Entretenimento
Uma floresta de 20 milhões de anos em uma ilha eleita 11 vezes seguidas a melhor do mundo: os segredos perdidos no meio do Atlântico
11 títulos de melhor do mundo e uma floresta de 20 milhões de anos.
A 1.000 km da costa continental de Portugal, a Ilha da Madeira emergiu do Atlântico como um pedaço perdido do sul da Europa antes das eras glaciais. Guarda uma floresta subtropical com origem no Terciário, uma rede de canais de irrigação cortada à mão por escravos no século XVI e uma coleção de prêmios que a mantém há mais de uma década como o melhor destino insular do planeta.
Por que a ilha se chama Madeira?
Porque foi isso que os navegadores portugueses encontraram quando desembarcaram em 1419. Sob o comando de João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, tripulantes da Escola de Sagres chegaram a uma ilha coberta de ponta a ponta por bosques densos. Batizaram o lugar pelo que viram: Ilha da Madeira. Séculos depois, boa parte daquela floresta ainda está lá, protegida por lei federal e internacional.
O nome pegou tão forte que virou marca. A ilha entrou nas rotas comerciais logo depois, tornou-se ponto de escala das navegações atlânticas e recebeu levas de colonos que plantaram cana-de-açúcar e depois videiras. Em 1976, a Madeira ganhou autonomia política de Lisboa e passou a se chamar oficialmente Região Autónoma da Madeira.

A Laurissilva, floresta relíquia do Terciário
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), a Laurissilva da Madeira é o resquício mais expressivo de um tipo de floresta de louros que cobriu grande parte do sul da Europa entre 15 e 40 milhões de anos atrás. As glaciações do Quaternário varreram essa vegetação do continente. Na Madeira, o clima ameno e a topografia acidentada preservaram o ecossistema por milênios.
A floresta ocupa hoje mais de 20% do território da ilha, entre 300 e 1.300 metros de altitude, e é considerada 90% primária pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Foi inscrita como Património Mundial Natural em dezembro de 1999. Abriga 66 espécies de plantas endêmicas, o pombo-trocaz endêmico e árvores centenárias com mais de 800 anos, além de garantir o equilíbrio hidrológico da ilha ao capturar umidade das nuvens.
Melhor ilha do mundo por 11 anos seguidos
Em dezembro de 2025, no Bahrein, a Madeira foi eleita pela 11ª vez consecutiva o Melhor Destino Insular do Mundo pelo World Travel Awards, considerado o Oscar do turismo internacional. Segundo a Direção Regional de Turismo da Madeira, a série ininterrupta começou em 2015 e superou concorrentes como Bali, Havaí, Ilhas Maurício, Seychelles e Zanzibar.
A conta é ainda mais alta se somados os títulos europeus. A ilha soma pelo menos oito reconhecimentos como Melhor Destino Insular da Europa, sem contar as premiações em turismo de cruzeiros, turismo de aventura e destinos de praia. Em 2024, ano recorde, a Madeira recebeu 2,22 milhões de hóspedes e registrou 11,7 milhões de dormidas, com receita turística superior a 756 milhões de euros.
2.170 km de canais cortados à mão nas montanhas
A engenharia mais impressionante da ilha não fica em cima do solo, mas escavada dentro das montanhas. As levadas são canais de irrigação estreitos, feitos de pedra, criados a partir do século XVI para levar água das encostas úmidas do norte para as áreas agrícolas mais secas do sul. Foram construídas em condições brutais, muitas vezes com trabalho de escravos e prisioneiros, e ganharam extensões monumentais ao longo dos séculos.
Hoje somam mais de 2.170 km de canais, com 40 km de túneis cavados no meio da rocha. As trilhas paralelas às levadas viraram um dos principais atrativos turísticos da ilha. Percursos como o da Levada do Caldeirão Verde, o da Levada das 25 Fontes e o da Levada do Rei atravessam a Laurissilva e conectam vales, cachoeiras e miradouros.

Ilha vulcânica com o teto acima das nuvens
A Madeira é uma ilha vulcânica em atividade extinta, cravada no meio do Atlântico Norte a cerca de 900 km do continente africano e mais de 1.000 km da costa portuguesa. A geografia é dramática: encostas quase verticais, vales em V, ravinas profundas e o segundo ponto mais alto de Portugal, o Pico Ruivo, com 1.862 metros.
A trilha entre o Pico do Areeiro e o Pico Ruivo é uma das mais famosas do país. Em dias claros, os caminhantes atravessam um mar de nuvens que fica abaixo do nível do trilho. A ilha ainda inclui o arquipélago das Ilhas Desertas, a sudeste, e as Ilhas Selvagens, mais ao sul, ambas reservas naturais que abrigam a rara foca-monge do Mediterrâneo, uma das espécies mais ameaçadas de extinção do mundo.
Leia também: A cidade do interior paulista que combina qualidade de vida, bons serviços e tranquilidade para morar.
O que fazer na Ilha da Madeira
Além das trilhas das levadas, a ilha oferece um menu de programas que aproveita a geografia vulcânica, a herança colonial e a costa recortada. Boa parte das atrações fica a menos de uma hora de Funchal.
- Funchal: capital histórica fundada no início do século XVI, com a catedral Sé de 1514, o Mercado dos Lavradores, o teleférico até o Monte e o famoso trenó de vime que desce a encosta guiado por dois carreiros.
- Cabo Girão: falésia com mais de 580 metros, considerada uma das mais altas da Europa, com plataforma de vidro suspensa sobre o oceano.
- Porto Moniz: piscinas naturais formadas em rochas vulcânicas na costa noroeste, com água do mar renovada pelas marés.
- Fanal: bosque de louros centenários dentro da Laurissilva, com névoas frequentes que dão cenário quase pré-histórico à paisagem.
- Museu CR7: acervo com mais de 200 troféus de Cristiano Ronaldo, no centro de Funchal, cidade natal do jogador. O aeroporto internacional da ilha também leva o nome dele desde 2017.
- Porto Santo: ilha vizinha, a 40 minutos de ferry, com 9 km de praia de areia dourada com propriedades terapêuticas reconhecidas. Recebeu o título de Reserva da Biosfera da UNESCO.
Conheça a ilha que segurou uma floresta pré-histórica
A Madeira é rara porque conservou o que o resto da Europa perdeu nas eras glaciais e ainda transformou seu passado colonial em rede de trilhas viva. Poucos destinos combinam floresta patrimônio da humanidade, engenharia hidráulica de cinco séculos e reconhecimento internacional sustentado por mais de uma década.
Você precisa conhecer a Ilha da Madeira e caminhar pelo menos uma vez ao lado de uma levada, ouvindo o som da água que corre pela mesma pedra desde o século XVI.