Ciência e Saúde

Saúde mental dos trabalhadores essenciais em tempos de coronavírus

Profissionais, principalmente da saúde, correm riscos de desenvolverem quadros como depressão e estresse pós-traumático

Por Victor Yemba

(Divulgação)

Depois de mais de um mês de isolamento social devido à pandemia do novo coronavírus e a incerteza de como será o futuro, é natural que muitas pessoas estejam apresentando sintomas como ansiedade, medo, tristeza e estresse. E se o período é complicado para quase todos, ele pode ser tornar ainda pior para aqueles que precisam ir à rua prestar serviço para a população, os chamados trabalhadores essenciais.

Médicos, enfermeiros, coveiros, caixas de supermercados, entregadores de restaurantes, atendentes de petshop e muitos outros funcionários não podem parar suas rotinas e, por isso, lidam com medos constantes.

De acordo com a psiquiatra Maria Francisca Mauro, é preciso ficar atento à saúde mental desses profissionais para que eles não desenvolvam, em longo prazo, quadros como depressão e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

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“Momentos de maior pressão emocional são gatilhos para que quadros psiquiátricos se iniciem ou piorem. O cenário da pandemia gera, além do medo de se infectar, uma maior insegurança quanto ao trabalho e à manutenção da renda para sobrevivência. Este conjunto de influência emocional pode ocasionar maior presença de sintomas de ansiedade, depressão, estresse, alterações do sono e, em alguns casos, pode evoluir para quadros de TEPT”, explica a psiquiatra.

Apesar de os trabalhadores de saúde acabarem sendo os mais afetados, já que atuam diretamente nas demandas que a covid-19 solicita, Maria Francisca lembra que, entre os prestadores de serviço de um hospital, existem também os profissionais que alimentam esta cadeia de cuidado, como as equipes de cozinha, de segurança, de manutenção e limpeza, entre outros.

“O maior risco será determinado pela relação direta deste profissional com situações de maior estresse. Seja ele no contato com os contaminados, em decisões quanto ao atendimento e na sensação de sobrecarga, que se diferenciará entre cada um. É importante ressaltar que as formações de nível superior como a medicina e enfermagem fornecem alguma abordagem quanto aos aspectos de saúde mental em sua graduação. No entanto, alguns trabalhadores de hospitais lidam com estas cenas ‘mais fortes’ sem que possuam uma maior dimensão psíquica do que estão vivendo, para, assim, elaborarem a melhor forma de reagirem a estas experiências”, afirma a médica.

É preciso ficar atento aos primeiros sinais, como as mudanças de humor, em que a pessoa pode ficar mais ansiosa e com um grau de tensão constante ou, no outro espectro, passar a ficar indiferente a situação ao redor e perder a emoção. Também pode ocorrer dificuldade para manter a concentração e alterações no sono e apetite, entre outros.

Conforme a persistência destes sentimentos, a pessoa pode evoluir para sintomas depressivos, como falta de vontade e tristeza mais constante; alteração do sono e a realização do uso de substâncias com objetivo de alívio, que podem ser desde medicamentos psicotrópicos não prescritos até álcool.

“Mediante a gravidade dos sintomas, se faz necessário que a pessoa tenha apoio profissional da saúde mental, por meio de atendimento com psicólogos e psiquiatras. De acordo com a intensidade do sofrimento, este pode ser manejado por psicoterapia, ampliando a capacidade interna de a pessoa conduzir a situação estressante; ou por meio de suporte com psicofármacos prescritos de forma criteriosa”, alerta a profissional.

 

Como as empresas podem ajudar a cuidar da saúde mental dos seus funcionários?

Para Maria Francisca, existem ações para acolher esses trabalhadores essenciais, como criar um canal de comunicação, com informações específicas quanto aos riscos de contágio mediante à atividade desenvolvida. Também é possível realizar pesquisas quantitativas internas sobre a saúde mental, de forma anônima, e promover conteúdos informativos para os seus colaboradores.

Já para quem apresentar sintomas mais graves, é importante que as instituições tenham um local para encaminhar os colaboradores, seja para tratamentos em grupos ou por suporte on-line de profissionais de saúde mental.

“O mais importante é reconhecer o funcionário, dar segurança para que desempenhe suas atividades e que, neste momento, haja uma relação de trabalho em que se reforcem os valores que estão alicerçados a esta prestação de serviço”, explica.

 

Dicas para ajudar a manter a saúde mental em tempos de pandemia

O primeiro passo é não ter preconceito com o assunto. “Quando as pessoas reconhecem o sofrimento emocional fica mais fácil para que não adiem a procura por ajuda”, salienta a psiquiatra Maria Francisca Mauro. Segundo a profissional, o ideal é cada um buscar aumentar a sua sabedoria individual, ou seja, se capacitar para ter um diálogo consigo mesmo, passando a perceber melhor suas emoções.

“O diálogo interno que faço referência é conseguir desenvolver sua habilidade para identificar o que causa incômodo, refletir perante às adversidades e buscar um meio de ultrapassá-las. Entretanto, em muitos momentos, para que se realize este crescimento, será necessário um suporte profissional para facilitar esta travessia”, explica a médica.

Além disso, algumas medidas acessíveis que podem ajudar são: cuidar da alimentação, do sono e praticar atividade física; fazer exercícios de relaxamento e técnicas de meditação, que podem ser mediados por aplicativos de celular; contato com uma maior espiritualidade para os que se identificam e desenvolver hábitos de cuidado pessoal e da casa, para que se mantenha organizado.

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