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A antiga vila colonial que ganhou fama pelas ruas inundadas também preserva trilhas históricas, cachaças artesanais e praias cercadas pela Mata Atlântica
Entre a Serra da Bocaina e a Baía da Ilha Grande, Paraty preserva uma solução urbanística incomum. Durante o período colonial, as ruas do centro histórico foram construídas em um nível inferior ao das casas, permitindo que a maré avançasse pelo calçamento e ajudasse a lavar as vias naturalmente. Cerca de três séculos depois, essa característica continua fazendo parte da paisagem da cidade.
O centro histórico que ainda recebe a água das marés
Nas noites de lua cheia e lua nova, ocorre a maré de sizígia, quando a elevação da água pode ser maior. Nessas ocasiões, a água salgada avança pelas ruas de pedra pé-de-moleque do centro histórico. O fenômeno é natural e previsível, e está relacionado à configuração urbana estabelecida pelos portugueses no fim do século XVII, quando a vila foi construída próxima ao nível do mar.
As soleiras das casas ficam entre 30 e 50 centímetros acima do calçamento, uma diferença de altura que ajuda a proteger o interior das construções durante a passagem da água. Aberturas nos muros também permitem a entrada e a saída da maré. Essa combinação criou um sistema peculiar de limpeza das ruas e produz uma das imagens mais conhecidas de Paraty: os casarões coloniais refletidos na água salgada que cobre parte do calçamento.

Patrimônio Mundial que reúne cultura e biodiversidade
Em 5 de julho de 2019, durante a 43ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, realizada em Baku, no Azerbaijão, Paraty e Ilha Grande receberam da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) o título de Patrimônio Mundial na categoria de sítio misto, que contempla valores culturais e naturais.
Segundo o Ministério do Turismo, foi o primeiro reconhecimento desse tipo no Brasil e na América Latina. A área protegida abrange 148.831 hectares, com aproximadamente 85% de cobertura vegetal nativa de Mata Atlântica preservada, distribuída por territórios de oito municípios dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Nesse conjunto também estão duas terras indígenas, dois territórios quilombolas e 28 comunidades caiçaras.
Como é morar em Paraty fora da alta temporada?
Com cerca de 44 mil habitantes, Paraty alterna períodos de tranquilidade, quando as ruas de pedra ficam mais vazias durante a semana, com momentos de grande movimentação, como a realização da FLIP, em julho. Para os moradores, o centro histórico é fechado à circulação de carros, o comércio pode ser explorado a pé e muitos serviços estão nos bairros vizinhos, como Chácara, Portal das Artes e Pontal.
A cidade fica a aproximadamente duas horas do Rio de Janeiro e a cerca de quatro horas de São Paulo pela BR-101, a rodovia Rio-Santos. Essa proximidade atrai profissionais criativos e trabalhadores remotos interessados em uma rotina mais tranquila sem abrir mão das atividades profissionais. A estrutura local inclui serviços de saúde de média complexidade e um campus da Universidade Federal Fluminense (UFF).
O que fazer em Paraty além de visitar o centro histórico?
O município reúne 65 ilhas, mais de 300 praias em suas áreas continental e insular, além de uma serra com cachoeiras e alambiques. A variedade de atrações permite organizar vários dias de passeio sem repetir o roteiro.
- Igreja de Santa Rita: construída em 1722 pela Irmandade de Santa Rita dos Pardos Libertos, é considerada a igreja mais antiga da cidade e um dos principais cartões-postais do centro histórico.
- Passeio de escuna: o roteiro tradicional inclui praias como Vermelha, Lula e Saco da Velha, com paradas para mergulho com snorkel.
- Praia do Sono: pode ser alcançada de barco ou por uma trilha de aproximadamente uma hora a partir de Laranjeiras. A região combina uma comunidade caiçara com trechos de areia cercados pela natureza.
- Caminho do Ouro: percurso histórico pavimentado com pedras por pessoas escravizadas no século XVIII, utilizado para transportar o ouro de Minas Gerais até o litoral.
- Cachoeira do Tobogã: localizada na região da Penha, possui uma grande pedra lisa que funciona como um escorregador natural.
- Trindade: vila caiçara a cerca de 30 km do centro, conhecida pelas praias preservadas e pela Piscina Natural do Cachadaço.
- Alambiques: estabelecimentos como Engenho D’Ouro, Maria Izabel e Coqueiro recebem visitantes para conhecer a produção artesanal de cachaça e participar de degustações.

A cachaça que se tornou sinônimo da bebida durante o Império
Durante o Ciclo do Ouro, a cachaça produzida em Paraty alcançou tanta notoriedade que o nome da cidade passou a ser utilizado como sinônimo da bebida em diferentes regiões do Brasil. Esse uso chegou a ser registrado em uma música interpretada por Carmen Miranda. A tradição permanece viva, e a cachaça produzida no município conta atualmente com Indicação Geográfica de Procedência.
Todos os anos, em agosto, a Prefeitura promove o Festival da Cachaça, Cultura e Sabores, que reúne produtores locais em um grande pavilhão. Em julho, outro evento transforma a cidade: a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), criada em 2003, reúne escritores, leitores e profissionais do mercado editorial. Entre os nomes que já participaram estão Salman Rushdie, Toni Morrison, Chico Buarque e Isabel Allende.
Como chegar a Paraty?
De carro, o trajeto desde o Rio de Janeiro tem aproximadamente 250 km pela BR-101, a rodovia Rio-Santos, e leva em média 3h30. A partir de São Paulo, são cerca de 300 km, com duração aproximada de 4h30 pela mesma rodovia. A empresa Costa Verde opera linhas de ônibus entre Paraty e as duas capitais, com várias partidas ao longo do dia.
Para quem chega de avião, os aeroportos do Galeão, no Rio de Janeiro, e de Guarulhos, em São Paulo, estão entre as principais opções para voos internacionais antes de seguir por estrada até o município.
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Visite a cidade que ainda deixa o mar entrar
Paraty combina um centro colonial preservado, áreas de Mata Atlântica e tradições caiçaras que continuam presentes no cotidiano. Tudo isso está concentrado em uma região relativamente pequena, onde patrimônio histórico e natureza dividem espaço.
Uma estadia de pelo menos três dias permite conhecer melhor a cidade, visitar algumas ilhas e trilhas e explorar o centro histórico com calma. Se a viagem coincidir com a lua cheia ou a lua nova, vale observar a previsão da maré e caminhar pelas ruas quando a água avança sobre o calçamento, um fenômeno que torna a paisagem de Paraty ainda mais singular.