Carnaval
Portela 2026: escritora gaúcha reage a críticas e defende enredo sobre negritude no Sul
Portelense orgulhosa, Luana Carvalho afirma que o desfile de 2026 abre diálogo nacional sobre ancestralidade afro-gaúcha e identidade negra no Sul
“Não fui eu que escolhi a Portela. Foi a Portela que me escolheu.” A frase, dita por Luana Carvalho em entrevista à Super Rádio Tupi, resume a relação da escritora e criadora de conteúdo com a Portela, que em 2026 levará para a Marquês de Sapucaí o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará — a Oração do Negrinho e a Ressurreição de Sua Coroa sob o Céu Aberto do Rio Grande”.
O samba-enredo homenageia Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio, figura central da ancestralidade negra no Sul do Brasil e referência para o Batuque, religião de matriz africana presente no Rio Grande do Sul. Desde o anúncio, o tema tem provocado debates nas redes sociais, especialmente sobre negritude sulista e religiosidade afro-brasileira.
Gaúcha, mulher negra e batuqueira, Luana viu a discussão ganhar contornos pessoais. Nas redes sociais, respondeu a comentários que depreciavam o tema escolhido pela escola de samba — alguns afirmavam que não existiria força da ancestralidade negra no Sul do país.
“A nossa história merece ser contada. O pampa é terra negra em sua essência”, escreveu na legenda do vídeo. “Em 2026, continuar deslegitimando a existência e a importância das pessoas negras gaúchas é dar as mãos à ignorância”, afirmou.
Veja a publicação:
“É a minha história sendo contada”
A relação da criadora de conteúdo com a Portela começou depois da mudança para o Rio de Janeiro, em 2020. O contato com o Carnaval e com a comunidade portelense foi se intensificando até se transformar em paixão declarada. “Eu sempre falo que não fui eu que escolhi a Portela, foi a Portela que me escolheu”, conta.
O anúncio do enredo sobre o Príncipe Custódio foi, segundo ela, um choque emocional. “Eu jamais imaginei que essa história, a história do meu estado, da minha gente, da minha religião, poderia estar sendo contada por uma escola tão grande como a Portela.”
“Eu sou batuqueira desde a barriga da minha mãe. A minha conexão com o enredo é absoluta. É a minha história sendo contada no maior espetáculo da Terra”, diz Luana.
Para ela, ver a ancestralidade afro-gaúcha ganhar espaço na Sapucaí representa não apenas reconhecimento individual, mas coletivo. “O enredo e esse recorte são fundamentais para abrir esse debate de que não existe uma única forma de ser preto no Brasil, não existe uma única forma de negritude.”

Ela lembra que o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, tem origem no estado, a partir do Grupo Palmares. Ainda assim, persiste no imaginário popular a ideia de que o Sul seria majoritariamente europeu, sem forte presença negra ou de religiões afro-brasileiras.
“A gente passa a vida inteira sendo invalidado enquanto pessoa preta e enquanto batuqueiro”, explica.
Para a escritora, reduzir a negritude ao eixo Rio-Bahia é limitar o próprio conhecimento sobre o país. “O que a gente perde acreditando que a negritude está concentrada nesse eixo é o conhecimento da nossa própria gente. Existe uma diversidade dentro da diversidade.”
Negritude sulista e apagamento histórico
O enredo da Portela 2026 também abriu um debate mais amplo sobre identidade racial no Brasil. Segundo Luana, a população negra no Rio Grande do Sul foi historicamente silenciada. “O apagamento histórico deu muito certo. Em 2026, as pessoas ainda acreditam que a expressão da população negra no Rio Grande do Sul é baixa ou irrelevante. Não é”, diz.
Sobre a mensagem que gostaria que o enredo da Portela deixasse ao país, ela é direta:
“Não existe uma única forma de ser negro no Brasil. Quanto mais a gente entender isso, mais os nossos saberes vão se ampliar.”
Ao levar o Príncipe Custódio e a ancestralidade afro-gaúcha para a Sapucaí, a Portela transforma o desfile de 2026 em mais do que um espetáculo. Para Luana, trata-se da abertura de um diálogo nacional sobre identidade, memória e pluralidade da negritude brasileira.
Nas redes sociais, a Portela divulgou um vídeo com Sheron Menezzes explicando a importância do tema. “O Carnaval 2026 da Portela será afro. A partir da figura mística, misteriosa e complexa do Príncipe Custódio, que por capricho do destino saiu do Benin e aterrou no Rio Grande, o negro gaúcho dará seu recado ao Brasil e ao mundo: eu existo”, diz a legenda. Veja as imagens:
O poder do Carnaval
Para a escritora, o Carnaval tem força para recontar histórias e combater o silenciamento. “A gente descobre um Brasil novo toda vez que as escolas de samba desfilam.”
Ela cita exemplos de enredos recentes que impulsionaram debates acadêmicos, religiosos e culturais, reforçando o papel das escolas de samba como agentes de memória e reconhecimento. “O Carnaval tem o poder de elevar histórias que foram apagadas e dar o reconhecimento que essas histórias merecem.”
“Eu acredito que, depois do desfile, as pessoas vão querer refazer o caminho que o príncipe Custódio fez, vão querer visitar as cidades de Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre. Vão querer estudar sobre o Batuque, que está muito escondido. Espero que as pessoas se interessem a ponto de estudar e documentar, até tornar o Batuque mais conhecido historicamente”, diz.