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A cidade paulista que virou nome de sanduíche em 1937 e já foi o maior entroncamento ferroviário do país
A cidade de SP que ficou famosa no prato e nos trilhos,
A 330 km da capital, Bauru deu o nome ao lanche mais famoso do Brasil por causa do apelido de um estudante de Direito que vivia pedindo o mesmo pedido num bar do centro de São Paulo. A história começou em 1937, mas antes disso a cidade já era conhecida por outro apelido, o de Sem Limites, e por ter reunido três das principais estradas de ferro do país no início do século XX.
De Espírito Santo da Fortaleza a Sem Limites
A vila nasceu no fim do século XIX com o nome de Espírito Santo da Fortaleza, distrito criado pela Lei Estadual nº 209, de 30 de agosto de 1893, subordinado ao município de Lençóis. A emancipação política veio em 1º de agosto de 1896, e o novo município passou a ocupar terras arrancadas do sertão paulista, ainda povoadas por indígenas Kaingang. Os registros oficiais estão no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O impulso definitivo veio das ferrovias. Em 1905 chegaram os trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana, ligando o povoado à capital. Em 1906, começou a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), com destino final em Corumbá, na fronteira com a Bolívia. Em 1910, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro completou o triângulo. Segundo o IBGE, o município se tornou um dos maiores entroncamentos ferroviários do interior sul-americano e ganhou o apelido de Sem Limites.

Por que o sanduíche Bauru se chama assim?
Porque foi batizado por um estudante da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, que era natural da cidade e virou apelido entre os colegas. Em 1937, Casimiro Pinto Neto, conhecido como Bauru pelos amigos, pediu ao chapeiro do restaurante Ponto Chic, no Largo do Paissandu, uma combinação diferente: pão francês sem miolo, rosbife, tomate, picles e uma mistura de quatro queijos derretidos em banho-maria. O pedido virou o cardápio, e o cardápio virou clássico paulistano.
A receita original foi oficializada pela Lei Municipal nº 4.314, de 24 de junho de 1998, aprovada pela Câmara Municipal de Bauru como selo de qualidade. Em dezembro de 2018, o sanduíche foi declarado patrimônio cultural imaterial do estado de São Paulo pela Lei Estadual nº 16.914. Hoje, a versão popular de pão francês, presunto, queijo e tomate se espalhou pelo país, mas a receita registrada continua sendo servida no Ponto Chic e em pouquíssimos endereços autorizados.
O astronauta que começou a carreira nas oficinas ferroviárias
A Estação da NOB, inaugurada em 1939, centralizava embarques e desembarques das três ferrovias e chegou a ser considerada o maior entroncamento ferroviário do Brasil. As oficinas anexas formaram gerações de operários especializados. Entre eles, o astronauta Marcos Pontes, primeiro brasileiro a ir ao espaço, que iniciou seu aprendizado profissional nas oficinas da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA) em Bauru.
Os trens de passageiros foram desaparecendo. A última composição chegou à cidade em 15 de março de 2001. Nove anos depois, o prédio da estação foi comprado pelo município e passou por processo de revitalização, com salas cedidas a instituições culturais e o entorno transformado em espaço público. O casario dos antigos ferroviários ainda pontua o centro histórico.
O que fazer em Bauru?
A cidade combina áreas verdes, patrimônio ferroviário e uma cena universitária forte, com Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Estadual Paulista (UNESP). Os principais passeios estão distribuídos entre o centro e os bairros mais arborizados.
- Zoológico Municipal de Bauru: inaugurado em 1980, mantém cerca de 700 animais de 170 espécies. Segundo a Prefeitura de Bauru, foi o primeiro zoológico do Brasil a conseguir a reprodução de pinguins em cativeiro, em 2013.
- Horto Florestal: área protegida de 43,09 hectares criada em 1928, com trilhas, centro de educação ambiental e amostras de Mata Atlântica e Cerrado.
- Estação Ferroviária da Noroeste: prédio de 1939, símbolo do auge ferroviário da cidade, abriga eventos e projetos culturais.
- Jardim Botânico Municipal: unidade de conservação com trilhas em meio a fragmentos preservados de Cerrado, um dos maiores em área urbana no interior paulista.
- Bosque da Comunidade: parque urbano na Vila Aeroporto, com playground, fonte e locomotiva antiga em exposição, herança do passado ferroviário.
- Calçadão da Batista: rua de comércio popular no centro histórico, ideal para caminhadas e para descobrir a arquitetura eclética das antigas casas de ferroviários.

O que comer além do sanduíche
A cena gastronômica reflete a diversidade da imigração italiana, japonesa e árabe que ajudou a formar a cidade. O centro concentra confeitarias históricas e restaurantes de comida caseira.
- Sanduíche Bauru original: pão francês sem miolo, rosbife, mistura de quatro queijos derretidos, tomate e picles. A receita registrada pela lei municipal.
- Culinária japonesa: Bauru abriga uma das maiores comunidades nikkeis do interior paulista, com restaurantes tradicionais e feiras livres semanais.
- Massas artesanais: herança dos imigrantes italianos, presentes em cantinas de bairro e em restaurantes familiares.
- Doces coloniais: presentes em padarias tradicionais do centro, muitas delas em funcionamento há décadas.
Como é o clima ao longo do ano
Bauru tem clima tropical, com verão quente e chuvoso e inverno seco. O centro-oeste paulista costuma registrar temperaturas altas de setembro a fevereiro, com noites amenas nos meses mais frios.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Bauru
A cidade fica a cerca de 330 km da capital paulista pelas rodovias Castello Branco ou Marechal Rondon, aproximadamente quatro horas de carro. O Aeroporto Estadual Bauru-Arealva opera voos regulares para São Paulo, e ônibus rodoviários partem diariamente do Terminal Tietê. Do Rio de Janeiro, o trajeto por estrada leva cerca de sete horas.
A cidade por trás do sanduíche
Bauru é muito mais que o nome no cardápio dos lanches. É uma cidade construída sobre trilhos, ampliada pelas universidades e temperada por uma mistura de culturas que se sente na comida, na arquitetura e nas praças.
Você precisa conhecer Bauru, provar um Bauru de verdade e caminhar pela antiga Estação da Noroeste para entender por que essa cidade do interior deu tanto ao país.