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No meio do deserto do Atacama, uma montanha de roupas de 60 mil toneladas foi encontrada: ela veio da Europa e pode ser vista do espaço

Uma pilha visível por satélite reforça a busca por reaproveitamento têxtil

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No meio do deserto do Atacama, uma montanha de roupas de 60 mil toneladas foi encontrada: ela veio da Europa e pode ser vista do espaço
Uma pilha visível por satélite reforça a busca por reaproveitamento têxtil

No norte do Chile, no meio da região mais árida do planeta, cresce ano após ano uma estrutura que não pertence àquele paisagem: uma montanha de roupas descartadas que já ultrapassa 60 mil toneladas e pode ser vista por satélites. O Deserto do Atacama, conhecido pela sua beleza extrema e por abrigar alguns dos telescópios mais avançados do mundo, virou também o destino final de peças produzidas na Ásia, compradas na Europa e descartadas sem que ninguém assuma a responsabilidade pelo que acontece depois.

Montanha de roupas no Atacama expõe o custo invisível da moda descartável
No norte do Chile, toneladas de peças rejeitadas chegam por rotas comerciais internacionais e se acumulam no deserto, criando uma crise ambiental visível até por satélite.
👕
Rota global
Roupas produzidas na Ásia, vendidas fora e rejeitadas chegam ao Chile por cadeias comerciais.
🏜️
Descarte no deserto
Peças sem comprador ficam para trás no Atacama, onde o clima seco preserva o resíduo por décadas.
🔥
Impacto ambiental
Fibras sintéticas, queimadas e microplásticos afetam ar, solo e comunidades próximas.
♻️
Solução em escala
Reciclagem existe, mas ainda é pequena diante do volume que chega ao deserto todos os anos.
Resumo útil: a crise do Atacama mostra que o problema não termina quando a roupa sai da loja ou do armário; sem responsabilidade pela cadeia inteira, o descarte vira carga para comunidades distantes.

Como as roupas europeias chegam ao deserto no Chile?

A rota é mais organizada do que parece. Segundo dados publicados pela ONU em um relatório de 2024, a Europa é a principal exportadora mundial de roupas descartadas, representando 30% do total global, à frente do Reino Unido com 16% e dos Estados Unidos com 15%. Dados do Parlamento Europeu indicam que cada residente do bloco compra, em média, 26 quilos de têxteis por ano e descarta cerca de 11 quilos, alguns dos quais acabam viajando milhares de quilômetros até o Chile.

O caminho passa pelo porto de Iquique, na zona franca de Alto Hospício, no norte do Chile. Após a confecção na China e na Ásia, os produtos são enviados para a Europa e Estados Unidos. Em seguida, boa parte das roupas que não foram compradas acaba sendo arrematada por vendedores de segunda mão no norte do Chile, que pretendem revendê-las para os países latinos. As peças que ninguém compra ficam para trás, e ninguém paga o custo de removê-las.

O que foi encontrado entre as roupas descartadas no Atacama?

Investigações da ONG Ekō e do coletivo chileno Desierto Vestido identificaram itens de marcas como Zara, H&M, Adidas, Nike, Levi’s, Tommy Hilfiger e Hugo Boss entre os descartes, muitos ainda com etiquetas originais. A presença de etiquetas intactas é o detalhe mais revelador: parte das roupas que chegam ao Deserto do Atacama nunca foi usada nem vendida. São peças novas que percorreram meio mundo para acabar em uma pilha a céu aberto.

No meio do deserto do Atacama, uma montanha de roupas de 60 mil toneladas foi encontrada: ela veio da Europa e pode ser vista do espaço
Uma pilha visível por satélite reforça a busca por reaproveitamento têxtil

Por que o Atacama se tornou o destino desses resíduos?

A escolha não é acidental. A zona franca de Iquique funciona há décadas como ponto de entrada de mercadorias para o mercado latino-americano, com isenção de impostos para produtos em trânsito. Quando as roupas não encontram comprador, o descarte no deserto se torna a opção mais barata disponível. O problema é que a roupa não é biodegradável e tem produtos químicos, por isso não é aceita nos aterros municipais. Sem alternativa regulamentada e sem custo associado ao descarte ilegal, a montanha cresce.

O clima extremamente seco do Atacama paradoxalmente contribui para a visibilidade do problema: sem chuvas que decomponham o material, as roupas permanecem praticamente intactas por décadas, acumulando-se em uma estrutura que os satélites conseguem mapear com clareza.

Quais são os impactos ambientais concretos dessa situação?

O problema vai além do impacto visual. Grande parte das roupas é feita com fibras sintéticas derivadas do petróleo e, quando queimadas ou degradadas, liberam compostos poluentes e microplásticos. A ONU descreveu essa situação como uma emergência ambiental e social, enquanto organizações chilenas alertam que as emissões estão afetando a qualidade do ar e obrigando os moradores de Alto Hospício a permanecerem em suas casas durante os incêndios no aterro sanitário.

Os efeitos se distribuem por diferentes escalas:

  • Incêndios frequentes no aterro liberam compostos tóxicos que afetam diretamente a saúde respiratória dos moradores de Alto Hospício.
  • A degradação de fibras sintéticas contamina o solo com microplásticos que persistem por séculos sem se decompor.
  • As roupas podem levar até 200 anos para se desintegrar, e a queima frequente aumenta as emissões de carbono na região.
  • A contaminação do lençol freático representa risco a longo prazo para uma região que já enfrenta escassez severa de água.

O que o Chile e organizações internacionais têm feito a respeito?

O Chile tem uma legislação de responsabilidade estendida do produtor que responsabiliza fabricantes e importadores pelo descarte de categorias específicas de resíduos. Os têxteis não foram incluídos nessa legislação, o que significa que nenhuma empresa tem obrigação legal de arcar com o custo de remover as roupas que envia ao país. Essa lacuna regulatória é um dos principais obstáculos para qualquer solução estrutural.

Algumas iniciativas privadas estão tentando preencher parte dessa lacuna. A Ecocitex, com sede em Santiago, converte roupas usadas em fios de vestuário, incluindo lã sintética, que podem ser usados para fazer roupas novas. A empresa EcoFibra produz painéis de isolamento térmico a partir das roupas descartadas. São iniciativas relevantes, mas que operam em escala muito menor do que o volume de resíduos que chega ao deserto a cada ano.

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Uma crise visível do espaço que ainda espera solução em terra

O prefeito de Alto Hospício, Patrício Ferreira, resumiu o sentimento da população local em uma frase citada pela AFP: “Temos a sensação de que nossa terra foi sacrificada. Somos o lixo do mundo.” A declaração captura com precisão a assimetria que está no centro do problema: os países que mais consomem e mais descartam estão a milhares de quilômetros do lugar onde as consequências se materializam.

A montanha de roupas no Deserto do Atacama não é uma anomalia isolada. É a versão visível do espaço de um sistema que produz mais do que pode vender, descarta mais do que consegue reciclar e transfere o custo ambiental dessa equação para comunidades que participaram muito pouco do consumo que gerou o problema.