Economia
Escala 996: Enquanto o Brasil discute o fim da 6×1, algumas empresas já exigem jornada de 72 horas semanais
Modelo de trabalho de 72h semanais ganha força no Vale do Silício; entenda o fenômeno 996 e seus graves impactos na saúde mental e na carreira
Uma jornada de trabalho das 9h às 21h, seis dias por semana, define a cultura 996. O modelo, que soma 72 horas semanais, nasceu no setor de tecnologia chinês e agora ganha espaço no Vale do Silício, aparecendo em debates e até em vagas de emprego.
A carga horária destoa do padrão na maioria dos países. A expansão do fenômeno para o Ocidente acendeu um alerta entre especialistas sobre o futuro do trabalho. No Brasil, o projeto que acaba com a escala 6×1 de trabalho, diminuindo a jornada de 44 para 40 horas semanais, está em tramitação no Senado.
De onde veio esse modelo?
O conceito surgiu na China durante a década de 2010, em gigantes da tecnologia como Alibaba, Huawei e ByteDance. Em 2019, o cofundador do Alibaba, Jack Ma, descreveu a oportunidade de trabalhar nesse ritmo como uma “bênção” para jovens em busca de crescimento profissional.
Contudo, a Suprema Corte Popular da China proibiu a prática em 2021. Segundo a rádio NPR, o modelo de trabalho teria causado a morte de funcionários. Apesar da proibição, a cultura 996 encontrou solo fértil no setor de tecnologia dos Estados Unidos.
O banco Ramp analisou dados de cartões corporativos de clientes em San Francisco e identificou um aumento expressivo nos gastos com alimentação aos sábados em 2025, um padrão que não existia antes. O dado sugere que o sexto dia de trabalho está se tornando rotina em parte do setor.
Qual é a justificativa para a escala 996?
A cultura 996 já influencia processos seletivos. Adrian Kinnersley, que dirige uma empresa de recrutamento, afirmou à revista “Wired” que clientes exigem que candidatos aceitem o modelo antes mesmo da entrevista. A principal justificativa é a pressão competitiva gerada pela inteligência artificial.
Os dados sobre os impactos do trabalho excessivo são claros:
Jornadas acima de 55 horas semanais aumentam o risco de distúrbios do sono e lesões, segundo uma meta-análise com mais de 800 mil trabalhadores.
Um estudo com quase 190 mil pessoas concluiu que, na mesma faixa de horas, o risco de depressão sobe 14%.
O risco de burnout dobra para quem trabalha mais de 59 horas, triplica acima de 72 horas e quadruplica após 75 horas.
Quais são os riscos para a saúde?
Um levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontou que, entre 2000 e 2016, cerca de 745 mil pessoas morreram de problemas cardiovasculares ligados ao excesso de trabalho.
A analista de dados Ligia Galvão também alertou no LinkedIn que o 996 “não é só uma questão de longas horas de trabalho, é também excluir mulheres dos cargos de liderança no setor”, pois o modelo se torna incompatível com as responsabilidades familiares.
Na França, a prática é pouco discutida, mas sindicatos de uma empresa de auditoria reagiram à eliminação do limite de 48 horas semanais. No Reino Unido, o investidor Harry Stebbings disse à “Wired” que “as pessoas na Europa parecem chocadas quando alguém pede para trabalhar no fim de semana”.