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Crise na Argentina: ‘tesouraço’ de Milei reduz aposentadoria mínima em 21,6% e país enfrenta onda de protestos
Além da perda no valor das aposentadorias, Argentina registra aumento da pobreza, desemprego elevado, fechamento de empresas e protestos contra medidas do governo Javier Milei
O governo de Javier Milei promoveu mudanças na Previdência Social da Argentina que dificultaram o acesso à aposentadoria e alteraram os critérios de reajuste dos benefícios. As medidas ocorrem em meio a protestos de trabalhadores e aposentados, além de dificuldades econômicas que afetam parte da população.
Dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) apontam que 32,3% da população argentina vivia em situação de pobreza no primeiro semestre de 2026. O levantamento também identificou um aumento da indigência, que passou de 4,8% para 5,6% entre os dois semestres analisados.
Menos argentinos conseguem se aposentar

Uma das principais mudanças foi o fim da moratória previdenciária, em março de 2025. O mecanismo permitia que trabalhadores que atingissem a idade mínima para se aposentar, mas não tivessem os 30 anos de contribuição exigidos, regularizassem os períodos sem contribuição.
Segundo os Boletins Estatísticos da Previdência Social (BESS) da Argentina, o número de pessoas que ingressaram na Previdência caiu de 213,9 mil no primeiro semestre de 2024 para 99,6 mil no mesmo período de 2026, uma redução de aproximadamente 53%.
Mudanças nos reajustes das aposentadorias
Em março de 2024, Milei alterou a fórmula de reajuste das aposentadorias por meio do Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) 274/2024. Desde então, os benefícios passaram a ser corrigidos mensalmente pela inflação.
A regra anterior, estabelecida pela Lei 27.609, de 2021, considerava dois fatores: a variação dos salários e a arrecadação da Previdência Social.
De acordo com o Centro de Economia Política Argentina (Cepa), a mudança reduziu em 21,6% o valor mínimo das aposentadorias em junho de 2026, na comparação com o montante que seria pago caso a fórmula anterior continuasse em vigor.
Naquele mês, a aposentadoria mínima, sem bônus, era de 403.327 pesos argentinos. Pela regra antiga, chegaria a 490.621 pesos.
O advogado argentino especializado em seguridade social Luciano González Etkin afirmou à Agência Brasil que os benefícios já vinham perdendo poder de compra desde pelo menos 2018. Segundo ele, a mudança consolidou essas perdas ao vincular os reajustes exclusivamente à inflação.
Restrições ao acesso a medicamentos gratuitos
Outra medida atingiu os aposentados que dependem do Instituto Nacional de Serviços Sociais para Aposentados e Pensionistas (Pami).
Em dezembro de 2024, o órgão estabeleceu novas condições para a gratuidade de medicamentos. Com as mudanças, o acesso passou a depender de critérios de renda, incluindo um limite de até 1,5 vez o benefício previdenciário mínimo, além de outras exigências.
As medidas provocaram críticas de representantes dos aposentados, que relatam dificuldades para arcar com despesas básicas. Segundo Luciano González Etkin, os beneficiários enfrentam uma situação econômica preocupante e realizam protestos semanais em Buenos Aires.
Protestos contra medidas do governo

A insatisfação também se manifesta entre trabalhadores do setor público. Em outubro de 2026, a Associação Trabalhadores do Estado (ATE) iniciou uma paralisação nacional contra uma decisão da Suprema Corte que abriu caminho para a aplicação da revogação da Lei de Terras Rurais.
A norma, aprovada em 2011, estabelecia limites para a propriedade de terras rurais por estrangeiros. A Corte rejeitou uma ação contra a revogação por entender que a entidade responsável pelo processo não tinha legitimidade para apresentá-lo. Com isso, o tribunal não declarou as restrições inconstitucionais, mas a revogação promovida pelo governo em 2023 pode produzir efeitos.
A ATE criticou a decisão e afirmou que a mudança ameaça a soberania argentina. O tema se soma às disputas em torno das políticas econômicas de Milei, incluindo cortes de gastos públicos e alterações em programas sociais.
Pobreza, desemprego e dificuldades econômicas
Além do aumento da pobreza registrado no primeiro semestre de 2026, o cenário econômico argentino tem sido marcado por dificuldades no mercado de trabalho e no setor produtivo.
Dados divulgados no período apontaram desemprego de 7,9%, enquanto a informalidade atingia uma parcela expressiva da população economicamente ativa. Também foram relatados fechamentos de empresas desde o início do governo Milei.
Críticos das medidas econômicas afirmam que os cortes de gastos, a retirada de subsídios e a flexibilização das importações pressionam as famílias e a indústria nacional. O governo, por sua vez, defende o ajuste fiscal como necessário para equilibrar as contas públicas, recuperar a confiança dos investidores e criar condições para um crescimento sustentável.
Milei chegou à Presidência no fim de 2023 prometendo combater a inflação e reorganizar a economia. Embora seu governo tenha avançado no equilíbrio das contas públicas e na redução da inflação em relação aos níveis anteriores, os dados de pobreza e os protestos mostram que parte da população continua enfrentando dificuldades.
Vetos a aumentos nas aposentadorias
Em meio à pressão dos aposentados, o Congresso argentino aprovou três projetos para melhorar os valores dos benefícios, um em 2024 e dois em 2025. Uma das propostas previa que a aposentadoria mínima correspondesse a 1,09 vez o valor da cesta básica de um adulto.
Milei vetou integralmente as medidas, alegando falta de recursos para cobrir as despesas.
Segundo os dados apresentados no levantamento original, a aposentadoria mínima argentina, incluindo o bônus de 70 mil pesos, chegou a 505.748,51 pesos em outubro de 2026, equivalente a aproximadamente R$ 1.662.
A organização Gerontovida, que atua na defesa da população idosa em Buenos Aires, estima que o benefício mínimo cobre apenas cerca de 25% das necessidades básicas mensais de uma pessoa idosa. A cesta estimada pela entidade era de 2.090.646 pesos.
Os números evidenciam os desafios enfrentados pelos aposentados argentinos diante das mudanças previdenciárias, da perda de poder de compra e das dificuldades econômicas.