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A pequena cidade gaúcha com a única igreja revestida de ametista no mundo que, oito décadas depois, ainda encanta pela beleza e história
Uma igreja revestida de ametista atravessou oito décadas.
Ninguém planejou nada disso. Em Ametista do Sul, no norte do Rio Grande do Sul, os primeiros cristais roxos apareceram por acaso, presos às raízes das árvores. Oito décadas depois, o subsolo da cidade sustenta uma igreja, uma adega, uma cervejaria e um restaurante.
As pedras apareceram no meio da lavoura
O território era mata fechada, habitado pelos Kaingang e colonizado no início do século XX por gente vinda de Palmeira das Missões e da região de Caxias do Sul. Os primeiros núcleos surgiram na década de 1940, sob o nome de Cordilheira.
Foi nessa mesma década que os moradores começaram a topar com pedras semipreciosas, segundo a Prefeitura de Ametista do Sul. Elas estavam junto às raízes das árvores, nas encostas dos córregos e nas lavouras recém-abertas.
A extração começou artesanal, em escavações no formato de poço, com uma abertura lateral chamada carregador. O relevo acidentado facilitava o trabalho. Ninguém imaginava que aquilo viraria a principal atividade econômica do lugar.

Uma matriz erguida com doações de garimpeiros
A devoção veio antes da riqueza. Em 1945 os colonos construíram um capitel com a imagem do Arcanjo São Gabriel, e o povoado passou a levar esse nome. O marco original segue de pé no centro da cidade.
Décadas mais tarde, quando a igreja definitiva foi erguida, a comunidade decidiu pagar em pedra. O Governo do Estado do Rio Grande do Sul registrou a entrega do templo em 28 de outubro de 2007, com 30 toneladas de ametistas doadas por garimpeiros e famílias locais.
O revestimento continuou crescendo depois da inauguração. Hoje a Prefeitura contabiliza mais de 40 toneladas de minerais nas paredes e no altar da Igreja Matriz São Gabriel, apontada como a única do mundo forrada com pedras preciosas. A pia batismal é um geodo inteiro, em formato de concha, com 500 quilos.
O que sobrou embaixo da terra virou negócio
Nos anos 1970 a exploração mudou de escala. Empresas exportadoras chegaram à região e os poços rasos deram lugar a túneis, chamados de furnas, que chegam a vários quilômetros de extensão. Quando uma furna se esgota, ela não é fechada.
Essas galerias mantêm temperatura estável e escuridão total o ano inteiro, condição que a cidade aprendeu a aproveitar. Os atrativos abaixo constam do cadastro da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul e da Prefeitura.
- Coperametista: pioneira no envelhecimento de vinhos em furnas desativadas, com temperatura constante de 17°C.
- Vinícola Ametista: mantém a produção em galerias antigas de extração e coleciona premiações no estado.
- Mina Beer: microcervejaria instalada dentro de uma mina desativada, descrita pelo governo gaúcho como a primeira subterrânea do mundo.
- Belvedere Mina: complexo com hotel e restaurante temático montado em mina preservada, além de visita a garimpo em atividade.
- Pirâmide Esotérica: espaço de meditação com paredes internas revestidas de minerais, orientado pelos pontos cardeais.
- Trenzinho das Pedras: percurso pela mata nativa com mirantes voltados para os garimpos ativos.
A ametista que virou símbolo oficial do estado
O reconhecimento saiu do município e chegou ao Palácio Piratini. A ametista foi escolhida mineral símbolo do Rio Grande do Sul em projeto de lei apresentado em 2013 e aprovado pelos deputados estaduais em 2015, conforme registra a Prefeitura.
Os números guardados nos acervos locais ajudam a explicar a escolha. O Ametista Parque Museu reúne mais de 1.500 exemplares de minerais e concentra achados que dificilmente se repetem.
- Ametista mais valiosa: a maior peça extraída em cerca de 80 anos de atividade pesa 2,5 toneladas.
- Meteoro: o maior encontrado no estado, com 131 kg, está exposto no mesmo acervo.
- Selenita: a peça mais valiosa do tipo no museu chega a 2.016 kg.
- Pia batismal: um único geodo de 500 kg cumpre função litúrgica na matriz.

Um município jovem com nome emprestado da pedra
A cidade que hoje aparece em roteiros internacionais é mais nova que boa parte de seus visitantes. São Gabriel virou distrito de Iraí em 1958, foi extinto, recriado em 1964 sob Planalto e só ganhou autonomia em 20 de março de 1992, pela lei nº 9.570.
O nome atual nasceu de um problema burocrático. Como o estado já tinha um município chamado São Gabriel, a comissão emancipacionista escolheu batizar o novo território com a referência à sua principal riqueza mineral.
São 93,49 km² a 481 metros de altitude, 438 km de Porto Alegre e 93 km de Chapecó. Um espaço pequeno no mapa, com quilômetros de galeria escavados por baixo.
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Vale conhecer a cidade que brilha por dentro
Poucos lugares no Brasil transformaram o próprio subsolo em identidade tão completa. A pedra que apareceu numa raiz de árvore virou economia, virou fé, virou adega e acabou virando símbolo de um estado inteiro.
Você precisa descer numa dessas furnas e entender por que Ametista do Sul não se explica só pela superfície.