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A psicologia afirma que pessoas que guardam ingressos, bilhetes e cartões antigos numa caixa não são apenas apegadas, mas usam objetos para preservar a própria história
Estudos sobre memória autobiográfica mostram que objetos guardados ajudam a recordar momentos marcantes e a dar continuidade à identidade
Quem tem em casa uma caixa com canhoto de show, bilhete de ônibus de outra cidade e cartão de aniversário amarelado costuma ouvir que é apegado demais. A psicologia enxerga esse hábito de outro jeito. Pesquisas sobre memória autobiográfica mostram que objetos guardados funcionam como pontes para episódios marcantes. Eles ajudam a pessoa a contar a própria história e a sustentar a identidade. É um costume comum em muitas casas do Rio, da Zona Norte à Baixada, e diz mais sobre quem somos do que parece.
O que a psicologia diz sobre guardar ingressos e bilhetes?
Para a psicologia, esses papéis guardam lembranças, não só papel. Uma revisão de pesquisas publicada no periódico Current Opinion in Psychology chegou a essa conclusão. O trabalho é de Elise van den Hoven, Daniel Orth e Annemarie Zijlema. Para eles, o apego a certos pertences mostra que esses objetos ajudam a preservar, materializar, exibir e recordar memórias.
O estudo reuniu pesquisas de áreas como psicologia, design, cultura material e interação com a tecnologia. Os autores lembram que as pessoas compram suvenires e tiram fotos justamente para não esquecer. O ingresso de um jogo no Maracanã vale pelo dia que ele traz de volta, não pelo pedaço de papel.

A revisão também separa dois tipos de ligação entre objeto e lembrança. Nas ativas, a peça ainda desperta a recordação. Nas perdidas, o vínculo se apagou, algo que aparece em temas como envelhecimento, esquecimento, heranças de família e acúmulo.
Objetos não são os únicos gatilhos de lembranças antigas. Sons, cheiros e lugares também cumprem esse papel, como mostra outra reportagem da Tupi.
A psicologia explica por que sons, cheiros e lugares podem puxar lembranças antigas➔
Como um bilhete antigo ajuda a sustentar a identidade?
O bilhete liga a pessoa de hoje àquela que viveu o momento. A filósofa Marya Schechtman, da Universidade de Illinois em Chicago, analisou esse fenômeno num ensaio sobre memórias tratadas como objetos preciosos. O texto saiu no periódico Acta Scientiarum. Human and Social Sciences, da Universidade Estadual de Maringá.
Segundo a autora, guardamos em álbuns, cadernos de recortes e lembrancinhas episódios ricos em experiência e cheios de emoções misturadas. Essas memórias se relacionam com o senso de identidade pessoal e de continuidade. Para Schechtman, é isso que explica o valor que damos a elas, e a própria pesquisadora apresenta as conclusões como preliminares.
Na prática, o cartão do avô, a passagem da primeira viagem ou a pulseira de um festival viram capítulos de uma biografia. Ao abrir a caixa, a pessoa revisita quem foi, com quem estava e o que mudou desde então. Essa narrativa ajuda a dar coerência à identidade ao longo dos anos.
Quando guardar lembranças deixa de ser hábito saudável?
Na visão da psicologia, guardar lembranças só preocupa quando o acúmulo atrapalha a vida. A Associação Americana de Psiquiatria descreve o transtorno de acumulação como uma dificuldade persistente de descartar objetos. Há sofrimento intenso diante da ideia de se desfazer deles, e o entulho impede o uso normal dos cômodos.

A entidade aponta diferenças claras entre quem coleciona e quem acumula. Os critérios abaixo ajudam a entender onde fica a caixa de recordações.
- Aquisição: o colecionador escolhe e planeja o que guarda, enquanto quem acumula tende a pegar itens por impulso.
- Tema: coleções costumam ter um assunto definido, e no acúmulo os objetos não seguem uma linha.
- Organização: colecionadores exibem ou cuidam das peças, e a desordem é uma marca do transtorno.
Uma caixa com ingressos e cartões escolhidos e bem guardados está longe desse quadro. Se a dificuldade de descartar trouxer angústia ou tomar conta da casa, procure um psicólogo ou psiquiatra para avaliar o caso. Na rede pública, a porta de entrada é a unidade básica de saúde.
Por que revisitar a caixa de lembranças faz sentido?
Revisitar faz sentido porque a lembrança ganha força quando é contada. A revisão publicada em Current Opinion in Psychology mostra que muitas ligações entre objetos e memórias se perdem com o tempo. Isso acontece sobretudo quando ninguém mais sabe a história por trás da peça, e um bilhete sem contexto vira só papel velho.
Uma saída simples é anotar no verso a data, o lugar e quem estava junto. Outra é abrir a caixa com filhos e netos para contar os casos de cada objeto. Então, que tal tirar essa caixa do armário neste fim de semana e ver qual lembrança ainda faz seu coração bater mais forte?
A psicologia também estuda outras fases da vida e o que traz satisfação com o passar dos anos. Fica a sugestão de leitura para quem gosta do tema.
Segundo a psicologia, quem passa dos 60 anos e continua aprendendo coisas novas…➔