Carnaval

Viradouro aposta na ‘voz da mulher’ para conquistar o Carnaval e ‘lavar a alma’

“Viradouro de Alma Lavada” homenageia as Ganhadeiras de Itapuã com mensagem de luta e resistência da mulher brasileira

Por Pedro Henrique Leite

Ensaio de rua do último domingo foi debaixo de chuva. Foto: Renata Xavier e Leandro Lucas/ Unidos do Viradouro

Aos sambistas, a Unidos do Viradouro é forte candidata ao título de campeã do Carnaval 2020. Isso em razão do profissionalismo da gestão do presidente Marcelo Calil Filho, e do presidente de honra, Marcelo Calil. Pai e filho, carinhosamente conhecidos no mundo do samba como Marcelinho e Marcelão, respectivamente.

A dupla assumiu o comando da vermelho e branco de Niterói para o Carnaval de 2017, na Série A, e a partir de então conseguiu estabelecer um outro patamar para a escola. Conquistaram um vice-campeonato em 2017 e o campeonato de 2018 do grupo de acesso. De lá para cá, a Viradouro voltou ao cenário das grandes escolas, como na década de 1990. Período em que arrematou seu único título no Grupo Especial (1997). Em 2019, de volta à elite do Carnaval, ficou com o vice-campeonato após um desfile de “lavar a alma”. Termo que originou o enredo para 2020. E no Barreto, bairro onde fica a agremiação, este é o lema: “lavar a alma na Sapucaí”.

Neste ano, a Viradouro vai desfilar com o enredo “Viradouro de Alma Lavada”, dos jovens carnavalescos Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira.

“A gente vai homenagear as ganhadeiras de Itapuã, mulheres guerreiras que eram escravas no século 18 e escolhidas para a lida do ganho. A partir daí elas conseguiram, através do trabalho, alforriar suas parceiras, seus familiares e dominaram o comércio entre Itapuã e Salvador, sendo reconhecidas como as primeiras feministas do Brasil”, afirmou Zanon em entrevista à SUPER RÁDIO TUPI no barracão da escola, na Cidade do Samba, Zona Portuária do Rio.

Tarcísio, Margareth Menezes – que desfilará na escola – e Marcus Ferreira. Foto: Reprodução Instagram

Há 16 anos, um grupo de 26 mulheres se reuniu para resgatar as músicas de cunho popular das Ganhadeiras de Itapuã. O disco ganhou dois prêmios de Música Popular Brasileira. As ganhadeiras também participaram da abertura dos Jogos Olímpicos do Rio em 2016 e hoje se tornaram enredo da Viradouro, temática que se fundamenta no intuito de apreciar e condecorar a resistência da mulher brasileira.

“O objetivo desse enredo é levar a valorização da mulher brasileira e o empoderamento. É um enredo motivacional porque ele leva a mulher de um estágio escravo e subalterno a um estágio de uma mulher livre. De escravas a artistas. Nós pretendemos lavar a alma e ensaboar a Sapucaí ao levar uma mensagem positiva no sentido contrário a tudo que não trouxe igualdade às mulheres brasileiras em todo esse período histórico. E dizer que toda mulher tem um pouco de ganhadeira”, disse Tarcísio.

As “Ganhadeiras de Itapuã” são consideradas as primeiras “feministas do Brasil”. Ao ser questionado se a temática levará para a Marquês de Sapucaí alguma conotação política, o carnavalesco Tarcísio Zanon voltou a enfatizar que o enredo trata-se de uma questão social e, como também definiu, “motivacional”:

“Não. O enredo da Viradouro é social! Até porque as ganhadeiras da Itapuã não tem nenhum posicionamento político. Cada uma tem um partido e isso é muito bem respeitado. O que a gente pretende levar é uma mensagem motivacional e uma parte da história brasileira que grande parte do público não conhece e que demonstre exatamente essa superação delas. A gente quer passar uma mensagem positiva, e não uma mensagem política”, ressaltou.

Zannon e Ferreira assinarão um desfile juntos pela primeira vez. Mas a união deles é além do Carnaval. Os dois são casados.

