Entretenimento
Segundo a psicologia do sono, quem programa cinco alarmes de 5 em 5 minutos para conseguir levantar pode não estar descansando mais, mas acordando ainda mais cansado por interromper o sono várias vezes
Despertar em etapas fragmenta os minutos finais de sono, mas o efeito sobre o cansaço varia entre as pessoas.
O primeiro alarme toca. A pessoa desliga, fecha os olhos e promete levantar no próximo. Cinco minutos depois, o celular vibra novamente. A sequência se repete até que a cama precise ser deixada às pressas. Para quem programa vários despertadores, esses intervalos parecem uma reserva de descanso. A dúvida é se o corpo consegue aproveitar esse tempo ou se cada toque torna a manhã mais difícil.
O que acontece entre um alarme e outro?
Quando alguém volta a dormir depois do primeiro toque, os minutos seguintes podem conter sono de verdade. Também podem ser preenchidos por despertares breves, expectativa pelo próximo aviso e dificuldade de relaxar. Por isso, vinte minutos na cama não equivalem necessariamente a vinte minutos de sono contínuo. O efeito depende de quanto a pessoa dormiu antes, de seu horário habitual e da facilidade com que volta a adormecer.
Há ainda a inércia do sono: aquela sensação de lentidão e pouca clareza mental logo após despertar. Ela pode ocorrer mesmo depois de uma noite adequada. Quem usa vários alarmes talvez esteja tentando aliviar essa transição, e não simplesmente adiando o dia. Essa distinção importa porque o hábito pode ser uma resposta ao cansaço que já existia antes do primeiro toque.

O que os experimentos observaram?
Em um experimento realizado no Japão, dez universitários que costumavam usar a função soneca passaram por noites com e sem alarmes repetidos. Na condição de soneca, o aviso tocou quatro vezes, em intervalos de cinco minutos, nos vinte minutos finais. Os pesquisadores observaram mais interrupções e sinais de maior inércia do sono depois do despertar. É um resultado próximo da cena de quem programa cinco alarmes, mas o grupo era pequeno e o teste ocorreu em laboratório.
Outro experimento, feito com 31 pessoas habituadas a adiar o alarme, encontrou um quadro diferente. Ao longo de meia hora de sonecas, elas perderam cerca de seis minutos de sono em comparação com a noite sem adiamentos e tiveram mais despertares nessa parte final. Ainda assim, o desempenho em alguns testes cognitivos logo após levantar melhorou ou não mudou, e não houve diferença clara na sonolência percebida ou no humor. Os resultados não autorizam dizer que repetir o alarme sempre prejudica ou sempre ajuda.

Cinco alarmes podem esconder uma noite curta?
Se a pessoa precisa levantar às sete, programar o primeiro toque para seis e quarenta não cria tempo extra. O período entre os avisos pode substituir minutos de sono sem interrupção. Mas é preciso evitar uma conta simplista: parte desse intervalo pode ser dormida, e algumas pessoas relatam que o despertar gradual lhes parece mais fácil. A pergunta mais útil é quanto se dorme no total e como se chega ao horário de levantar.
Também vale olhar para a rotina da noite anterior. Dormir tarde e acordar cedo deixa pouco espaço para recuperação, com ou sem função soneca. Horários muito variáveis, barulho e despertares durante a madrugada podem pesar mais que o ajuste do celular. Para adultos, uma referência geral é buscar pelo menos sete horas de sono por dia, embora as necessidades variem. Qualidade e regularidade também contam.
Leia também: A psicologia explica: quem cresceu sem internet nos anos 80 e 90 desenvolveram esta habilidade valiosa
Como observar o próprio despertar sem culpa?
Durante alguns dias, anotar a hora de deitar, o primeiro alarme, a hora real de levantar e o estado de alerta pela manhã pode revelar um padrão. Se houver espaço na rotina, experimentar um único alarme mais próximo da hora de sair da cama permite comparar a sensação com a de vários avisos. A mudança não precisa ser abrupta: uma manhã importante não é o melhor momento para testar algo que ainda não funciona para você.
Se a dificuldade para despertar é frequente, continua mesmo com tempo suficiente na cama ou vem acompanhada de sonolência intensa durante o dia, vale conversar com um profissional de saúde. Os alarmes podem chamar atenção para um problema de sono que merece avaliação, sem que o hábito, sozinho, permita fazer qualquer diagnóstico. Cinco alarmes podem oferecer a sensação de mais alguns minutos de descanso, mas não garantem uma manhã melhor. Os experimentos mostram que o sono final pode ser interrompido e que as consequências imediatas variam. Observar a noite inteira, e não apenas o botão de soneca, ajuda a entender por que sair da cama está tão difícil.