Mulher recebe um Pix de R$ 1.800 de um desconhecido por engano, decide ficar com o dinheiro e descobre que pode responder por apropriação de coisa recebida por erro, além de ter que devolver tudo - Super Rádio Tupi
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Economia

Mulher recebe um Pix de R$ 1.800 de um desconhecido por engano, decide ficar com o dinheiro e descobre que pode responder por apropriação de coisa recebida por erro, além de ter que devolver tudo

A lei obriga a devolver o valor com correção, e o aplicativo do banco precisa oferecer a devolução para a conta de origem por até 90 dias

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Ficar com um Pix recebido por engano pode configurar apropriação de coisa havida por erro, prevista no artigo 169 do Código Penal
Ficar com um Pix recebido por engano pode configurar apropriação de coisa havida por erro, prevista no artigo 169 do Código Penal - Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Era uma quinta-feira de calor em Duque de Caxias, e Patrícia, manicure de 41 anos, terminava o atendimento de uma cliente quando o celular vibrou na bancada do salão. A notificação do banco avisava que tinham caído R$ 1.800 na conta, enviados por um tal de Wellington. Ela não conhecia ninguém com esse nome. Conferiu o extrato duas vezes e voltou para o esmalte, sem saber o que pensar.

Uma chave digitada errada do outro lado da Baía

O dinheiro era de Wellington, motorista de 33 anos que mora em São Gonçalo e tentava pagar o aluguel do mês ao dono do imóvel. Ele usou como chave o número de celular do senhorio e, na pressa entre uma corrida e outra, trocou um dígito. O nome que apareceu na tela de confirmação era parecido o bastante para ele não desconfiar.

Só à noite, quando o proprietário cobrou o aluguel atrasado, ele percebeu o erro. Wellington ligou para o banco onde tem conta e ouviu que a instituição não poderia tirar dinheiro da conta de outra pessoa sem autorização dela. O pedido de devolução foi encaminhado ao banco de Patrícia, e a ele restou esperar uma resposta.

Por que Patrícia achou que podia ficar com o valor?

Na mesma noite, a irmã de Patrícia repetiu o ditado que muita gente usa nessas horas: achado não é roubado. Com a conta de luz atrasada e o material do salão acabando, ela gastou R$ 700 no dia seguinte e deixou o resto guardado. Quando o aplicativo mostrou uma mensagem sobre o pedido de devolução, ela simplesmente fechou a tela.

Quem digita a chave errada pode pedir devolução ao banco, mas a instituição não retira dinheiro de outra conta sem autorização
Quem digita a chave errada pode pedir devolução ao banco, mas a instituição não retira dinheiro de outra conta sem autorização – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Duas semanas depois, chegou à casa dela uma intimação para prestar depoimento na delegacia. Wellington tinha registrado ocorrência e levado o comprovante da transferência, com data, horário e a chave usada. Assustada, Patrícia procurou o núcleo da Defensoria Pública mais perto de casa para entender se aquilo era mesmo caso de polícia.

A dúvida de Patrícia é mais comum do que parece, e o site já mostrou o que fazer quando um depósito estranho aparece no extrato.

O que o Código Penal e o Código Civil dizem sobre o Pix errado

Na Defensoria, ela ouviu que ficar com dinheiro que chegou por engano tem nome no Código Penal (Decreto-Lei 2.848/1940): é apropriação de coisa havida por erro, prevista no artigo 169, com pena de detenção de um mês a um ano, ou multa. O crime aparece quando a pessoa percebe o erro e decide tratar o valor como seu. Quem devolve assim que nota a transferência não se encaixa nessa conduta.

A esfera cível corre em paralelo. O Código Civil (Lei 10.406/2002) determina, no artigo 876, que quem recebeu o que não lhe era devido fica obrigado a restituir, e o artigo 884 proíbe o enriquecimento sem causa, com devolução do valor atualizado. Mesmo que o processo criminal termine em acordo, a dívida de R$ 1.800 com Wellington continua existindo.

O botão de devolução do Pix vale por 90 dias e deve enviar o dinheiro sempre à conta de origem
O botão de devolução do Pix vale por 90 dias e deve enviar o dinheiro sempre à conta de origem – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Devolver, como e até quando

O regulamento do Pix, editado pelo Banco Central, exige que os aplicativos ofereçam uma função para devolver valores recebidos nos últimos 90 dias, como mostram os requisitos mínimos do Pix para a experiência do usuário. Passado esse prazo, a obrigação de devolver continua e precisa ser acertada por outro meio. Na prática, quem recebeu por engano deve observar alguns pontos:

  • usar o botão de devolução dentro da própria transação, que manda o dinheiro de volta para a conta de origem sem digitar chave nova;
  • nunca devolver para outra conta ou chave indicada por telefone ou mensagem, golpe comum em que o falso remetente ainda aciona o banco depois;
  • guardar o comprovante da devolução e o print da transação original;
  • se já gastou parte, propor por escrito a devolução do restante, mesmo que parcelada.

A quem recorrer se o caso já chegou à delegacia?

Para quem está no lugar de Patrícia, o primeiro caminho gratuito é a Defensoria Pública do estado, que atende quem não pode pagar advogado. Como a pena máxima do artigo 169 é de um ano, o caso vai para o Juizado Especial Criminal, regido pela Lei dos Juizados Especiais (Lei 9.099/1995), que prevê saídas como a transação penal. Os canais mais usados são estes:

  • Defensoria Pública do Rio de Janeiro, pelo telefone 129 ou nos núcleos dos municípios;
  • ouvidoria do banco, quando o aplicativo não mostra a opção de devolução;
  • Banco Central, pelo canal de reclamações no site, se a ouvidoria não resolver;
  • Juizado Especial Cível, onde quem enviou o Pix pode cobrar até 20 salários mínimos sem advogado.

Como a história de Patrícia terminou

Com a orientação da Defensoria, Patrícia pegou os R$ 700 emprestados com a irmã e devolveu os R$ 1.800 pelo botão do aplicativo, direto para a conta de Wellington. Levou o comprovante ao depoimento e depois à audiência no Juizado, onde o caso seguiu o rito previsto para crimes de menor potencial ofensivo. Wellington pagou o aluguel com uma semana de atraso e R$ 90 de multa.

Quem recebe um Pix desconhecido tem um caminho simples: não mexer no dinheiro, conferir o extrato e usar a devolução do próprio aplicativo em até 90 dias, sempre para a conta de origem. Se alguém ligar pedindo transferência para outra chave, a orientação é falar com o banco antes de qualquer movimento. Devolver logo é o que impede um engano de virar caso de delegacia.

Patrícia e Wellington foram inventados para este texto. O Pix que cai na conta errada e fica por lá, esse sim, aparece toda semana em delegacias e defensorias, e foi juntando casos assim que este relato tomou forma.

Outra dúvida frequente sobre o Pix é a de quem vende por conta própria e recebe tudo pelo celular, sem se formalizar.