Brasil

Consultor financeiro fala sobre os maiores desafios enfrentados por ele no mundo corporativo

No Dia Nacional do Combate ao Preconceito às Pessoas com Nanismo, Enrico Fróes Rodrigues superou o preconceito e as adversidades e conseguiu se destacar em grandes empresas

Por Victor Yemba

(Divulgação)

Os portadores de nanismo precisam superar barreiras que são impostas pela sociedade e enfrentar a discriminação diariamente. Desde 2017, uma data marca essa luta: 25 de outubro, Dia Nacional do Combate ao Preconceito às Pessoas com Nanismo.

Se nas ruas eles sofrem com o preconceito, no mercado de trabalho não seria diferente. Enrico Fróes Rodrigues, de 41 anos, enfrentou tudo isso e se destacou no mundo corporativo. Ele ocupou diversos cargos de liderança em grandes empresas. Atualmente, é consultor financeiro.

“Há poucos meses, dei início a minha própria consultoria, após trabalhar no mundo corporativo desde 2001. Passei por grandes empresas nacionais e multinacionais. Comecei como estagiário na IBM, onde trabalhei por oito anos na área financeira; fui Tesoureiro Corporativo de grandes empresas e a minha última posição foi de “Controller Americas” em uma empresa Holandesa do setor de engenharia para prestadores de serviços marítimos. Era responsável pelo acompanhamento financeiro das operações do Uruguay, Colombia, Brasil e EUA”, conta Enrico.

Mas nem tudo foram flores na trajetória profissional de Enrico. Ele foi discriminado em uma entrevista de emprego e até alvo de piadas de mau gosto.

“Logo no início da carreira, fui fazer uma entrevista para um estágio. Ao chegar na recepção da empresa, tinham duas secretárias que, ao me verem, tiveram uma crise de risos. Uma delas se levantou e saiu rapidamente. A segunda pediu meu nome, etc, mas eu a agradeci e saí.  Não fiz a entrevista. Era muito novo e, hoje, certamente conduziria de outra forma.”

“Vivi um outro caso bastante interessante que consegui reverter e o colaborador virou um grande amigo. Nesta ocasião, eu pedi demissão na empresa onde estava trabalhando, mas não abri para qual empresa eu iria. Na minha última semana de trabalho (na empresa antiga) uma das pessoas da equipe me disse que já sabia para qual empresa eu iria e me mostrou um post em uma mídia social, onde um rapaz, que ficaria sob a minha gestão mencionou: “(…) vão trocar o meu chefe: um maluco por um anão!!”. Levei isso como um desafio e, nos primeiros dias nesta nova empresa, conversando individualmente com cada uma das 10 pessoas da equipe, ao me reunir com este rapaz, contei bastante sobre a minha história de vida, enfatizando diversos aspectos e não só o lado profissional. Foi uma experiência bem legal, pois a forma pela qual eu conduzi a conversa fez com que ele passasse a me respeitar, se aproximar e, com o tempo, ficamos bastante amigos”.

Enrico acredita que cada tipo de deficiência tem a sua dificuldade ou peculiaridade no mundo corporativo. O principal desafio para os portadores de nanismo, segundo ele, é lidar com as brincadeiras e as reações dos colegas.

(Divulgação)

“Para o nanismo, eu acho que o principal momento é o primeiro contato com os seus colegas de trabalho. A reação das pessoas varia ao te ver pela primeira vez e é neste momento que pode existir alguma piada, risada ou constrangimento. É importante manter a postura profissional, não permitir brincadeiras de mau gosto ou pejorativas, entretanto saber aceitar também, quando houver uma brincadeira criativa, engraçada, mas de bom gosto e sem ser de forma agressiva”.

A acessibilidade é outro desafio. Todos são iguais perante a lei. Entretanto, os portadores de nanismo passam por muitos percalços. Quando morava em Niterói e trabalhava no Rio, Enrico, muitas vezes, precisava de ajuda para embarcar e desembarcar das barcas.

“Por incrível que pareça, as maiores dificuldades são observadas no trajeto de ida e volta para o trabalho, pois os transportes coletivos, como ônibus e barcas, não estão 100% preparados. Por centenas de vezes, o desnível entre a barca e o deck onde ela atracava fazia com que eu precisasse recorrer a ajuda para poder embarcar. Há poucos anos, eles colocaram uma rampa para reduzir este desnível e dar autonomia para que, quaisquer pessoas, deficientes físicas ou com dificuldade de locomoção, pudesse embarcar mais facilmente. Outro exemplo que ouço reclamarem bastante é sobre a altura entre o chão e o degrau do ônibus e ainda sobre a altura onde fica o leitor do cartão de vale transporte”.

De acordo com o consultor financeiro, a acessibilidade nas empresas varia bastante de uma para a outra, mas é comum que os RH’s se preocupem em receber bem um colaborador que precise de alguma adaptação: “No meu caso, apenas o apoio para os pés. Existem outras adaptações mais complexas, mas percebo que os recursos humanos vêm se preocupando e se envolvendo cada vez mais”, sinaliza.

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