Entretenimento
Jardineiro que chegou a São Paulo em 1977 cobriu de cimento a estrutura de um jardim de rosas e, sem nunca ter ouvido falar de Gaudí, passou cerca de 40 anos erguendo um castelo em Paraisópolis
Baiano de Santo Estevão, o pedreiro começou a construção em 1985, só viu os trabalhos de Gaudí em 2001 e hoje abre a casa para visitas na favela paulistana
O baiano Estevão Silva da Conceição chegou a São Paulo em 1977 e ganhou a vida como jardineiro e pedreiro. Anos depois, o que era para ser um canteiro de rosas virou a Casa de Pedra, um castelo colorido de cerca de 8 metros de altura em Paraisópolis, na Zona Sul paulistana. Por causa dele, Estevão ganhou o apelido de Gaudí brasileiro. Só que ele só conheceu as obras do arquiteto catalão Antoni Gaudí depois de 16 anos de construção.
Como um jardim de rosas virou a Casa de Pedra de Paraisópolis?
Tudo começou com uma roseira plantada no terreno em 1985. Segundo a ficha da SPACES Archives sobre a Casa de Pedra, acervo dedicado a ambientes de arte criados por autodidatas, Estevão foi construindo em volta das plantas para que elas crescessem.
A armação, primeiro de madeira, deu lugar ao ferro, que é mais resistente. Os arcos foram cobertos com argamassa de cimento sobre arame e depois enfeitados com objetos achados na rua, em bazares e em lixões. Cada nova roseira pedia uma nova curva, e por isso a casa não tem linhas retas.
Com o tempo, a roseira original saiu para abrir espaço à ampliação, e o jardim foi parar no alto da construção. Quem conta isso é a reportagem do Central Periférica, projeto de estudantes de Jornalismo da ECA-USP.

Por que Estevão ganhou o apelido de Gaudí brasileiro?
O apelido veio de fora. De acordo com o projeto da USP, um estudante ligado a uma fundação educacional de Barcelona foi o primeiro a chamar Estevão de Gaudí brasileiro e marcou uma entrevista com ele.
Em 2001, o construtor de Paraisópolis viajou à Espanha para ver de perto os trabalhos de Gaudí, de quem nunca tinha ouvido falar. Segundo a SPACES, quem o levou foi um documentarista brasileiro, com apoio da Fundació Gaudí, e a semelhança entre as obras o surpreendeu.
A comparação mais lembrada é com o Park Güell, em Barcelona, que o site oficial do parque apresenta como Patrimônio Mundial da Unesco. Antes da fama, a casa também enfrentou desconfiança: alguns vizinhos chegaram a chamá-la de casa de bruxa.
Estevão aprendeu o ofício no canteiro de obras, como tantos pedreiros brasileiros. Outra história de construção civil, desta vez longe do país, mostra como esse trabalho é visto lá fora.
Como é por dentro o castelo de 8 metros de altura?
Por dentro, a Casa de Pedra parece um cruzamento de castelo encantado com casa na árvore, na definição da SPACES. A construção ocupa cerca de 75 metros quadrados e tem cômodos pequenos, tetos baixos em arco e corredores estreitos.

Para chegar aos andares de cima, o visitante sobe por escadas de alumínio. Nas paredes aparecem telefones, câmeras de segurança, celulares, cabeças de boneca, tampinhas, azulejos, relógios e bolinhas de gude, entre outros achados.
No alto ficam mais de 500 vasos suspensos e esculturas feitas de troncos e galhos, entre mais de 50 espécies de plantas. Do terraço, a vista se abre sobre a comunidade, um retrato dos contrastes de São Paulo.
O que a obra de uma vida inteira diz sobre a periferia?
A história de Estevão mostra que arte também nasce longe dos museus e das faculdades. Ele aprendeu fazendo, com o material que tinha à mão, e transformou a própria casa em atração cultural. O trabalho já rendeu a ele um livro, publicado em 2007.
Para o carioca, a história soa familiar: nas favelas do Rio também sobram criatividade e soluções feitas com pouco. Se você for a São Paulo, que tal incluir Paraisópolis no roteiro e conhecer esse castelo de perto? Depois me conta o que achou.
Quais dúvidas aparecem antes de visitar a Casa de Pedra?
Antes de visitar o castelo de Paraisópolis, quase todo mundo pergunta sobre endereço, horário e preço. As respostas abaixo ajudam a planejar o passeio.
Onde fica e quando abre a Casa de Pedra?
Fica na Rua Herbert Spencer, 38, em Paraisópolis, Zona Sul de São Paulo. O projeto da USP informa visitas de quinta a domingo, das 10h às 17h. Confirme antes de ir.
Quanto custa a visita?
O projeto da USP registra ingresso de R$ 30 para visitantes e R$ 15 para moradores de Paraisópolis. Os valores podem mudar, por isso vale confirmar com o próprio espaço.
Estevão estudou arquitetura?
Não. Segundo a SPACES, ele nasceu em Santo Estevão, na Bahia, e saiu da escola aos 10 anos para trabalhar na roça.
Quem gosta de mexer com terra e plantas, como Estevão no começo da obra, também encontra ideias simples para cuidar do jardim de casa. A matéria a seguir mostra um truque caseiro usado nos canteiros.