A "Capital da Manga" exporta 91% da fruta brasileira e transformou a Caatinga em um dos maiores pomares do país - Super Rádio Tupi
Conecte-se conosco
x

Entretenimento

A “Capital da Manga” exporta 91% da fruta brasileira e transformou a Caatinga em um dos maiores pomares do país

Uma área de apenas 130 hectares abriu caminho para a região que exporta 91%.

Publicado

em

Compartilhe
google-news-logo
A "Capital da Manga" exporta 91% da fruta brasileira e transformou a Caatinga em um dos maiores pomares do país
Um órgão federal que mudou de nome duas vezes antes de ganhar a forma atual. / Imagem ilustrativa

Transformar a Caatinga em pomar parecia improvável para quem conhecia o sertão pela seca. Em Petrolina, no oeste de Pernambuco, a virada começou em 1968, com 16 lotes de colonos irrigados com água do Rio São Francisco. Meio século depois, a região responde por quase toda a manga e a uva que o Brasil vende ao exterior.

Como começou a irrigação em Petrolina?

Com um projeto piloto de apenas 130 hectares. Segundo publicação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Projeto Bebedouro foi inaugurado em 1968 na antiga Fazenda Barra de Bebedouro, dividido em 16 lotes de colonos, e foi o primeiro projeto piloto de irrigação da Caatinga. Na média, cada família recebeu pouco mais de 8 hectares para plantar.

O terreno vinha sendo preparado havia anos. Na década de 1950, Petrolina recebeu um Posto de Colonização e passou a sediar as Semanas Ruralistas, encontros dedicados à agricultura, e em 1963 foi instalada uma estação experimental nos solos da própria área de Bebedouro. Estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) confirma que Bebedouro foi o primeiro perímetro irrigado construído na região de Petrolina e Juazeiro.

A cidade próspera a 712 km de Recife que se tornou o polo de riqueza mais surpreendente do Sertão
Desenvolvimento acelerado fez o município sair do anonimato. – Créditos: depositphotos.com / hecke06

Quem levou a água do São Francisco às lavouras?

Um órgão federal que mudou de nome duas vezes antes de ganhar a forma atual. O portfólio da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) registra que o trabalho começou com a Comissão do Vale do São Francisco, de 1948 a 1967, passou pela Superintendência do Vale do São Francisco e, em 1974, deu origem à Codevasf, criada para aproveitar a água e o solo do vale em atividades agrícolas e agroindustriais.

Petrolina virou peça central desse plano. A cidade passou a sediar a 3ª Superintendência Regional da Codevasf e o centro de pesquisa que hoje se chama Embrapa Semiárido, como lembra a publicação da Embrapa. Com isso, obras de irrigação e pesquisa agrícola passaram a caminhar juntas na mesma cidade. A publicação registra ainda que Petrolina abriga a Valexport, organização voltada à exportação de frutas frescas, sinal de que a cidade se preparou cedo para vender a produção ao mercado externo.

Qual o tamanho do Perímetro Senador Nilo Coelho?

Mais de 150 vezes o tamanho do projeto piloto de Bebedouro. Em 1979, Petrolina e a vizinha Casa Nova, na Bahia, foram escolhidas para receber o Perímetro de Irrigação Senador Nilo Coelho, com área total de 20.018 hectares, o maior da 3ª Superintendência da Codevasf, como registra a mesma publicação da Embrapa. A operação ganhou ritmo ao longo dos anos 1980, e o perímetro passou a concentrar boa parte da produção de frutas da cidade.

O modelo manteve espaço para as famílias. Estudo publicado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) registra cerca de 19 mil hectares produtivos no Nilo Coelho, dos quais 12 mil são destinados a pequenos produtores. Essa divisão entre áreas de colonização e áreas empresariais aparece em todos os perímetros da Codevasf, como descreve o estudo do Ipea.

O alcance da água vai além das lavouras. A Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) capta água do Nilo Coelho para abastecer Afrânio, a cerca de 140 km de Petrolina, e Dormentes, o que leva o recurso a comunidades a cerca de 200 km do perímetro, como explicou ao Diário de Pernambuco o gerente regional de irrigação da Codevasf. A infraestrutura criada para irrigar pomares passou a atender também a população do sertão ao redor.

No sertão nordestino, uma cidade desafia o semiárido com vinhos premiados e exportação de frutas
Petrolina PE, polo fruticultor no São Francisco: 418 mil hab., 562 km², exporta uvas/mangas e atrai turismo fluvial na Califórnia do Sertão. // Créditos: depositphotos.com / hecke06

Quanto da fruta exportada pelo Brasil sai do Vale do São Francisco?

Quase toda. Dados da Embrapa Semiárido divulgados pela Revista Cultivar mostram que o Submédio do Vale do São Francisco, onde ficam Petrolina e Juazeiro, responde pela exportação de 91% da manga e 98% da uva produzidas no Brasil. A instituição credita esse resultado às pesquisas e tecnologias desenvolvidas no próprio Semiárido, que viabilizaram o maior centro de fruticultura irrigada do país.

A origem das frutas também ganhou reconhecimento oficial. O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) aprovou a Indicação de Procedência Vale do Submédio São Francisco para uvas finas de mesa e mangas, como registra o Jornal da Fruta, publicação preservada no acervo da Embrapa. O mesmo texto explica que o clima quente e a irrigação permitem colher em qualquer período do ano e, no caso das videiras, garantir duas safras anuais.

Leia também: Com 83% de parque estadual, a cidade cortada pelo Trópico de Capricórnio abriga a primeira base do TAMAR criada para proteger tartarugas que vêm se alimentar.

O sertão que aprendeu a dar frutos

Petrolina mostra como uma aposta de pequena escala pode mudar o destino de uma região inteira. Os 16 lotes de 1968 provaram que a Caatinga podia produzir com a água do São Francisco, e a experiência se multiplicou em perímetros, centros de pesquisa e contêineres de exportação.

Hoje, cada manga embarcada no Vale carrega um pouco daquela primeira colheita irrigada, feita numa época em que pouca gente imaginava o sertão como pomar.