Eleições
“Quem vai para o Supremo não pode querer ser rico”, diz Lula sobre caso Master
Presidente e candidato à reeleição detalha plano contra o crime organizado e aborda cenário político fluminense
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, concedeu entrevista à comunicadora Isabelle Benito, na Super Rádio Tupi. O petista conversou sobre diversos assuntos, entre saúde, segurança, STF, banco Master e a admiração dele pelo rádio.
Lula afirmou que as revelações sobre as festas bancadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro escancaram a promiscuidade entre o Banco Master e autoridades da República. “Era orgia e mais orgia”, disse. “É uma sacanagem que é impensável para um cidadão comum acreditar que as pessoas que têm a responsabilidade de zelar por esse país faziam aquilo.”
Lula citou nominalmente ministros do Supremo ao falar dos contratos revelados pela quebra de sigilo. “Ninguém está defendendo o contrato que Alexandre de Moraes fez com o Banco Master. Ninguém está defendendo o [Toffoli], que fez acordo com o banco”, afirmou. “O que nós estamos defendendo aqui é que quem vai para o Supremo não pode querer ser rico. Ali é um sacerdócio.” Segundo o presidente, há ministros ligados direta ou indiretamente ao caso. “Isso tudo está apodrecendo”, disse. O contrato revelado foi firmado entre o banco e o escritório Barci de Moraes, que tem como sócia Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, e não com o ministro.
Veja como foi a entrevista com o presidente Lula
O presidente também afirmou que parte do material apurado ficou retida. “O ministro André Mendonça tinha muitas informações na mão dele que ele segurou”, declarou. Ele disse que os documentos começam agora a circular entre os demais ministros e projetou novos desdobramentos até a eleição: “Tem muita gente com medo na República, Isabelle. Muita gente.”
Lula ironizou ainda um episódio revelado pela investigação, sem citar nomes. “Saiu até uma matéria de um cidadão que esteve com uma mulher que custou R$ 10 mil, ele não pagou e mandou o banco pagar”, disse. “Só faltou tentar entrar no Desenrola para pagar a dívida dele.”
Segurança no Rio de Janeiro
Lula falou sobre o pacto de segurança assinado no estado: “Essa experiência que estamos fazendo aqui é um plano piloto. Se der certo, a gente pode implantar em todo o território nacional.” Ele apontou a retomada de áreas dominadas por facções como o ponto mais difícil. “Você não pode levantar sabendo que o teu bairro tem um dono. Você não pode comprar gás sabendo que vai ter que pagar um pedágio. A vila é sua, a rua é sua, o bairro é seu”, declarou. “A polícia tem que atuar 24 horas por dia, durante 365 dias por ano.”
O candidato à reeleição pelo PT voltou a associar a família Bolsonaro a grupos milicianos do Rio. “Tem um candidato a presidente que é ligado aos milicianos aqui no Rio de Janeiro”, disse. “Quando você começa a analisar essas coisas do Rio de Janeiro, você vai perceber que tem muita gente da família Bolsonaro metida com os milicianos nesse país. É preciso limpar a política e é preciso limpar a polícia.”
O presidente também falou do Banco Master, que chamou de “o maior escândalo econômico de corrupção na história do Brasil”, e disse que a instituição “virou banco no governo Bolsonaro”. Sobre o Rio, resgatou a promessa feita na campanha de 2022: “A minha ideia era fazer com que o Rio de Janeiro saísse das páginas policiais e passasse a entrar nas páginas de notícias positivas dos jornais.”
Violência contra a mulher
Sobre violência contra a mulher, Lula citou o pacto contra o feminicídio firmado em fevereiro com o Supremo, o Senado e a Câmara e afirmou que as medidas protetivas agora saem em 24 horas. “Não podemos perceber e aceitar que uma mulher que está sob a guarda do governo seja violentada dentro de casa outra vez”, disse. “Bater em mulher vai ser preso. A mulher não é obrigada a viver com homem a troco de um prato de comida. Ele não é dono da mulher, ele é parceiro dela, é companheiro dela, mas não é dono.”

