e a casca crocante.

Não precisa de balança de precisão nem de ingrediente especial. Precisa só de uma colher e cinco minutos de paciência para sentir a massa. É esse cuidado pequeno que separa o bolinho de chuva encharcado do bolinho de chuva que remete à cozinha da avó numa tarde chuvosa de domingo, aquela lembrança que a receita mais famosa da culinária brasileira consegue evocar em qualquer mordida bem-feita.

💡 Curiosidade Antes do trigo ficar acessível no Brasil, no século 19, receitas parecidas eram feitas com farinha de mandioca ou cará, e o bolinho de chuva como conhecemos hoje herdou sua forma dos “sonhos” portugueses, um doce frito típico do Carnaval e do Natal em Portugal.