Brasil
Após negar ao vivo, Flávio Bolsonaro admite pedido de milhões a Daniel Vorcaro
Flávio confessou ter pedido R$ 134 mi ao Banco Master para filme do pai, após negar ao vivo e chamar jornalista de "militante"
Flávio Bolsonaro admitiu, em nota, ter cobrado R$ 134 milhões de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro — horas depois de negar ao vivo a existência do áudio que o comprova.
A gravação, publicada pelo Intercept Brasil nesta quarta-feira (13), foi feita em novembro do ano passado, um dia antes de Vorcaro ser preso pela Polícia Federal por suspeita de envolvimento em esquema de propina, lavagem de dinheiro e lobby político.
No áudio, o senador chama o banqueiro de “irmão” e afirma: “Estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”
Negação ao vivo, admissão nas redes
Pela manhã, ao ser questionado por um jornalista durante visita ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, Flávio rechaçou o conteúdo da reportagem. “De onde você tirou essa informação? É mentira. Militante, não dá, cara”, disse ele. Horas depois, numa nota publicada nas redes sociais, mudou o tom e reconheceu o contato com o empresário.
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“O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet”, afirmou o senador, acrescentando que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024, quando “não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro”. Ele nega ter oferecido qualquer vantagem em troca e aproveitou para pedir a instalação da CPI do Banco Master.
A admissão contradiz declarações anteriores. Em março, ao comentar a doação de R$ 3 milhões feita por Fabiano Zettel — cunhado de Vorcaro — à campanha de Jair Bolsonaro, o senador garantiu que a contribuição ocorreu “sem nenhum contato pessoal, inclusive”. Quando questionado pela Folha de S.Paulo sobre seu número constar na agenda telefônica de Vorcaro, descoberto pela CPI do INSS, disse que seu telefone “não é propriamente um segredo”.
Bastidores das negociações
Segundo o Intercept, a aproximação entre Flávio e Vorcaro teria sido articulada pelo publicitário Thiago Miranda, que organizou um encontro entre os dois em Brasília em 8 de dezembro de 2024. Ao confirmar o encontro, Miranda disse ao banqueiro que o senador queria tratar do “filme do presidente” e que “Flávio está ciente de tudo”. Vorcaro confirmou o compromisso.
Menos de uma hora após o horário previsto para o encontro, o deputado federal Mario Frias (PL-SP) enviou um áudio ao banqueiro agradecendo pelo apoio ao projeto e dizendo que o filme “vai mexer com o coração de muita gente”.

Nos meses seguintes, as negociações avançaram. Zettel, apontado pela PF como principal operador financeiro de Vorcaro e atualmente preso enquanto negocia delação premiada, acompanhou diretamente o cronograma de pagamentos. Em janeiro, ele teria informado ao banqueiro que o projeto previa dez parcelas de US$ 2,5 milhões. Meses depois, a tabela foi revisada para 14 parcelas. Parte dos recursos teria sido transferida para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.
Produtora e Frias negam repasse
A Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse, nega ter recebido qualquer verba de Vorcaro. A sócia-administradora Karina Ferreira da Gama disse à Folha de S.Paulo que a empresa opera apenas com investimentos estrangeiros. As gravações foram encerradas em dezembro, em São Paulo, e o longa está em fase de edição nos Estados Unidos.
Miranda contou ao O Globo que foi Mario Frias quem lhe apresentou o projeto, com dificuldades de financiamento. “Conversei com vários empresários e mostrei pro Daniel. O Daniel falou: ‘Cara, eu tenho interesse em patrocinar'”, relatou o publicitário, acrescentando que a participação de Vorcaro não apareceria publicamente.
Em nota divulgada na noite desta quarta, Frias contradiz o senador e nega participação financeira do banqueiro. “Como já esclareceu a produtora, não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”, diz o comunicado, que também acusa adversários de tentar “descredibilizar a obra por motivações claramente políticas e ideológicas”.