O presidente disse que a resposta do Estado não basta e cobrou mudança na educação. “Nós precisamos reeducar a humanidade. O filho tem que aprender desde pequeno que ele não é melhor do que a mulher”, afirmou. “Do berçário à universidade, nós temos que educar que nós somos iguais, que o homem não é dono da mulher, que não é mais forte que ela, que não é mais esperto que ela.” Lula defendeu ainda a independência financeira como forma de proteção: “Tenho falado para as mulheres: estudem, estudem, porque vocês não têm independência sem uma profissão.”
Ele também falou da divisão de tarefas em casa e defendeu o fim da escala 6×1. “O homem não aprendeu a ir para a cozinha ainda. Se o homem compartilhasse com a mulher os afazeres de casa, limpar o banheiro, arrumar a cama, trocar o filho, ajudar a fazer comida, seria tão bonito”, disse. “A mulher tem tripla jornada. Ela é a primeira a levantar e a última a dormir.” Sobre a escala: “Queremos dar um dia de folga para a mulher, para ela poder sentar e falar: vou relaxar, vou visitar um parente, vou chamar minhas amigas. Ninguém é escravo mais nesse país.”
Hospitais federais precisam virar “hospitais de excelência”
Lula falou sobre os hospitais federais do Rio, os únicos do país sob gestão direta da União, e disse que a rede era negligenciada no governo anterior. “Eu vim aqui visitar, alguns estavam totalmente abandonados, leitos fechados, cozinha fechada”, afirmou. “Quando o Bolsonaro era o responsável de tomar conta dos hospitais, os funcionários tinham que pagar para colocar o carro no estacionamento. Era um absurdo, o povo morrendo e o hospital fechado.”
Segundo o presidente, todas as unidades federais estão hoje em funcionamento, com parcerias firmadas com a prefeitura e com o Hospital Conceição, do Rio Grande do Sul. “Hospital federal do Rio de Janeiro precisa ser o hospital de excelência.”

Sobre o acesso a exames e especialistas, o presidente descreveu o que chamou de obsessão pela saúde. “Antigamente, o povo pobre ia no médico, pegava uma receita, não tinha dinheiro para comprar o remédio, colocava a receita dentro de um copo embaixo do travesseiro, e morria sem tomar o remédio”, disse. Ele citou a fila para especialistas e para exames de imagem, que levava anos, e usou o próprio tratamento como exemplo do que quer universalizar: “Eu fiz na garganta e eu fiz na cabeça, por causa de câncer de pele. Hoje qualquer pessoa pobre desse país vai ter o direito de fazer radioterapia numa máquina igual à que o Trump faz nos Estados Unidos, igualzinha à que o Putin faz, igualzinho ao que eu faço em qualquer lugar do Brasil.”
Lula sobre o rádio: “É quase insubstituível na comunicação”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma declaração de amor ao rádio nesta sexta-feira (18) no encerramento da entrevista concedida à comunicadora Isabelle Benito, na Super Rádio Tupi, que completa 91 anos no próximo dia 25. “É engraçado, porque já vi tantas vezes dizerem que o rádio vai acabar, que o rádio vai acabar. Não acaba nada”, afirmou.
Para o presidente, a força do meio está na relação que ele cria com o ouvinte. “O rádio é uma coisa boa, é uma coisa gostosa”, disse. “É você ver futebol na televisão ouvindo o rádio, porque no rádio passa muito mais emoção. Você não vê a cara das pessoas, você recebe muito mais emoção.”
O petista disse ainda se surpreender com a resistência do meio diante da concorrência digital. “É impressionante como o rádio não perde audiência. Por mais que as pessoas tentem, o rádio não perde audiência”, afirmou. Sobre a emissora, o presidente contou ser ouvinte de longa data: “Eu conheço a Tupi há muitos anos, há muitos anos eu uso a Tupi, tanto a televisão quanto o rádio.”