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Restavam cerca de 50 aves na serra, mas uma floresta úmida no Nordeste salvou o periquito-cara-suja que hoje ajuda a repovoar outras montanhas
Uma ave ameaçada encontrou abrigo.
Nas serras úmidas do Nordeste, cada fragmento de mata pode ser o último abrigo de uma espécie. Em Guaramiranga, no Maciço de Baturité, a floresta guardou o periquito-cara-suja quando restavam cerca de 50 aves na serra, e hoje é dela que saem os periquitos usados para repovoar outras montanhas da região.
Por que Guaramiranga tem mata úmida no meio do sertão?
Por causa da altitude. A serra funciona como um brejo de altitude, nome dado às montanhas do semiárido onde o relevo elevado segura a umidade e permite a existência de uma mata úmida cercada pela Caatinga, como explica pesquisa da Universidade Estadual do Ceará (UECE). É essa combinação que produz a neblina das manhãs e as noites frias que surpreendem quem sobe do litoral.
Para proteger esse enclave, o governo estadual criou em 1990 a Área de Proteção Ambiental (APA) da Serra de Baturité, com cerca de 32,7 mil hectares em nove municípios. Estudo da Universidade Federal do Ceará (UFC) lembra que a serra reúne a maior extensão de remanescentes de Mata Atlântica do estado, parte dela pressionada no passado pelo café plantado em monocultura nas encostas.

Como o periquito-cara-suja escapou da extinção?
Com caixas-ninho instaladas nas árvores. O periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus), ave que só existe no Nordeste, é classificado como criticamente ameaçado no plano de ação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A maior ameaça é a captura para o comércio ilegal, que muitas vezes destrói os ocos de árvores onde a ave se reproduz.
A partir de 2006, a ONG Aquasis passou a instalar esses ninhos artificiais na serra, e no início da década de 2010 a estimativa local era de cerca de 50 aves. Dissertação da UFC registrou, entre 2012 e 2016, 116 ninhos nessas caixas, com 786 ovos e 576 filhotes, e mostrou que o sucesso reprodutivo foi maior nos ninhos artificiais do que nos ocos naturais.
Para onde vão os periquitos da serra?
Vão para montanhas de onde a espécie tinha desaparecido. Com a população recuperada, a Serra de Baturité passou a ser a principal população viável do periquito e a fornecer aves para projetos de reintrodução, começando pela Serra da Aratanha, em Pacatuba, na primeira ação desse tipo no Ceará.
O resultado mais simbólico veio em 2026, quando o periquito voltou a se reproduzir no Parque Nacional de Ubajara, na Serra da Ibiapaba, após mais de um século sem registros. Os primeiros exemplares da espécie tinham sido coletados justamente em Baturité, em 1913, e mais de cem anos depois é a mesma serra que ajuda a espalhá-la de novo pelo Nordeste.
O que fazer em Guaramiranga?
O roteiro combina mirantes, mata e cultura em uma cidade pequena, fácil de percorrer em um fim de semana.
Qual a melhor época para visitar Guaramiranga?
A chuva se concentra entre março e abril, com cerca de 200 mm por mês, e quase desaparece de agosto a novembro, quando a média mensal fica abaixo de 10 mm. As temperaturas da serra são mais baixas do que as das cidades ao redor, e as noites frias são parte da experiência.
Chuva média mensal com base no Climatempo. As temperaturas foram omitidas porque a série regional não reflete o clima de altitude da serra. Condições podem variar.

Como chegar a Guaramiranga?
A cidade fica a cerca de 105 km de Fortaleza, e o acesso principal é pela CE-060, passando por Baturité. O trecho final sobe a serra em curvas no meio da mata, e a mudança de vegetação e temperatura é perceptível durante a subida.
Como o Maciço reúne várias cidades próximas, vale combinar a visita com Pacoti e Mulungu, vizinhas também incluídas na APA.
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A serra que guarda uma floresta e uma segunda chance
Guaramiranga mostra que uma ilha de mata no meio do sertão pode ter um papel muito maior do que o seu tamanho sugere. Ali, uma ave quase extinta encontrou abrigo e hoje parte para repovoar outras serras do Nordeste.
Você precisa conhecer Guaramiranga e ouvir, entre a neblina da manhã, o canto de quem resistiu na serra.