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A cidade que virou patrimônio cultural por causa de um ET e hoje exporta US$ 2 bilhões em café por ano
Do ET ao café, essa cidade surpreende ao unir patrimônio cultural e exportações bilionárias.
Quase toda cidade brasileira tem uma história para contar, mas poucas transformaram um mistério em identidade oficial. Varginha, no sul de Minas Gerais, virou capa do Wall Street Journal por causa de um relato ufológico em 1996 e três décadas depois oficializou o episódio como patrimônio cultural do município. No silêncio dos cafezais ao redor, a mesma cidade se tornou a maior exportadora de café do país.
O que aconteceu em Varginha no dia 20 de janeiro de 1996?
Naquele sábado de tarde, as irmãs Liliane Silva e Valquíria Silva, então com 16 e 14 anos, e a amiga Kátia Andrade Xavier, de 22, cortavam caminho por um terreno baldio do bairro Jardim Andere. O relato que deram à família descrevia uma criatura agachada junto a um muro, com olhos grandes e avermelhados, pele oleosa e três protuberâncias na cabeça.
A história virou reportagem no programa Fantástico, capa de revista e chegou ao Wall Street Journal em 1998. Movimentações militares na cidade, animais mortos sem explicação e um Inquérito Policial Militar aberto pelas Forças Armadas alimentaram décadas de teorias, colocando o Caso ET de Varginha entre os episódios ufológicos mais documentados da história moderna, frequentemente comparado ao caso Roswell, nos Estados Unidos.

Como o Caso ET virou Patrimônio Cultural Imaterial da cidade?
Poucas cidades no mundo transformaram um relato sem comprovação oficial em memória protegida por lei. Em 5 de junho de 2023, o Conselho Deliberativo Municipal do Patrimônio Cultural registrou o Caso ET de Varginha e a identidade varginhense como Patrimônio Cultural Imaterial do município, conforme divulgou a reportagem do Estado de Minas.
O reconhecimento inscreveu o caso nos Livros dos Lugares e das Representações, e a prefeitura adquiriu por permuta o terreno original do Jardim Andere, com planos de transformá-lo em ponto turístico oficial. A cidade não escondeu a fama, fez o oposto: absorveu o mistério e o converteu em política pública.
O que visitar no roteiro do ET em Varginha?
O turismo ufológico virou marca registrada da cidade. Atrações se espalham entre o centro e a área urbana, quase todas acessíveis a pé ou por trajetos curtos.
- Memorial do ET: inaugurado em 9 de novembro de 2022, segundo o Portal oficial do Turismo de Varginha, reúne planetário com filmes em 360°, exposições sobre o incidente e sede da Secretaria de Turismo.
- Caixa d’água em formato de disco voador: cartão-postal da cidade, com 20 metros de altura e capacidade para 100 mil litros.
- Rota do ET: circuito de totens instalados nos pontos históricos do incidente, percorrível a pé pelo centro.
- Estátuas do Grey: esculturas do famoso alienígena em praças, calçadas e pontos de ônibus, incluindo uma versão de 4 metros inaugurada recentemente.
- Jardim Andere: o terreno onde tudo começou em 1996, adquirido pela prefeitura e em fase de estruturação como atração oficial.
Como a cidade do ET virou a maior exportadora de café do Brasil?
Enquanto o mundo lembrava do episódio ufológico, Varginha construía no silêncio dos cafezais uma potência econômica. Em 2024, o município foi o quarto que mais exportou em Minas Gerais, com cerca de US$ 2 bilhões movimentados, liderados pelo café verde arábica, segundo dados da Fundação João Pinheiro citados pelo Estado de Minas.
A cidade abriga o Porto Seco Sul de Minas, primeira Estação Aduaneira do Interior a entrar em funcionamento no Brasil, que movimenta cerca de mil veículos por dia e gera aproximadamente 5 mil empregos diretos e indiretos. Os principais destinos dos grãos são Alemanha, Estados Unidos e Bélgica. Fazendas do entorno abrem as porteiras para visitas guiadas, com sessões de cupping, trilhas entre cafezais e compra de microlotes rastreados, segundo o Portal UAI Turismo. A melhor época é a safra, entre maio e setembro.
O que fazer em Varginha além da ufologia?
A cidade combina atrações naturais e culturais que passam quase despercebidas por quem chega buscando apenas o ET. Boa parte dos passeios fica a poucos quilômetros do centro.
- Morro do Chapéu: mirante a 8 km do centro, com trilha curta de baixa dificuldade e vista panorâmica da cidade e do vale.
- Parque Centenário: 17,5 hectares de mata nativa com três nascentes e lago central, a cinco minutos do centro.
- Parque Municipal Novo Horizonte: área de lazer com pedalinho, pesca e lago no coração da cidade.
- Cachoeira dos Possidônios: queda d’água na estrada entre Varginha e Monsenhor Paulo, opção para banho nos dias quentes.
- Theatro Capitólio: inaugurado no início do século XX, entre os teatros mais antigos ainda em funcionamento em Minas.
- Zoológico Municipal: um dos mais visitados do sul de Minas, com aves, mamíferos e espaço educativo.

Como é o clima e a melhor época para visitar Varginha?
A altitude e a posição no sul de Minas garantem um clima ameno o ano todo. O inverno é seco e ensolarado, ideal para quem quer visitar fazendas e mirantes com céu limpo.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Varginha?
De carro, o acesso mais direto é pela BR-381, a Fernão Dias, que conecta Belo Horizonte e São Paulo, com entrada final pela BR-491. A cidade fica a cerca de 315 km de Belo Horizonte e a aproximadamente 300 km de São Paulo, com viagem média de quatro horas em qualquer um dos trajetos.
Ônibus regulares saem das duas capitais várias vezes ao dia, e a cidade tem aeroporto regional para voos executivos. Quem prefere emendar o roteiro pode combinar Varginha com destinos vizinhos do sul de Minas, como Três Corações, terra natal de Pelé, e Monte Verde.
Uma cidade que abraçou o próprio mistério
Varginha conseguiu algo raro no Brasil: transformar um episódio de ufologia em política cultural, sem esconder o folclore atrás de um ranking econômico. A caixa d’água em formato de nave convive com o Porto Seco que movimenta bilhões, o Memorial do ET fica a poucas quadras das fazendas que abastecem cafeterias da Alemanha aos Estados Unidos.
Nem toda cidade escolhe o que quer ser lembrada, mas Varginha soube fazer as duas coisas ao mesmo tempo: virou capital do café por dentro e cidade do ET por fora. E as duas identidades caminham juntas no mesmo endereço.