Brasil
Tio leva o sobrinho para catar caranguejo no mangue durante a ‘andada’ e descobre que, nesse período, a captura é proibida para proteger a reprodução da espécie
No Rio, o defeso do caranguejo-uçá vai de outubro a dezembro, e quem captura, transporta ou vende o animal nesse período pode responder por crime ambiental
Levar o sobrinho ao mangue para catar caranguejo parece um programa simples de fim de semana. No Rio de Janeiro, porém, essa saída pode virar infração ambiental nesta época do ano. Desde 1º de outubro, o caranguejo-uçá está em defeso, a pausa obrigatória que protege a espécie na fase de reprodução. É o período em que o animal deixa a toca, no fenômeno conhecido como andada, e a regra tem fiscalização do Ibama.
O que é a andada e por que o caranguejo-uçá fica tão exposto?
A andada é o período reprodutivo do caranguejo-uçá, quando os animais saem das tocas e se deslocam pelo manguezal para acasalar e soltar os ovos. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a captura, o transporte e a venda ficam proibidos durante essa fase. No Norte e no Nordeste, a andada de 2026 foi dividida em períodos curtos entre janeiro e abril.

Fora da toca, o bicho fica à vista e ao alcance de qualquer um, o que torna a coleta tentadora. No Sudeste, a mesma época coincide com a troca de carapaça. Nessa fase, o animal tem casca mole e é chamado de caranguejo leite, e comê-lo pode causar diarreia e dor abdominal, alerta a Prefeitura de Itaboraí.
Quem gosta de passear por manguezais encontra outros roteiros em que a cata segue regras de proteção. Um deles fica no litoral do Nordeste, num cenário de rios e ilhas.
Quando a captura do caranguejo-uçá é proibida no Rio de Janeiro?
No território fluminense, a captura é proibida de 1º de outubro a 30 de novembro para machos e fêmeas. De 1º a 31 de dezembro, a proteção vale só para as fêmeas. As datas estão na Portaria Ibama nº 52/2003, que vale para Espírito Santo, Rio, São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
Durante o defeso, ficam vedados capturar, manter em cativeiro, transportar, beneficiar, industrializar, armazenar e vender a espécie. O quadro abaixo resume o calendário fluminense e o que continua proibido no resto do ano.
| Período | O que é proibido |
|---|---|
| 1º de outubro a 30 de novembro | Captura de machos e fêmeas |
| 1º a 31 de dezembro | Captura de fêmeas |
| Ano todo | Fêmeas com ovos, partes soltas como garras e animais com menos de 6 cm |
Quem vende caranguejo nessa época precisa ter entregado ao Ibama a declaração de estoque até o quinto dia útil de outubro. Sem esse documento, o caranguejo oferecido durante o defeso está em situação irregular.
Que punições a lei prevê para quem cata caranguejo no defeso?
Pescar em período proibido é crime previsto no artigo 34 da Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998). A pena é de detenção de um a três anos ou multa, e as duas podem ser aplicadas juntas.

A mesma punição alcança quem transporta, vende ou beneficia animais da coleta proibida. Também responde quem captura exemplares menores que o tamanho permitido. Na prática, o balde de caranguejos levado para casa já configura transporte, e o material usado na cata pode ser apreendido.
Denúncias de venda irregular podem ser feitas ao Ibama, órgão que recebe as declarações de estoque dos comerciantes. O consumidor também ajuda quando recusa caranguejo vivo oferecido fora das regras.
Como levar a família ao manguezal sem desrespeitar o defeso?
O passeio continua liberado: dá para observar, fotografar e explicar a andada às crianças, desde que nenhum caranguejo-uçá saia do lugar. Mostrar os bichos fora da toca, sem captura, ensina na prática por que o manguezal precisa desse respiro para seguir produtivo.
Para quem vive da cata, a pausa tem compensação, já que os catadores profissionais recebem o seguro-defeso no período. Se bater a vontade de um caranguejo, espere a temporada liberada, confira o tamanho mínimo e pergunte ao vendedor sobre a origem do produto. Que tal marcar com a criançada a próxima cata para janeiro, com tudo dentro da lei?
Regras pouco conhecidas costumam pegar muita gente de surpresa. Outra história recente mostra uma família barrada por causa de uma norma que quase ninguém conhece.