Mundo Corporativo
Com 72% de autônomos, advocacia adota o trabalho em rede
Estudo da FGV com o Conselho Federal da OAB mostra que 45% dos advogados autônomos atuam só no interior; executivos do Correspondente Dinâmico analisam como a correspondência jurídica viabiliza o acompanhamento de processos em várias cidades e abre oportunidades para quem presta o serviço
Levantamento do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), conduzido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), aponta que 72% dos advogados brasileiros trabalham como autônomos. Batizado de Perfil ADV, o primeiro estudo demográfico da categoria ouviu 20.885 profissionais entre agosto de 2023 e maio de 2024 e mostrou que, nesse grupo, 45% atuam somente no interior e 51% exercem a profissão em home office.
O retrato expõe uma dificuldade operacional pouco visível fora dos escritórios: acompanhar, sem equipe nem filial, processos que tramitam em comarcas distantes. Para esse problema, ganha espaço a correspondência jurídica, modelo no qual um colega estabelecido em outra cidade executa audiências, diligências e protocolos em nome de quem o contratou. O Correspondente Dinâmico, plataforma com mais de dez anos de atividade e mais de 3,2 milhões de profissionais conectados, atua na organização dessa rede.
O volume de trabalho ajuda a dimensionar a questão. O relatório Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), registrou 40,9 milhões de casos novos em 2025, o maior número da série histórica iniciada em 2009, e encerrou o ano com 75,5 milhões de ações em tramitação.
Rotina sem equipe
Para Priscila Pinheiro, advogada e CEO do Correspondente Dinâmico, o obstáculo do profissional autônomo vai além do campo técnico. “Ele precisa atender clientes, acompanhar prazos, organizar documentos, participar de audiências e realizar diligências, muitas vezes sem uma equipe para dividir essas atividades. Quando existem processos em outras cidades, essa dificuldade aumenta, porque deslocar-se para cada compromisso pode consumir tempo e gerar custos que nem sempre fazem sentido”, afirma.
Segundo a executiva, a parceria com colegas de outras localidades permite ampliar a capacidade de atendimento sem manter equipe própria ou estrutura física em cada cidade. Os serviços mais frequentes incluem audiências, diligências em fóruns e cartórios, obtenção de certidões, protocolos e atividades extrajudiciais. Esse apoio já não se limita ao trabalho presencial, já que correspondentes também podem ser contratados para demandas remotas e audiências online, conforme a habilitação exigida.
Do diretório à distribuição de demandas
Gian Nunes, cofundador do Correspondente Dinâmico e especialista em tecnologia, lembra que a empresa nasceu como um diretório de contatos. “No início, o principal problema era encontrar o contato de um profissional em determinada cidade. Com a evolução da tecnologia, foi possível ir além de um simples diretório e estruturar todo o processo de conexão entre quem possui uma demanda e quem está disponível para executá-la”, relata.
De acordo com Nunes, o contratante publica a demanda com as informações necessárias, e profissionais compatíveis com a localidade recebem a oportunidade e enviam propostas. Após a contratação, o correspondente executa a atividade conforme as orientações e entrega o serviço. “A tecnologia não substitui a relação de confiança entre advogados; ela facilita o encontro entre esses profissionais e cria infraestrutura para que essa colaboração aconteça”, diz.
Interior como ponto de partida
Do lado de quem presta o serviço, a leitura dos dados do Perfil ADV muda de sinal. “Estar no interior não significa necessariamente estar distante das oportunidades. Um profissional de uma cidade menor pode prestar serviços para escritórios localizados em outras regiões do país justamente porque possui presença e conhecimento local onde esses contratantes precisam de apoio”, observa Priscila Pinheiro.
A CEO recomenda que o interessado defina as localidades e atividades em que está apto a atuar, mantenha as informações profissionais atualizadas e tenha disponibilidade para responder às oportunidades. Organização, cumprimento de prazos, comunicação e qualidade da entrega, segundo ela, determinam se uma primeira demanda se converte em contratações recorrentes, além de ampliar networking, experiência e fontes de renda.
Cuidados dos dois lados
Segundo Gian Nunes, a segurança da parceria depende de responsabilidades compartilhadas. Cabe ao contratante fornecer orientações claras, verificar a habilitação do profissional e definir previamente escopo, prazo e condições. Ao correspondente, compete aceitar apenas o que pode executar, cumprir os prazos, preservar a confidencialidade das informações e manter comunicação transparente.
O cofundador avalia que o modelo transforma uma base distribuída de profissionais em uma rede de apoio nacional. “Para o contratante, isso significa conseguir atender a uma demanda em uma cidade onde não possui equipe própria. Para o correspondente, significa poder prestar serviços a escritórios que talvez nunca chegassem até ele por meio de uma rede tradicional de contatos”, explica.
Diante de uma categoria majoritariamente autônoma e espalhada pelo território, a tendência apontada pelos executivos é de uma colaboração cada vez mais estruturada pela tecnologia. “A advocacia em rede permite que um profissional continue independente, mas não precise necessariamente trabalhar de forma isolada”, resume Priscila Pinheiro.
Para mais informações, basta acessar: https://correspondentedinamico.com.br/