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Em 1760, um comerciante soltou cavalos numa ilha de areia sem árvores no Atlântico, mais de 260 anos depois, centenas de descendentes ainda vivem livres sem nenhuma ajuda humana

Centenas de cavalos percorrem uma ilha de areia no Canadá.

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No parque de vida selvagem da província, descreve a ilha como lar de cerca de 500 cavalos selvagens. / Imagem ilustrativa

A cerca de 300 quilômetros da costa do Canadá, no meio do Atlântico Norte, existe uma faixa estreita de areia em forma de meia-lua, quase sem árvores, castigada pelo vento e cercada de naufrágios. É lá que vivem os cavalos da Ilha de Sable: algumas centenas de animais que ninguém alimenta, ninguém doma e ninguém trata. Eles descendem de cavalos deixados na ilha por volta de 1760, e a história de como chegaram até lá é mais dramática do que parece.

Como os cavalos foram parar na Ilha de Sable?

Durante muito tempo, acreditou-se que os primeiros cavalos tinham escapado de navios naufragados. Hoje, a versão mais aceita é outra. Por volta de 1760, o comerciante e armador de Boston Thomas Hancock, tio de John Hancock, um dos signatários da independência dos Estados Unidos, levou cerca de 60 cavalos para a ilha.

Esses animais, ao que tudo indica, tinham sido confiscados dos acadianos, colonos de origem francesa expulsos da Nova Escócia pelos britânicos naquela época. Hancock havia sido contratado para transportar essas famílias deportadas e ficou com parte dos animais que elas foram obrigadas a abandonar. É o que contam a revista Canada’s History sobre a Ilha de Sable e outras fontes históricas canadenses.

O resultado são animais baixos, robustos, de pelagem grossa e crinas longas. / Imagem ilustrativa

Por que a ilha é um lugar tão difícil para viver?

Porque quase nada favorece a vida de um cavalo por ali. A Ilha de Sable é feita de dunas que se movem com o vento, tem vegetação rasteira e praticamente nenhuma árvore para dar abrigo. As tempestades do Atlântico são frequentes, e a fama da região diz tudo: com mais de 350 naufrágios registrados, ela ficou conhecida como “Cemitério do Atlântico”. Os principais desafios dos animais:

1
Sem abrigo natural Sem árvores, os cavalos enfrentam vento, chuva e frio a céu aberto.
2
Comida dura e limitada A base da alimentação é um capim áspero que cresce na areia das dunas.
3
Areia que desgasta os dentes Comendo capim cheio de areia a vida inteira, os dentes se desgastam e os mais velhos têm dificuldade para se alimentar.

Como esses cavalos se tornaram únicos?

Pelo isolamento. Separados de outros rebanhos por mais de dois séculos e meio, os cavalos da ilha passaram por uma seleção dura: só os mais resistentes ao clima, ao pouco alimento e ao vento deixaram descendentes. O resultado são animais baixos, robustos, de pelagem grossa e crinas longas.

Um estudo publicado em 2007 mostrou que o isolamento foi longo o suficiente para tornar a população geneticamente distinta. O governo da Nova Escócia, no parque de vida selvagem da província, descreve a ilha como lar de cerca de 500 cavalos selvagens, descendentes dos animais enviados por Hancock em 1760. Veja a linha do tempo:

Ano O que aconteceu Marco
Por volta de 1760 Expulsão dos acadianos Thomas Hancock leva cerca de 60 cavalos para a ilha. Chegada
1960 Governo do Canadá Após uma onda de cartas de crianças e do público contra a venda dos animais, os cavalos passam a ser protegidos por lei. Proteção
2007 Estudo científico Pesquisa confirma que a população é geneticamente distinta. Ciência
2013 Parks Canada A ilha se torna reserva de parque nacional, com acesso controlado. Parque nacional

Quantos cavalos vivem lá hoje?

O número muda de ano para ano. Nas contagens das últimas décadas, a população tem oscilado entre cerca de 400 e pouco mais de 500 animais, com variação maior em alguns levantamentos. O inverno costuma ser o período mais duro, e a natalidade de potros na primavera e no verão repõe parte das perdas.

Os animais vivem sem nenhum manejo: não recebem ração, abrigo nem tratamento veterinário. Os poucos funcionários e pesquisadores que passam temporadas na ilha apenas observam e registram.

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Por que esses cavalos geram debate?

Porque eles não são nativos da ilha. Pela lógica da conservação, espécies trazidas por humanos para uma ilha costumam ser removidas para proteger o ecossistema original. Mas os cavalos de Sable vivem ali há mais de 260 anos, viraram símbolo da Nova Escócia e são protegidos por lei. Os argumentos de cada lado:

  • A favor da presença: valor histórico, genético e cultural de uma população única.
  • Contra: o pisoteio e o pastoreio podem afetar dunas e vegetação frágeis.
  • Consenso atual: manter os cavalos e acompanhar o ambiente com pesquisa constante.

Então aqueles cavalos deixados na areia em 1760, lá do começo, nasceram de um capítulo duro da história, a expulsão de famílias inteiras de suas terras. Mais de dois séculos e meio depois, seus descendentes resistem ao vento, à fome e ao isolamento, livres como poucos animais no mundo. Este texto é informativo.

💡 Curiosidade Visitar a Ilha de Sable é para poucos: o acesso é controlado pelo Parks Canada e, em média, apenas algumas centenas de visitantes por ano conseguem pisar na areia onde os cavalos vivem livres.