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A psicologia não afirma que crianças nascidas entre 1955 e 1978 se tornaram mais fortes, mas explica por que aprender a lidar com as próprias emoções fortalece qualquer criança

Pesquisas de Harvard e de pediatras mostram que resiliência se constrói com apoio e desafios possíveis, em qualquer geração

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A psicologia não afirma que crianças nascidas entre 1955 e 1978 se tornaram mais fortes, mas explica por que aprender a lidar com as próprias emoções fortalece qualquer criança
Brincar e resolver conflitos sem adultos por perto ajuda a treinar a autonomia, apontam pesquisadores - Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

A frase circula nas redes como se fosse conclusão científica: quem nasceu entre 1955 e 1978 teria ficado mais forte por precisar lidar sozinho com os sentimentos. Nenhum estudo mede essa geração dessa forma. O que a pesquisa mostra é como a resiliência se constrói, em qualquer época.

De onde vem a ideia de que essa geração era mais forte?

A ideia nasce da memória de uma infância com mais rua e menos supervisão. Crianças daquele período brincavam longe dos adultos, iam sozinhas a lugares próximos e resolviam boa parte das brigas entre si. Para muita gente, essa liberdade virou sinônimo de força.

Essa liberdade tinha outro lado. Sem celular e sem adultos por perto, pequenos acidentes e conflitos precisavam ser resolvidos na hora, com os recursos que cada criança tinha. O resultado variava muito de uma casa para outra.

A psicologia não afirma que crianças nascidas entre 1955 e 1978 se tornaram mais fortes, mas explica por que aprender a lidar com as próprias emoções fortalece qualquer criança
Relações de apoio e treino de habilidades são os dois alicerces da resiliência, segundo Harvard – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

No Brasil, essas crianças cresceram antes do Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, que passou a tratar da proteção integral à infância. Lembranças de infância, porém, não funcionam como estudo. Elas mostram a experiência de quem conta a história, não a de uma geração inteira.

O que se aprendia brincando sem adultos por perto é justamente o tema de outra reportagem sobre quem nasceu nos anos 1970.

O que a ciência diz sobre como a resiliência se forma?

O Centro para a Criança em Desenvolvimento da Universidade Harvard aponta dois alicerces da resiliência: relações de apoio e construção ativa de habilidades. Segundo o centro, aprender a lidar com ameaças administráveis, o chamado estresse positivo, é decisivo para desenvolvê-la.

O ponto central é a dose. Desafios que a criança consegue enfrentar, com um adulto de confiança por perto, ajudam a treinar a regulação das emoções. A adversidade intensa, sem apoio, pesa do outro lado dessa balança.

Na prática, isso significa nomear sentimentos, esperar a vez, aceitar uma derrota no jogo ou pedir ajuda quando algo sai do controle. São habilidades treinadas aos poucos, não traços que surgem sozinhos com a idade.

O próprio centro usa a imagem de uma balança para explicar esse equilíbrio. O vídeo, em inglês, mostra como experiências de proteção e habilidades aprendidas compensam as adversidades.

As crianças de hoje estão menos preparadas para frustrações?

Há pesquisadores que defendem uma parte dessa ideia, mas por outro caminho. Em 2023, Peter Gray, David Lancy e David Bjorklund publicaram no The Journal of Pediatrics um comentário que reúne evidências sobre o tema.

O texto aponta a queda das atividades independentes como uma das causas da piora no bem-estar mental de crianças e adolescentes. Os autores partem de um dado dos Estados Unidos, onde ansiedade e depressão nessa faixa etária atingiram níveis recordes.

A conclusão não diz que a infância antiga era melhor. Ela sugere que brincar, errar e resolver problemas sem um adulto intervindo o tempo todo ajuda a criança a ganhar autonomia. Proteger demais também tira oportunidades de treino.

Isso inclui situações simples, como ir sozinho à padaria, combinar as regras de uma brincadeira ou resolver uma briga com o colega. Cada experiência dessas, na medida certa para a idade, funciona como ensaio para frustrações maiores.

A psicologia não afirma que crianças nascidas entre 1955 e 1978 se tornaram mais fortes, mas explica por que aprender a lidar com as próprias emoções fortalece qualquer criança
Desafios na medida certa para a idade funcionam como ensaio para frustrações maiores – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Então quem nasceu entre 1955 e 1978 é mais forte ou não?

Não existe prova de que essa geração seja emocionalmente mais forte. Existe, sim, evidência de que enfrentar desafios possíveis, com apoio, constrói resiliência. Isso valia em 1960 e continua valendo hoje, com qualquer criação.

Se você cresceu nessa época, vale olhar para trás com carinho e sem idealizar. E, se cuida de crianças hoje, experimente deixar que elas resolvam pequenos problemas sozinhas, sempre com você por perto.

A infância sem tecnologia também deixou outras habilidades para quem cresceu nas décadas seguintes.