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Morador enterrou garrafas PET com furinhos no jardim ao lado das plantas para regar menos e acabou criando um sistema de gotejamento que mantém a horta úmida por vários dias
Garrafas furadas seguram a água no solo por dias, mas de boca aberta viram criadouro do mosquito, e a Lei 13.301/2016 prevê vistorias nos quintais
Era uma manhã de janeiro em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, e Sebastião já segurava a mangueira antes das sete. Aos 63 anos, motorista de ônibus aposentado, ele cuidava de seis canteiros de couve, tomate, pimentão e cebolinha no quintal. Antes do almoço a terra já estava seca, e a conta de água daquele mês tinha vindo bem mais alta que de costume.
Como a horta do quintal virou rotina de mangueira
A horta começou na pandemia, quando o neto ajudou a cercar os canteiros com tábuas que sobraram de uma obra. No verão, Sebastião regava duas vezes por dia, e boa parte da água escorria pela superfície ou evaporava antes de chegar à raiz. Num vídeo mandado pela irmã, ele viu a ideia de enterrar garrafas PET furadas ao lado das plantas, uma irrigação por gotejamento feita em casa.
No mesmo fim de semana, separou oito garrafas de 2 litros que iam para a reciclagem. Fez três furinhos perto do fundo de cada uma com um prego aquecido no fogão e enterrou todas a uns 15 centímetros dos caules, com o gargalo para fora. Passou a encher as garrafas de manhã e, para surpresa dele, a terra continuava úmida no terceiro dia.
Por que a solução quase virou problema no quintal?
Três semanas depois, uma agente de combate a endemias da prefeitura bateu no portão durante a visita de rotina no bairro. Rosângela, de 41 anos, pediu para olhar o quintal e parou diante das garrafas abertas. Duas delas tinham juntado água da chuva da véspera, e havia larvas se mexendo perto do gargalo.
Assustado, Sebastião rosqueou as tampas em todas as garrafas no mesmo dia. Sem entrada de ar, porém, a água quase parou de sair pelos furinhos, e a terra voltou a secar em poucas horas. Ele já pensava em desistir e voltar para a mangueira quando Rosângela apareceu de novo, na vistoria de retorno marcada para a semana seguinte.
O que a lei diz sobre a visita e a água parada
A visita de Rosângela tem base na Lei 13.301/2016, que trata do combate ao mosquito da dengue, da chikungunya e da zika. O artigo 1º prevê visitas a imóveis públicos e particulares para eliminar o mosquito e os criadouros, com aviso prévio e amplo à população. Em situação de emergência em saúde pública, a lei também admite a entrada forçada em imóvel abandonado ou quando o morador recusa o acesso, sempre feita por agente identificado.

A orientação oficial é retirar recipientes que possam virar criadouro e vedar reservatórios, como explica a página do Ministério da Saúde sobre dengue. A garrafa enterrada não é proibida, mas, de boca aberta, funciona como um pequeno reservatório. A economia também tem apoio na lei: a Lei 9.433/1997, da Política Nacional de Recursos Hídricos, define a água como recurso natural limitado.
Como montar as garrafas sem abrir espaço para o mosquito
Na vistoria de retorno, Rosângela explicou que o problema não estava na técnica, e sim no acabamento. Sebastião refez o sistema com alguns cuidados simples, que servem para quem quiser copiar a ideia em casa:
- garrafas de 1,5 ou 2 litros bem lavadas, sem resto de refrigerante;
- de 2 a 4 furos pequenos perto do fundo, feitos com prego ou agulha grossa aquecida;
- buraco a cerca de 10 a 15 centímetros do caule, com os furos na altura das raízes;
- parte enterrada envolvida em TNT ou meia-calça velha, para a terra não entupir os furos;
- tampa com um furinho fino coberto por tela, para o ar entrar e o mosquito não;
- uma volta pelo quintal pelo menos uma vez por semana, conferindo tampas e pratinhos.
Com a tampa furada e protegida pela tela, a água voltou a sair normalmente. Uma garrafa de 2 litros com poucos furos mantém a umidade do solo, em média, de 2 a 5 dias, conforme o calor, o vento e o tipo de terra. No solo argiloso de Sebastião a água desce mais devagar, e a palha seca por cima dos canteiros ajudou a segurar a água por mais tempo.
Quem prefere regar por capilaridade, com um barbante no lugar dos furos, encontra outro modelo caseiro explicado passo a passo:
Jardineiro ensina a montar um sistema de irrigação com garrafas PET sem usar energia elétrica➔
A quem recorrer quando o foco está fora do seu quintal
Nem sempre o criadouro fica dentro de casa. Foi o que Sebastião percebeu ao ver pneus cheios de água num terreno baldio no fim da rua. Para esses casos, os caminhos são gratuitos:
- na capital, a Central 1746, que agenda vistoria em foco de Aedes aegypti, por telefone, site, aplicativo ou WhatsApp, com atendimento previsto em até 5 dias úteis;
- em Niterói, São Gonçalo, na Baixada e no interior, a vigilância ambiental ou a secretaria municipal de saúde da cidade;
- a Ouvidoria do SUS, pelo telefone 136, quando a vistoria não acontece ou o atendimento falha.
No pedido ao 1746, a prefeitura do Rio pede nome, telefone, endereço com ponto de referência e o tipo de imóvel, como terreno baldio ou casa fechada. Também pergunta se há caso de dengue, zika ou chikungunya no local. Guardar o número do protocolo ajuda a cobrar o retorno se o prazo passar sem visita.

Três dias de terra úmida e a mangueira encostada
Hoje Sebastião enche as oito garrafas a cada três dias, numa ronda de dez minutos pela manhã, e a mangueira passa quase a semana inteira enrolada. O tomateiro parou de murchar no fim da tarde, e a couve rendeu folhas suficientes para dividir com a vizinha. Na conta seguinte, o consumo voltou para perto do que ele pagava antes do verão.
Para repetir a ideia, comece com duas ou três garrafas nas plantas maiores, como tomate, pimentão e berinjela, e observe quantos dias o solo continua úmido. A tampa com tela não pode faltar, porque qualquer gargalo aberto pode juntar água da chuva e virar criadouro. Se surgir dúvida sobre algum canto do quintal, a equipe de vigilância pode avaliar o local durante a visita.
Sebastião e Rosângela são personagens inventados para este texto. As garrafas furadas, as larvas no gargalo aberto e a tampa que travou a saída da água aparecem em muitos quintais, e foram esses casos repetidos que serviram de base para mostrar como a técnica funciona e o que a lei sobre o mosquito prevê.
Para adubar os mesmos canteiros sem gastar, as sobras da cozinha também podem ir para a horta:
Esse adubo feito com sobras de comida mostra resultado nas plantas em pouco tempo➔