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A cidade mais alta do Brasil encanta com 1.628 metros de altitude e nasceu como refúgio de saúde no século XX
De sanatório a destino turístico.
Ar frio e seco, araucárias em cada esquina e o som de orquestras que ecoa na Serra da Mantiqueira durante todo o mês de julho. Campos do Jordão, cidade apelidada de Suíça Brasileira, transformou o clima que curava tuberculosos no início do século XX no principal destino de inverno do Brasil, com arquitetura europeia e programação cultural durante o ano inteiro.
Da sesmaria de 1790 aos campos do brigadeiro
Segundo a Prefeitura Municipal de Campos do Jordão, a ocupação começou em 1771, quando Inácio Caetano Vieira de Carvalho resolveu se estabelecer na região atraído pelo clima. A sesmaria foi oficializada em 27 de setembro de 1790, por carta do governador da Capitania de São Paulo, mas o povoamento cresceu lentamente.
O nome atual só apareceu depois. A partir de 1825, as terras foram vendidas ao brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão, e o local passou a ser chamado de Os Campos do Jordão. Quando alguém perguntava para onde ia, a resposta era simplesmente “aos campos do Jordão”, expressão que virou topônimo.
A fundação oficial do município é atribuída a 29 de abril de 1874, data em que Mateus da Costa Pinto adquiriu lotes à beira do Rio Imbiri e fundou o povoado de São Matheus do Imbiri, atual Vila Jaguaribe. A emancipação de São Bento do Sapucaí veio em 1934.

O clima que virou tratamento médico
A trajetória da cidade se confunde com a história da saúde pública brasileira. A partir do fim do século XIX, o ar puro e as baixas temperaturas fizeram da região referência no tratamento de doenças pulmonares, especialmente da tuberculose, que era a principal causa de morte no país.
Segundo o Jornal da Universidade de São Paulo (USP), a estruturação como centro médico envolveu a construção da Estrada de Ferro Campos do Jordão em 1914, indispensável para o acesso de pacientes e materiais para a urbanização e a instalação de hospitais. Antes da ferrovia, a subida da serra era feita a pé, a cavalo ou em liteiras.
Os médicos sanitaristas Emílio Ribas e Victor Godinho foram os principais responsáveis pela viabilização do ramal ferroviário. Nas décadas de 1920 e 1930, começaram a ser erguidos os primeiros sanatórios. A situação mudou apenas após a descoberta da penicilina, quando o fluxo terapêutico foi diminuindo e a cidade encontrou sua vocação turística.

O festival que ocupou o Palácio Boa Vista
A virada cultural veio em 1969. O então secretário da Fazenda de São Paulo, Luís Arrobas Martins, pediu ao governador Abreu Sodré que cedesse espaço no Palácio Boa Vista, residência oficial de inverno do Governo do Estado de São Paulo, para concertos de música erudita. A ideia era replicar no Brasil o modelo dos festivais europeus e americanos.
O sucesso foi imediato. Segundo a Fundação Osesp, organizadora do evento, o Festival Internacional de Inverno Dr. Luís Arrobas Martins tem mais de 50 anos de história e é internacionalmente reconhecido como o principal evento de música clássica do país. Em 1979, foi inaugurado o Auditório Cláudio Santoro, com acústica pensada para grandes orquestras.
A 55ª edição, realizada em 2025, reuniu 76 apresentações gratuitas em oito palcos de Campos do Jordão e da capital paulista. Segundo a Prefeitura Municipal de Campos do Jordão, a edição reuniu 141 bolsistas entre instrumentistas, regentes, pianistas e violonistas, com programação distribuída entre o Auditório Cláudio Santoro, o Parque Capivari, a Capela São Pedro Apóstolo e o Espaço Cultural Dr. Além.
O que fazer entre araucárias e mirantes
A cidade combina programação urbana concentrada em Vila Capivari e atrações naturais espalhadas pela Serra da Mantiqueira. A maioria dos pontos fica em raio curto do centro e pode ser explorada em dois ou três dias.
- Parque Estadual de Campos do Jordão: também conhecido como Horto Florestal, guarda a maior reserva de araucárias do estado de São Paulo, com trilhas leves e áreas de piquenique.
- Vila Capivari: núcleo turístico com restaurantes, chocolaterias e lojas em arquitetura de inspiração normanda, ponto de encontro dos visitantes.
- Palácio Boa Vista: residência oficial de inverno do Governo de São Paulo, transformada em museu com acervo de arte brasileira.
- Auditório Cláudio Santoro: sede principal do festival, cravado na mata, com acústica de nível internacional.
- Pico do Itapeva: mirante a mais de 2.000 metros de altitude com vista panorâmica do Vale do Paraíba em dias claros.
- Morro do Elefante: mirante clássico da cidade, acessível pelo bondinho aéreo.
- Parque Amantikir: 26 jardins temáticos inspirados em paisagismos de países diferentes, com labirinto de arbustos.
- Ducha de Prata: cascata natural preservada em meio à mata, com passarelas de madeira.
A mesa da serra alta
A gastronomia acompanha o frio característico da região. Pratos com queijos, fondues e vinhos definem o cardápio da alta temporada.
- Fondues: trio clássico de queijo, carne e chocolate, presença obrigatória nos restaurantes tradicionais do inverno.
- Chocolate quente e artesanal: chocolaterias de Vila Capivari servem barras e bebidas com receitas próprias.
- Sopas e caldos: culinária alpina com pratos densos servidos em copos ou tigelas nos quiosques da cidade.
- Trutas e cordeiro: proteínas típicas da montanha, servidas grelhadas ou em preparos regionais.

Como é o clima de Campos do Jordão durante o ano?
A cidade tem clima subtropical de altitude, com verões frescos e invernos frios. As temperaturas caem consideravelmente à noite, mesmo nos meses mais quentes, e a temporada de julho concentra as menores mínimas do ano.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Suíça Brasileira
Campos do Jordão fica a cerca de 173 km de São Paulo, com acesso pela Rodovia Presidente Dutra até Taubaté e, em seguida, pela SP-123 até o alto da serra. O trajeto leva aproximadamente três horas de carro. Os aeroportos mais próximos com voos comerciais são o Aeroporto Internacional de Guarulhos e o Aeroporto de Congonhas, ambos na capital paulista.
A cidade mais alta do país
Poucos destinos brasileiros combinam a atmosfera europeia, o principal festival de música clássica da América Latina e a memória de ter sido refúgio contra uma das doenças mais temidas do século XX. Campos do Jordão transforma o clima em produto turístico sem perder a identidade forjada pelos sanatórios e ferrovias do início do século passado.
Você precisa conhecer Campos do Jordão e ouvir uma orquestra no Auditório Cláudio Santoro em pleno julho para entender por que a Suíça Brasileira virou parada obrigatória no calendário cultural do país.