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Fundada por decreto de Dom João VI em 1818, a cidade está a 847 metros e recebeu suíços do Cantão de Fribourg durante a colonização
A cidade serrana onde imigrantes de dez países ajudaram a formar sua história.
Poucas cidades brasileiras conseguem sobrepor dois séculos de imigração planejada a uma das paisagens naturais mais preservadas do sudeste. Localizada a 847 metros de altitude na Serra Fluminense, a 136 km do Rio de Janeiro, Nova Friburgo nasceu em 16 de maio de 1818, quando Dom João VI assinou o decreto que autorizava a vinda de 100 famílias suíças do Cantão de Fribourg para a Fazenda do Morro Queimado. Foi a primeira colonização não portuguesa planejada pelo governo brasileiro, marco que rendeu à cidade o apelido de Suíça Brasileira. Segundo a Prefeitura oficial, a cidade é considerada a única do país colonizada por dez nações: portugueses, africanos, suíços, alemães, italianos, sírios, libaneses, japoneses, espanhóis, húngaros e austríacos formaram, ao longo de dois séculos, o caldo cultural que define o município.
Por que Dom João VI trouxe cem famílias suíças em 1818?
Segundo publicação da Revista GeoUERJ, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Dom João VI autorizou por decreto de maio de 1818 a vinda de cerca de 2.006 imigrantes suíços do Cantão de Fribourg para ocupar a Fazenda do Morro Queimado (hoje bairro Duas Pedras), no caminho de Cantagalo. O objetivo era criar uma área de colonização baseada em pequenas propriedades policultoras, capaz de abastecer o mercado da cidade do Rio de Janeiro. A escolha da Suíça não foi acaso.
Em 1816, o vulcão Tambora, na Indonésia, lançou toneladas de cinzas que resfriaram o planeta e provocaram na Europa o chamado ano sem verão, com colheitas perdidas e fome generalizada. O Cantão de Fribourg foi um dos mais castigados pela crise, e a oferta de uma colônia no Reino do Brasil chegou como uma porta de saída. Dos aproximadamente 2 mil suíços que partiram em 1819, apenas 1.631 completaram a travessia, sendo que 389 vidas se perderam na viagem mal organizada. Cem casas de pedra foram erguidas antes que qualquer colono desembarcasse, o que faz de Nova Friburgo um dos raros municípios brasileiros com projeto urbano anterior à sua própria ocupação.

Como a chegada de dez nações moldou a cultura friburguense?
Segundo a Prefeitura Municipal de Nova Friburgo, os primeiros habitantes nativos da região eram povos das tribos Puri, Puri-Coroado e Guayacaz, que viviam em cabanas simples nas margens dos rios. Os primeiros europeus que chegaram foram os portugueses, atraídos pelo cultivo do café que se expandia a partir de Cantagalo. Junto com eles vieram os escravizados africanos, que trabalhavam na lavoura e nos serviços caseiros. A colonização suíça de 1818 marcou o início da imigração planejada, mas não foi a única.
Em maio de 1824, chegaram a Nova Friburgo 343 alemães protestantes, liderados pelo pastor Frederico Sauerbronn. O grupo trouxe consigo a novidade do protestantismo para a região, e a cidade abrigou a primeira comunidade luterana do Brasil e a primeira Igreja Luterana da América Latina. Nas décadas seguintes, chegaram imigrantes italianos, sírios, libaneses, japoneses, espanhóis, húngaros e austríacos, consolidando Nova Friburgo como a única cidade brasileira colonizada por dez nações. Em 1870, com a inauguração da Estrada de Ferro Leopoldina Railway, que transportava o café de Cantagalo para o porto do Rio de Janeiro, o município ganhou impulso econômico e recebeu novos estabelecimentos comerciais, hotéis, escolas e as primeiras indústrias.
O que ver no centro histórico e no Parque São Clemente?
O centro histórico de Nova Friburgo concentra os principais marcos arquitetônicos da herança europeia, com casarões, igrejas e praças que preservam a atmosfera do século XIX. A Praça Getúlio Vargas, popularmente conhecida como Praça do Suspiro, é o coração da cidade, com feiras de artesanato, apresentações culturais e a base do teleférico que leva ao Morro da Cruz, com vista panorâmica da cidade encravada na serra.
- Parque São Clemente: jardim romântico do século XIX, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), com árvores centenárias, lagos e um casarão neoclássico.
- Teleférico do Morro da Cruz: parte da Praça do Suspiro e leva ao mirante mais visitado da cidade, com vista panorâmica de 360 graus.
- Museu da Colonização Suíça: instalado no bairro Mury, reúne objetos, fotos e documentos que contam a história dos primeiros imigrantes.
- Jardim do Nêgo: parque de esculturas ao ar livre criado pelo artista Nêgo no bairro Cordoeira, com peças em metal, madeira e pedra.
- Casa Suíça: mantém viva a tradição europeia com queijos, chocolates artesanais e produtos coloniais produzidos localmente.
- Igreja Matriz de São João Batista: templo histórico no centro, com arquitetura colonial preservada.
Como funciona o ecoturismo em Lumiar e São Pedro da Serra?
A cerca de 30 km do centro, os distritos rurais de Lumiar e São Pedro da Serra concentram o principal circuito de ecoturismo da região serrana fluminense. As duas vilas, aninhadas em vales cercados de Mata Atlântica preservada, reúnem dezenas de cachoeiras, poços cristalinos, tobogãs naturais e opções de rafting no Rio Macaé. A atmosfera rústica atrai um público diferente do centro da cidade, com pousadas de charme, restaurantes de gastronomia contemporânea e ateliês de artistas espalhados pelas encostas.
- Cachoeira Véu de Noiva: em Lumiar, com queda alta e poço para banho refrescante, cercada por mata nativa.
