Juan, de 72 anos, e Antolina, de 74, estão juntos há mais de 50 anos, mas cada um vive no próprio posto na montanha, a 3.500 metros, e ele caminha todas as manhãs para ajudá-la com os animais - Super Rádio Tupi
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Juan, de 72 anos, e Antolina, de 74, estão juntos há mais de 50 anos, mas cada um vive no próprio posto na montanha, a 3.500 metros, e ele caminha todas as manhãs para ajudá-la com os animais

Casal argentino mostra que o amor não depende do mesmo teto, e no Brasil morar em casas separadas não impede o companheiro de pedir pensão por morte ao INSS

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Juan e Antolina mantêm casas separadas na montanha mesmo após mais de 50 anos juntos
Juan e Antolina mantêm casas separadas na montanha mesmo após mais de 50 anos juntos - Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

A chaleira ainda chiava no fogão quando Sônia, costureira aposentada de 68 anos que mora em Alcântara, em São Gonçalo, apertou o play no celular. Na tela, Juan, de 72 anos, subia uma trilha de pedra nos Valles Calchaquíes, em Salta, na Argentina, rumo ao posto de Antolina, a mulher com quem divide a vida há mais de 50 anos. Sônia sorriu com os olhos marejados, porque reconheceu ali a história que viveu com Valdir.

Um casal, duas casas e o mesmo caminho todo dia

Segundo a reportagem de um portal de notícias argentino, Juan e Antolina vivem a cerca de 3.500 metros de altitude, em casas de pedra, a umas cinco horas de caminhada de Cafayate. Cada um já tinha o próprio posto quando os dois se conheceram, e nenhum quis abrir mão dele. Toda manhã ele anda de 20 a 30 minutos para ajudá-la a soltar as cabras e volta para casa antes do pôr do sol.

Com Sônia e Valdir, o trajeto era bem mais curto: só duas ruas separavam a casa dela da dele. Viúvos, os dois se conheceram num baile da terceira idade em 2011 e decidiram que cada um ficaria com o próprio teto e os próprios netos. Valdir, motorista de ônibus aposentado pelo INSS, aparecia todo fim de tarde para jantar, e os domingos eram dos dois, entre a missa e a feira.

O que aconteceu quando Valdir morreu?

Em março, Valdir sofreu um infarto e morreu aos 71 anos, depois de 14 anos de relacionamento. Sônia, que vive com uma aposentadoria de um salário mínimo, pediu a pensão por morte pelo aplicativo Meu INSS duas semanas depois do enterro. Anexou a certidão de óbito, os documentos dela e um punhado de fotos de aniversários e de uma viagem a Aparecida.

A resposta chegou em maio: pedido indeferido por falta de comprovação da união estável. Pelo telefone 135, a atendente explicou que os endereços diferentes pesavam contra ela e que fotos, sozinhas, não bastavam. Sônia desligou convencida de que, por nunca terem morado juntos, os dois não tinham sido um casal aos olhos da lei.

Juan caminha de 20 a 30 minutos todas as manhãs para ajudar Antolina a soltar as cabras
Juan caminha de 20 a 30 minutos todas as manhãs para ajudar Antolina a soltar as cabras – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Morar em casas separadas não apaga a união estável

O Código Civil (Lei 10.406/2002), no artigo 1.723, define união estável como a convivência pública, contínua e duradoura, com o objetivo de constituir família. O texto não exige que o casal tenha o mesmo endereço. Os tribunais costumam reconhecer casais que vivem em casas diferentes quando a relação é conhecida pela família, pelos vizinhos e pela comunidade.

Para o INSS, quem regula o caso é a Lei de Benefícios da Previdência Social (Lei 8.213/1991). O artigo 16 põe o companheiro entre os dependentes com dependência econômica presumida e pede início de prova material dos 24 meses anteriores ao óbito, sem aceitar só testemunhas. Pelo artigo 74, a pensão conta desde a data da morte quando o pedido é feito em até 90 dias.

Quais documentos ajudam a provar a relação?

O regulamento da Previdência, o Decreto 3.048/1999, exige no mínimo dois documentos para comprovar o vínculo e traz exemplos no artigo 22. Foi revirando gavetas que Sônia percebeu que tinha mais provas do que imaginava. Entre os papéis que podem ser aceitos estão estes:

  • declaração de Imposto de Renda em que o falecido incluiu o companheiro como dependente;
  • apólice de seguro de vida que aponte o companheiro como beneficiário;
  • ficha de hospital ou clínica em que um aparece como responsável pelo outro;
  • conta bancária conjunta, procuração entre os dois ou declaração feita em cartório;
  • certidão de nascimento de filho em comum ou certidão de casamento religioso.

Quem é pensionista ou herdeiro de segurado falecido também pode se interessar por uma matéria sobre o processo de devolução de descontos indevidos nesses benefícios.

Negaram o pedido: a quem recorrer agora?

Contra o indeferimento, cabe recurso ao Conselho de Recursos da Previdência Social em até 30 dias depois da ciência da decisão. O pedido é gratuito, dispensa advogado e pode ser feito pelo Meu INSS ou pelo telefone 135, que funciona de segunda a sábado, das 7h às 22h, como informa a página oficial da pensão por morte no gov.br. No recurso, dá para anexar os documentos que faltaram na primeira tentativa.

Na história fictícia de Sônia, o seguro de vida e o registro hospitalar ajudaram a comprovar a união estável
Na história fictícia de Sônia, o seguro de vida e o registro hospitalar ajudaram a comprovar a união estável – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Quem não pode pagar advogado tem a Defensoria Pública da União, que atua nas causas contra o INSS, ou o Juizado Especial Federal, onde ações de menor valor podem começar sem advogado. Foi numa unidade da Defensoria, no Centro do Rio, que Sônia aprendeu a montar o recurso. Lá ouviu que as fotos ajudavam, mas precisavam vir acompanhadas de dois papéis do período exigido pela lei.

Como terminou a história de Sônia

Valdir tinha incluído Sônia como beneficiária de um seguro de vida renovado em 2025, e ela assinou como responsável por ele numa internação naquele mesmo ano. Com esses dois papéis, o recurso foi protocolado 22 dias depois da negativa, e em setembro a Junta de Recursos reconheceu a união estável. Como o primeiro pedido tinha sido feito dentro do prazo, a pensão foi paga desde a data da morte.

Para casais brasileiros que vivem como Juan e Antolina, cada um no seu canto, a orientação prática é guardar provas da vida em comum enquanto os dois estão vivos. Uma declaração de união estável em cartório, a inclusão do parceiro como dependente no Imposto de Renda e uma conta conjunta já somam mais que os dois documentos exigidos. Esses papéis precisam ser atualizados de tempos em tempos, porque o INSS olha para os dois últimos anos antes do óbito.

Juan e Antolina existem de verdade, e a rotina deles na montanha foi contada por uma reportagem argentina. Já Sônia e Valdir foram inventados a partir de negativas de pensão que se repetem com casais que nunca dividiram o mesmo endereço, para mostrar em que ponto a lei brasileira entra nessa conversa.

E se a ideia de cada um ter o seu próprio espaço dentro da relação causa estranheza, a psicologia tem uma leitura sobre essa preferência por mais espaço pessoal.

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