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A “Ilha das Cobras” brasileira com 5 serpentes por metro quadrado que a Marinha proíbe pisar desde 1985

A ilha mais perigosa do Brasil onde milhares de serpentes vivem e a Marinha controla o acesso.

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A "Ilha das Cobras" brasileira com 5 serpentes por metro quadrado que a Marinha proíbe pisar desde 1985

Um pedaço de mata atlântica cravado no oceano, a 35 km da costa paulista, abriga o que pesquisadores classificam como uma das maiores densidades de serpentes venenosas do planeta. A Ilha da Queimada Grande, mais conhecida como Ilha das Cobras, tem apenas 43 hectares, é o único endereço no mundo da jararaca-ilhoa e teve o desembarque civil proibido pela Marinha do Brasil e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Só entram pesquisadores autorizados, sob protocolos rígidos.

A ilha paulista onde só se pode entrar com autorização federal

A Ilha da Queimada Grande fica a 35 km da costa do litoral sul de São Paulo, entre os municípios de Itanhaém e Peruíbe. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), ela integra a Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) Ilhas da Queimada Pequena e Queimada Grande, unidade federal de conservação de bioma marinho costeiro com 65,17 hectares, criada pelo Decreto nº 91.887, de 5 de novembro de 1985.

O decreto assegura a supervisão do poder público e resguarda apenas o direito da Marinha de instalar equipamentos de auxílio à navegação, sem prejuízo ambiental. O desembarque de civis é proibido, e mesmo pesquisadores só entram com autorização prévia via Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (SISBio), mediante projeto científico aprovado.

A "Ilha das Cobras" brasileira com 5 serpentes por metro quadrado que a Marinha proíbe pisar desde 1985
Uma ilha que existe para não ser visitada. / Créditos: Wikipédia

Por que a Queimada Grande é considerada uma das ilhas mais perigosas do planeta?

A resposta está na densidade rara de uma única espécie. A jararaca-ilhoa, cientificamente batizada de Bothrops insularis, é endêmica da ilha, não existe em nenhum outro lugar do mundo e é considerada a cobra mais peçonhenta do Brasil pelo Instituto Butantan. Os números que sustentam a fama do local são:

  • 3 mil a 5 mil serpentes: estimativa oficial da população de jararacas-ilhoas na ilha, segundo pesquisas científicas.
  • Até 5 cobras por metro quadrado: densidade estimada em picos populacionais, entre as maiores do planeta.
  • Único vertebrado brasileiro exclusivo de uma ilha oceânica: a espécie evoluiu isolada do continente há milhares de anos.
  • Veneno de ação hemotóxica intensificada: adaptação para matar aves em segundos, evitando fuga da presa.
  • Classificação “criticamente em perigo”: pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e pelo próprio ICMBio.

É essa combinação que transformou os 43 hectares em um dos maiores laboratórios evolutivos a céu aberto do mundo.

Como uma cobra virou espécie endêmica em uma ilha oceânica?

A explicação é geológica. Há cerca de 11 mil anos, o fim da última era glacial elevou o nível do mar e isolou o que hoje é a Queimada Grande do restante do litoral paulista. As jararacas que ficaram presas na ilha perderam contato com as populações continentais e passaram a evoluir sozinhas, em um cenário sem mamíferos terrestres.

Sem roedores para caçar no chão, a espécie desenvolveu duas adaptações raras entre serpentes brasileiras: passou a viver em árvores e a caçar aves migratórias que param na ilha durante as travessias. Como as aves voam para longe se apenas feridas, o veneno da jararaca-ilhoa evoluiu para agir com velocidade extrema, o que a fez chegar a níveis de toxicidade muito acima do de suas primas continentais.

O nome que nasceu do fogo dos pescadores

A denominação “Queimada Grande” tem origem histórica direta. Segundo o portal oficial do Município de Itanhaém, pescadores tentavam atear fogo à vegetação costeira da ilha para afugentar as serpentes antes de desembarcar. A prática deu nome à ilha, mas nunca ameaçou a população de jararacas, que continuou dominando o território.

A tentativa mais persistente de ocupação humana foi um farol de balizamento marítimo. Segundo o próprio site municipal, os operadores foram forçados a abandonar o local em 1918 após serem atacados pelas serpentes, e desde então o farol funciona de forma totalmente automatizada. Nenhuma ocupação civil permanente prosperou desde aquele ano.

O que a ciência já extraiu da Queimada Grande?

Apesar do isolamento, a ilha se tornou um dos principais objetos de pesquisa da biologia evolutiva brasileira. Segundo o Instituto Butantan, o primeiro sequenciamento genômico completo da jararaca-ilhoa foi publicado no periódico Genome Biology and Evolution e revelou informações fundamentais sobre a composição e a evolução do veneno da espécie. O trabalho científico gerado no local se concentra em quatro grandes frentes:

  • Pesquisa farmacêutica: componentes do veneno são analisados para desenvolvimento de medicamentos contra hipertensão e coagulação.
  • Estudos de evolução insular: a jararaca-ilhoa virou modelo mundial de como espécies mudam ao ficarem isoladas do continente.
  • Conservação de espécie criticamente ameaçada: pesquisas populacionais monitoram declínio causado por caça ilegal e mudanças climáticas.
  • Educação ambiental: a ilha ilustra o funcionamento das unidades de conservação de acesso restrito no Brasil.

É esse conjunto que sustenta o rigor da proibição de desembarque civil imposta pelo ICMBio.

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Uma ilha que existe para não ser visitada

Poucos lugares no Brasil condensam tanto valor científico em tão pouco território quanto a Queimada Grande. A ilha resume, em 43 hectares, o que a evolução consegue produzir quando um pedaço de mata atlântica é isolado do continente e entregue ao silêncio.

Você precisa conhecer a Ilha da Queimada Grande pelos registros oficiais do ICMBio e do Instituto Butantan, porque este é um dos raros destinos brasileiros que pede para continuar intocado.