Pobres moram em “favelas” na Suíça, mas a realidade é bem diferente da imagem comum e inclui organização, segurança e uma qualidade de vida que surpreende - Super Rádio Tupi
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Pobres moram em “favelas” na Suíça, mas a realidade é bem diferente da imagem comum e inclui organização, segurança e uma qualidade de vida que surpreende

Existem “favelas” na Suíça, mas o cenário é bem diferente do que muitos brasileiros imaginam.

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A Suíça colocou quatro cidades entre as dez primeiras, com Zurique na liderança. / Imagem Ilustrativa

Vídeos nas redes adoram encontrar o lado “pobre” dos países ricos, e na Suíça a câmera costuma parar em Klybeck, bairro na margem norte do Reno, em Basileia. O que aparece como favela nas legendas é um antigo distrito operário moldado por 150 anos de indústria química. Entender essa história muda completamente a leitura das imagens.

Por que Klybeck aparece nos vídeos como “favela suíça”?

Porque destoa do cartão-postal. Em vez de chalés e ruas medievais, o visitante encontra galpões industriais, prédios funcionais, guindastes do porto e comércio de imigrantes. O próprio lado norte da cidade, Kleinbasel, já foi chamado de forma pejorativa de das mindere Basel, algo como “Basileia menor”, e hoje é um distrito muito procurado, segundo o Basel Tourismus, órgão oficial de turismo da cidade.

O mesmo guia descreve Klybeck e o vizinho Kleinhüningen como a região do porto, onde Suíça, Alemanha e França se encontram e onde o ambiente industrial tem charme próprio. Para quem chega do Brasil com a imagem de favela na cabeça, essa estética crua pode confundir. Para quem mora ali, ela é só a marca de um passado de trabalho.

Na Suíça, pobres vivem em “favelas” que oferecem qualidade de vida superior à de muitas cidades do mundo
Basileia encanta com museus icônicos e Reno vibrante, inspire sua alma cultural na capital artística da Suíça! / Créditos: depositphotos.com / Xantana

O que as fábricas produziram em Klybeck durante 150 anos?

Primeiro corantes, depois remédios. A partir da década de 1870, o terreno, formado por aluvião aterrado, a planície de sedimentos deixada pelos rios, recebeu fábricas de tinturas e virou o centro da indústria química de Basileia, de acordo com o Campus Klybeck. Em alguns períodos, mais de 7 mil pessoas trabalharam ali em pesquisa, produção e embalagem de químicos e farmacêuticos.

Um dos símbolos dessa era foi o Building 640, que começou a operar em 1987 e chegou a produzir cerca de 3 mil toneladas por ano de princípios ativos de medicamentos como Voltaren, Diovan e Tegretol. A produção parou no fim de maio de 2017, segundo a Novartis, numa despedida emotiva para operários que tinham passado mais de duas décadas no prédio.

Quais marcos explicam a transformação do bairro?

A história de Klybeck cabe em poucos momentos decisivos. Cada um deles ajuda a entender por que o bairro parece inacabado aos olhos de quem passa com o celular na mão.

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Década de 1870 Fábricas de corantes se instalam fora da cidade, em terreno de aluvião entre o Reno e o rio Wiese.
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Século XX O terreno vira o coração químico e farmacêutico de Basileia, com mais de 7 mil trabalhadores em alguns períodos.
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2017 O Building 640 encerra a produção de princípios ativos após 30 anos de operação contínua.
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2019 A Swiss Life compra a parte do terreno que pertencia à BASF e passa a planejar um bairro misto com a Rhystadt e o cantão.
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Próximos anos O antigo polígono industrial deve abrigar 8.500 moradores e 7.500 postos de trabalho, com parques, escolas e comércio.

Como uma fábrica conseguiu dividir o próprio bairro ao meio?

Fechando o caminho entre dois rios. Conforme a cidade cresceu, a área fabril cercada passou a funcionar como uma barreira entre o Reno e o Wiese, separando partes de Kleinbasel umas das outras, segundo a Rhystadt, dona da antiga área da Novartis. Só esse trecho soma 160 mil m² e mais de 40 edifícios, divididos em seis lotes.

Abrir esse muro invisível é o centro do projeto Neues Klybeck, que prevê mais parques, menos asfalto e trajetos curtos entre casa, trabalho e lazer, conforme o site oficial do empreendimento. Enquanto as obras avançam, galpões antigos já recebem laboratórios, ateliês, cafés e até um pequeno museu da química, o que explica a mistura de abandono aparente e movimento que tanto intriga os vídeos.

Na Suíça, pobres vivem em “favelas” que oferecem qualidade de vida superior à de muitas cidades do mundo
Passeie pelo centro histórico de Basileia, Marktplatz e Reno com ferry: charme suíço descontraído e acolhedor! / Créditos: depositphotos.com / Xantana

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Onde entra a qualidade de vida que impressiona os visitantes?

Ela aparece na escala da cidade inteira. Basileia ocupou o 10º lugar no ranking Quality of Living 2024 da Mercer, que avalia mais de 450 cidades a partir de 39 fatores, como saúde, escolas, transporte público, moradia e ambiente natural. A Suíça colocou quatro cidades entre as dez primeiras, com Zurique na liderança.

O ranking foi criado para calcular benefícios de expatriados e mede a cidade como um todo, não bairro por bairro. Mesmo assim, ajuda a entender o cenário: quem mora em Klybeck vive a dois minutos da Alemanha e a sete da França, segundo o Campus Klybeck, dentro de uma cidade com serviços públicos de alto padrão.

O que a palavra favela não consegue enxergar

Klybeck não nasceu de ocupação informal nem de abandono do poder público. Nasceu de chaminés, salários industriais e um terreno planejado para produzir corantes e, depois, remédios vendidos no mundo inteiro. A aparência rústica que os vídeos captam é o vestígio desse trabalho, não sinal de carência.

Quando uma cidade rica decide transformar sua antiga zona fabril em moradia, ela revela algo maior do que a própria riqueza: a capacidade de reaproveitar o passado enquanto a vida segue nas mesmas ruas.