“A grande dificuldade de trabalhar em dupla é trazer uma unidade para o trabalho. Conseguir fazer que outro artista entenda seu universo e você também entender o universo do outro. Ao mesmo tempo, é preciso mesclar e fazer essa simbiose. O mais fácil é que você pode dividir as funções. Até porque no Grupo Especial a função do carnavalesco tem muita demanda. Nós somos responsáveis por uma série de equipes. Além de termos que saber lidar um uma série de dificuldades que aparecem ao longo do período. Tento apoio de uma outra pessoa se torna um pouco mais fácil, principalmente no meu caso que o parceiro de trabalho é a pessoa com quem sou casado. A gente tem uma cumplicidade de um conhecer o outro, de confiança. Isso tudo facilita o processo e até mesmo o fato de irmos pra casa e continuarmos trabalhando”, contou Tarcísio.

A Viradouro é apenas a segunda agremiação na carreira de Tarcísio Zannon. A primeira foi a Estácio de Sá, entre 2016 e 2019, onde conquistou o título da Série A no último Carnaval. Já Marcus Ferreira é um pouco mais “rodado”. Passou por algumas escolas no acesso, como Inocentes de Belford Roxo, Império Serrano, Renascer de Jacarepaguá, União do Parque Curicica e Rocinha. Para Zannon, a chance na Viradouro é o grande momento para a consagração da dupla:

“Sem dúvidas é a grande oportunidade pra gente. Tem sido único e agarramos com unhas e dentes”, declarou de forma confiante.

Apesar da juventude em uma escola com tamanha grandeza e em momento especial de transformação administrativa e estrutural, Tarcísio disse não sentir pressão:

“Não. Os presidentes fazem questão de falar que não somos uma aposta e que somos realidade por termos construído uma história no grupo de acesso”, contou. E completou:

“Isso nos deu uma base, uma casca e fez com que a Viradouro olhasse pra nós e para o nosso trabalho”, manifestou Zannon em tom de gratidão.

Diferente do que acontece na capital fluminense, em Niterói a Prefeitura apoia os desfiles das escolas de samba. Assim como a Viradouro, as co-irmãs conterrâneas também recebem subvenção do município, como a Cubango, a Porto da Pedra e a Sossego, todas pertencentes ao grupo de acesso. Na avaliação do carnavalesco, trabalhar com recursos faz o desafio ser ainda maior. Apesar disso, valorizou o profissionalismo da vermelho e branco e rechaçou o rótulo de “escola rica”, como alguns sambistas assim puseram:

“O desafio se torna maior porque tanto eu quanto o Marcus não tivemos a oportunidade de trabalhar com recursos. Não é dizer que a Viradouro jorra dinheiro. Isso não é verdade. Aqui existe uma gestão financeira muito séria e nada é desperdiçado. Fora isso, temos uma trajetória de reciclagem porque os grupos de acesso nos fizeram aprender quanto a isso. No almoxarifado, por exemplo, há muito material reciclado. Pluma a gente não precisou comprar. Pegamos do ano passado e tingimos, aparamos. Fizemos uma série de cuidados para que o desperdício não acontecesse. O Carnaval da Viradouro não é um Carnaval caro no sentido de material. Ele se torna um Carnaval caro no sentido de mão de obra. A gente tem uma mão de obra muito especializada com a melhor equipe do Carnaval. É um trabalho muito detalhado, muito artesanal. Isso demanda uma mão-de-obra mais especializada. Isso nos deixa muito feliz porque demos muita oportunidade de trabalho num momento de crise do Carnaval e do Rio de modo geral”, concluiu Tarcísio Zannon.

O G.R.E.S. Unidos do Viradouro será a segunda escola de samba a desfilar no domingo de Carnaval com “Viradouro de Alma Lavada”. Mesmo com as incertezas da festa, e os momentos mágicos que apenas o momento reserva, o grito de guerra do presidente de honra, Marcelo Calil, ecoa: “O brilho no olhar continua!”.

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