Ciência e Saúde

O limite de perfeição: como a autocobrança pode afetar a saúde mental

Segundo pesquisas, em casos extremos, o medo da imperfeição pode levar ao suicídio

Por Victor Yemba

(Divulgação)

Algumas pessoas consideram o perfeccionismo como qualidade, outras como defeito. Mas, afinal, buscar constantemente a perfeição é algo positivo ou negativo? Em alguns casos, essa autocobrança pode ser paralisante, prejudicial à saúde mental e, em situações extremas, levar ao suicídio.

Segundo a psicóloga Daniela Faertes, há uma crença – que não é baseada em evidências e fatos – de que existem pessoas que conseguem fazer tudo de forma perfeita.  Essa convicção pode gerar frustração em quem se considera “insuficiente”, mas acredita na possibilidade da perfeição.

“O que acontece, na verdade, é que a gente só olha a vida do outro sob um ângulo, não sabe o que tem por trás daquela ‘perfeição’. Já é senso comum e empírico que o perfeccionismo é paralisante, estressante e limitante. Vários estudos apontam que aqueles que não levam essa característica como prioridade são bem mais adaptativos, mais fisicamente saudáveis e, sim, mais bem-sucedidos também”, explica Daniela.

Para a profissional, um dos maiores prejuízos do medo de ser imperfeito é que, quem o sofre, fica propenso à fazer tudo tão corretamente, focado nos detalhes, que perde uma visão mais ampla do todo. “Além disso, às vezes, as pessoas ficam paralisadas e nem iniciam um processo por conta do medo”, corrobora.

Daniela ressalta que a saúde mental passa a ser afetada pela quantidade de estresse que é implicada em cada tarefa, que torna-se muito maior quando tem a intenção de performar de maneira perfeita. “Assim, a rotina fica prejudicada, muitas vezes, por uma espécie de procrastinação, frustração e ruminação de situações que não acontecem, porque as pessoas acabam focadas nos problemas e não nas soluções”, afirma a especialista.

As causas para as crenças da busca da perfeição podem ser várias, mas, segundo a especialista, é comum que tenham se desenvolvido na infância, em ambientes pautados pelo excesso de crítica; vontade constante de agradar para chamar a atenção em ambientes negligentes; ou intenção de não ser punido em ambientes agressivos. “O perfeccionismo está ligado a diversos transtornos mentais, entre eles, transtornos alimentares, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), depressão, fobia social e há alta correlação com ansiedade, insônia, procrastinação e pensamentos suicidas”, relata.

Um estudo do Centro de Controle e Prevenção de Enfermidades do Alasca constatou que 56% das pessoas que cometeram suicídio foram descritas como perfeccionistas pela família e amigos. Esse comportamento é baseado na constante autocrítica e na sensação de insuficiência. “Por isso, esses indivíduos ficam presos em um loop infinito de esforço autodestrutivo. Cada nova tarefa é uma oportunidade de autoconsumo severo, decepção e falha. Para eles, pensar objetivamente pode levar a interpretar erros como catástrofes e – em circunstâncias extremas – ser igual a morte.  Muitos também têm dificuldade para participar e se beneficiar de relacionamentos estáveis e positivos”, completa.

A pessoa com medo de ser imperfeita fica menos preparada para lidar com as surpresas na vida e as situações que dão errado, principalmente as que estão fora do seu controle. “Vimos muito isso recentemente, com aqueles que tiveram mais dificuldade de aceitar as imprevisibilidades causadas pela pandemia do novo coronavírus”, alerta a profissional.

De acordo com a psicóloga, quem possui o medo de ser imperfeito precisa desfocar das barreiras e condições limitantes, que sempre vão existir. “É preciso olhar para as ações reais, só assim que elas podem acontecer”. Algumas dicas da especialista são:

– Preocupe-se menos com o resultado e mais com o processo de fazer e as suas etapas;

– Priorize realizar a tarefa dentro do seu possível e não em fazê-la com excelência;

– Foque na atividade, não tanto no tempo.

“Não é sobre fazer de qualquer jeito, mas criar uma lente que ajuda a ter foco. Isso diminui o medo de não fazer direito e nos faz aceitar os percalços do caminho como parte do processo. Os não-perfeccionistas não são pessoas sem disciplina, preguiçosas, com baixa produtividade ou que se contentam com falhas e fracassos. Eles têm interesse em performar com excelência, da melhor maneira possível e o mais importante: bem menos estressados que os perfeccionistas”, finaliza Daniela.

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