- Encontro dos Rios: ponto onde o Rio Macaé encontra o Rio Bonito, com águas cristalinas e piscinas naturais formadas pela erosão da rocha.
- Poços de Lumiar: sequência de poços com tobogãs naturais e opções de rapel para iniciantes.
- Cachoeira Toca da Onça: acesso por trilha em meio à Mata Atlântica, com queda em paredão rochoso.
- Cachoeira Indiana Jones: nome inspirado no visual selvagem do trajeto, com poços escondidos entre rochas.
- Rafting no Rio Macaé: modalidade praticada com escolas credenciadas em Lumiar, com corredeiras de nível moderado.
Quais outras atrações naturais imperdíveis vale conhecer?
Além dos distritos rurais, o município reúne formações rochosas, mirantes e trilhas em unidades de conservação que preservam parte importante da Mata Atlântica do Rio de Janeiro.
- Pico da Caledônia: a 2.257 metros de altitude, é um dos pontos mais altos da Serra Fluminense, com escadaria de acesso ao topo, rampa de voo livre e vista panorâmica que em dias claros alcança a Baía de Guanabara.
- Parque Estadual dos Três Picos: unidade de conservação que abrange também Teresópolis, com trilhas desafiadoras, escaladas e cachoeiras preservadas.
- Pedra do Cão Sentado: formação rochosa icônica que lembra a silhueta de um cachorro sentado, acessada por trilha de nível fácil no Parque Ecológico.
- Mirante Encontro dos Ventos: ponto panorâmico com vista da serra em 360 graus, tradicional para acompanhar o entardecer.
- Vargem Alta: distrito rural com plantações de flores, ideal para visitas durante a primavera e o verão.
- Rota Cervejeira: circuito por cervejarias artesanais espalhadas pela cidade e pelos distritos rurais, com degustações e visitas guiadas.

O que comer em Nova Friburgo?
A gastronomia local combina a herança da culinária suíça, alemã, italiana e árabe, resultado da mistura das dez nações que colonizaram a cidade ao longo dos séculos. Os restaurantes concentram-se principalmente no centro, na região do Mury e nos distritos de Lumiar e São Pedro da Serra.
- Fondue: prato-símbolo da alta temporada de inverno, servido em versões de queijo, carne e chocolate na maioria dos restaurantes tradicionais.
- Truta: pescada em criadouros da região serrana, servida em várias preparações, especialmente grelhada com amêndoas ou defumada.
- Café colonial: mesa farta com pães, cucas, geleias, embutidos, queijos e doces caseiros, servida em cafeterias e pousadas de todo o município.
- Queijos artesanais: produzidos com receitas tradicionais suíças pelas queijarias descendentes dos primeiros colonos.
- Chocolate quente artesanal: preparado nas chocolaterias locais, opção obrigatória para os dias mais frios do ano.
- Cervejas artesanais: produção crescente com dezenas de rótulos exclusivos disponíveis nos bares e restaurantes da Rota Cervejeira.
Como é o clima de Nova Friburgo ao longo do ano?
Nova Friburgo tem clima tropical de altitude, com verões amenos e chuvosos e invernos frios e secos. A altitude de 847 metros faz com que as noites de inverno cheguem próximas dos 3°C, o que a coloca entre as cidades mais frias do estado do Rio de Janeiro. Segundo dados climatológicos, a média mensal de chuva em dezembro fica em torno de 357 mm, uma das mais altas do estado, enquanto julho registra apenas 46 mm, oferecendo o cenário ideal para trilhas e ecoturismo.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Nova Friburgo?
Nova Friburgo fica a cerca de 136 km do Rio de Janeiro, com acesso pela RJ-116 via Itaboraí, trajeto de carro de cerca de duas horas e meia em condições normais. O Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim (Galeão) é o mais próximo para voos internacionais, e o Aeroporto Santos Dumont opera voos domésticos. Ônibus regulares operam a linha entre a rodoviária Novo Rio e Nova Friburgo várias vezes ao dia, com terminal rodoviário no centro da cidade. Vindo de Teresópolis, a viagem é de cerca de 80 km pela RJ-130, atravessando as paisagens da Serra dos Órgãos.
Leia também: Desde 1973, essa cidade gaúcha recebe o festival de cinema mais antigo do Brasil.
Suba a Serra Fluminense e conheça a Suíça Brasileira colonizada por dez nações
Nova Friburgo é o tipo de destino que combina dois séculos de imigração planejada com uma das paisagens serranas mais preservadas do estado do Rio de Janeiro. Fundada em 16 de maio de 1818 por decreto de Dom João VI para receber 100 famílias suíças do Cantão de Fribourg fugidas do ano sem verão de 1816 causado pela erupção do vulcão Tambora, virou a única cidade brasileira colonizada por dez nações e recebeu em 1824 a primeira comunidade luterana da América Latina com o pastor Frederico Sauerbronn. Reúne o Parque São Clemente tombado pelo IPHAN, a Praça do Suspiro com teleférico ao Morro da Cruz, o Pico da Caledônia a 2.257 metros de altitude, o Parque Estadual dos Três Picos, a Pedra do Cão Sentado, os distritos de Lumiar e São Pedro da Serra com dezenas de cachoeiras cristalinas na Mata Atlântica, a Rota Cervejeira com dezenas de cervejarias artesanais e o Museu da Colonização Suíça no bairro Mury.
Você precisa reservar pelo menos três dias em Nova Friburgo, subir ao Pico da Caledônia ao amanhecer e visitar as cachoeiras de Lumiar ao entardecer para entender por que essa cidade fluminense virou a Suíça Brasileira e um dos principais destinos serranos do sudeste sem perder a herança europeia que a definiu há mais de dois séculos.