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A lava que cobriu parte da América do Sul há milhões de anos ajuda a explicar o tesouro escondido sob esta cidade gaúcha
Debaixo das lavouras desta cidade gaúcha.
Quem segura um geodo de ametista costuma imaginar que a pedra cresceu devagar, como um fruto dentro da rocha. No norte do Rio Grande do Sul, Ametista do Sul vive literalmente sobre milhares dessas cavidades, escavadas em antigos derrames de lava que cobriram parte do sul da América do Sul. O curioso é que, depois de décadas de estudo, a ciência ainda não fechou a explicação sobre como o roxo foi parar ali dentro.
Por que o subsolo de Ametista do Sul guarda tanta ametista?
Porque a cidade está sobre os basaltos do Grupo Serra Geral, rochas formadas pelo resfriamento de imensos derrames de lava. Em várias regiões do estado há quartzo do tipo ametista, calcita e ágata preenchendo geodos, cavidades ocas dentro da rocha, mas as maiores reservas estão justamente no município, segundo relatório do Serviço Geológico do Brasil (CPRM).
O mesmo documento registra um detalhe que explica o trabalho dos garimpeiros: a pedra é extraída nos horizontes mais alterados do basalto, as faixas em que a rocha foi modificada ao longo do tempo. Não basta cavar em qualquer ponto da encosta. É preciso encontrar a camada certa, o que transformou o subsolo da região em uma rede de galerias de garimpo.

Qual foi o tamanho do derrame de lava que criou os geodos?
Gigantesco. O Grupo Serra Geral cobre 917 mil km² do território sul-americano, de acordo com estudo do geólogo Léo Afraneo Hartmann, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A área é maior que a de Minas Gerais e São Paulo somadas, toda formada por camadas sucessivas de lava empilhadas umas sobre as outras.
O trabalho traz duas surpresas. A primeira é que, apesar da escala, a formação desse grupo vulcânico não causou extinção de espécies. A segunda é que o basalto da Serra Geral tem uso agrícola: moído, serve na rochagem, técnica que aplica pó de rocha ao solo para repor nutrientes.
Como os cristais foram parar dentro dos geodos?
Essa é a pergunta que ainda divide os especialistas. Os depósitos de Ametista do Sul vêm sendo estudados por inúmeros pesquisadores, e diferentes hipóteses já foram propostas, segundo levantamento publicado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) em parceria com a UFRGS. Uma das explicações mais recentes defende uma gênese epigenética: os geodos e seus cristais teriam se formado depois do resfriamento da lava, pela ação de fluidos quentes que alteraram a rocha.
Para testar a ideia, a equipe mediu a gravidade, o magnetismo e a radiação natural do terreno em duas campanhas de campo. O objetivo era enxergar, de cima, as marcas dessa alteração. Se a hipótese se confirmar, o método também pode apontar novas áreas com potencial para ametista, algo valioso para uma economia que depende da pedra.

Onde mais existe ametista como a de Ametista do Sul?
A mesma lava que formou os geodos gaúchos se espalhou por outras regiões, mas poucas repetem a abundância local. Depósitos de classe mundial associados à Serra Geral aparecem particularmente em Ametista do Sul e em Artigas, no Uruguai, segundo artigo da revista Pesquisas em Geociências, da UFRGS.
O que a cidade fez com os túneis do garimpo?
Transformou parte deles em atração. Galerias abertas para a extração passaram a abrigar espaços de visitação, museu e até adega. No centro, a igreja matriz recebeu revestimento de pedras extraídas do próprio subsolo, e o apelido popular de capital da ametista virou parte da identidade local.
Essa mistura de trabalho e turismo tem raiz geológica. As mesmas galerias que os garimpeiros abriram em busca da camada certa de basalto agora permitem ao visitante caminhar dentro de um antigo derrame de lava, a rocha que guarda os geodos.
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Uma cidade que vive dentro da rocha
Em Ametista do Sul, a paisagem mais importante está escondida. Debaixo das lavouras e das casas, camadas de lava resfriada guardam cavidades repletas de cristais, cuja origem ainda movimenta laboratórios e campanhas de campo.
Cada geodo aberto na cidade é, ao mesmo tempo, uma pedra vendida e uma pergunta científica em aberto, um lembrete de que algumas das riquezas mais conhecidas do país ainda guardam segredos sobre a própria formação.