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O Dia da Árvore nasceu em uma cidade paulista em 1902, quando 600 crianças participaram de uma festa que desafiava a lógica da época
O primeiro capítulo do Dia da Árvore foi escrito em Araras.
Toda data comemorativa tem um primeiro ano, quase sempre esquecido. O Dia da Árvore brasileiro começou em Araras, no interior de São Paulo, quando uma comitiva vinda da capital reuniu 600 crianças em junho de 1902. Num tempo em que derrubar mata era sinônimo de progresso, a festa propunha justamente o contrário.
Quem organizou a primeira Festa das Árvores do Brasil?
Três homens preocupados com o avanço do desmatamento. Segundo o Portal de Educação Ambiental da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo (Semil), a festa foi idealizada pelo botânico Alberto Löfgren, responsável pela área de botânica da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo, pelo engenheiro João Pedro Cardoso, inspetor de Agronomia do estado, e pelo escritor Coelho Neto, autor de textos que exaltavam a natureza.
A inspiração veio de fora. O grupo se baseou no Arbor Day, celebração do plantio de árvores que já acontecia nos Estados Unidos, e organizou uma expedição: em 1902, uma comitiva de cientistas, autoridades e músicos saiu da Estação da Luz, na capital paulista, levando mudas e bandeiras rumo ao interior. Em Araras, reuniu 600 crianças para a cerimônia.

Por que a festa causou estranhamento em 1902?
Porque celebrava as árvores no coração da economia do café. Desde a chegada da estrada de ferro, em 1872, o interior paulista vivia uma corrida pela expansão dos cafezais, e a regra era abrir trilhos, alimentar as fornalhas das locomotivas com carvão e derrubar florestas para plantar. Araras era um dos principais centros cafeicultores do estado, e a festa chegou a ser considerada uma afronta por muita gente, registra o mesmo portal do governo paulista.
O contraste ajuda a medir o pioneirismo. Os cientistas da Comissão Geográfica e Geológica costumavam viajar ao interior para mapear recursos naturais a serviço da agricultura. Naquele junho, a viagem tinha outro objetivo: mostrar, de forma alegre e acessível, que a natureza também precisava de cuidado. Por isso, a festa é considerada uma das primeiras ações de educação ambiental do país.
Em que dia a festa realmente aconteceu?
A data oficial é 7 de junho de 1902, mas a memória registrou versões diferentes. Um recorte de jornal preservado pelo Centro de Memória da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) descreve a festa como realizada num sábado, 8 de junho de 1902, e destaca a participação de Coelho Neto entre os convidados.
O calendário resolve parte do mistério. O dia 7 de junho de 1902 caiu justamente num sábado, o que sugere que o jornal acertou o dia da semana e errou a data. Pequenas divergências como essa são comuns em registros antigos e mostram como a festa ficou marcada na memória da cidade, a ponto de ser lembrada décadas depois em textos de defesa da arborização urbana.
Como a festa de Araras virou o Dia da Árvore?
Por decreto presidencial, em 1965. A celebração ganhou alcance nacional e passou a se chamar Dia da Árvore, com datas adaptadas ao clima de cada região: a última semana de março no Norte e no Nordeste, quando começam as chuvas, e 21 de setembro, na entrada da primavera, no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste.
A herança dos organizadores também ficou no mapa. Um dos parques estaduais citados pela Semil como fruto daquele pensamento pioneiro leva o nome de Alberto Löfgren, o botânico que ajudou a levar a comitiva até Araras. Mais de um século depois, a cidade ainda é chamada de Cidade das Árvores.
O que ver hoje na Cidade das Árvores?
O principal ponto de encontro é o Parque Municipal Fábio da Silva Prado, conhecido como Lago Municipal. O álbum de aves organizado pela Secretaria de Meio Ambiente e Agricultura de Araras com fotos dos moradores registra ali a presença de araras-canindé, de plumagem azul e amarela, um encontro curioso para uma cidade que carrega o nome dessas aves.
A história industrial completa o roteiro. Foi em Araras que a Nestlé instalou sua primeira fábrica no Brasil, em 1921, para produzir o leite condensado Milkmaid, que os consumidores passaram a chamar de “leite da moça”, como registra pesquisa da Faculdade de Tecnologia de Botucatu (Fatec). O apelido virou o nome oficial do produto.
A cidade que plantou uma ideia
A festa de 1902 não mudou de uma hora para outra a relação do país com as florestas, mas plantou uma ideia que atravessou gerações. Numa região dominada pelo café, um grupo de cientistas e crianças lembrou que progresso também podia significar cuidar da natureza.
Mais de 120 anos depois, cada muda plantada em 21 de setembro carrega um pouco daquele dia em Araras, quando a primeira Festa das Árvores do Brasil transformou um gesto simples em tradição nacional.